Capa de Crônicas de Kanh

Crônicas de Kanh

Capítulo 5 — Três

Capítulo 3

Caminhando junto a seus companheiros, os olhos do ruivo voltam-se para o horizonte. Era um horizonte como um qualquer. Porém, o homem sentia algo de diferente.

Um sussurro. Ouvia algo. E… Precisava procurar alguém.

Seu foco é voltado para as outras quatros pessoas ali. Dentre eles, uma mulher estava montada em um cavalo. O tapa-olho do lado direito de seu rosto chamava a atenção de todos que a conheciam, não sabendo o motivo dele. Bleeim gostava do objeto, achava que combinava com ela, perdida em seus pensamentos.

Não era ela.

Duas pessoas caminham logo atrás. Um deles, um jovem na casa dos dezesseis anos, olhava freneticamente para todos os lados, analisando as árvores de eucalipto, os passarinhos que passam pelo local, alguns animais ao longe e, saindo de sua posição ao desaparecer em raios, retornava carregando algo.

-Bleeim! Olha! -O garoto, de cabelo loiro e pupilas de diferentes cores, declara sorridente indo até o ruivo. -É aquele passarinho que eu falei!

-Pae, para de pegar os passarinhos assim! Olha, ele tá assustado! -O homem atrás deles declara, arrumando seu cabelo branco com mechas pretas. Estava incomodado. O seu companheiro não dá a mínima e continua a mostrar a ave, presa na força amarela.

-É um Sabiá, Amarelo? -O ruivo calmamente questiona, chamando-o pelo seu apelido.

-Sim! Olha a barriga laranja dele! -O garoto mostra a parte colorida do passarinho, já tendo desistido de tentar se libertar. -Ele está ferido, posso levar ele? Posso? Diz que sim!

-Cure e solte o coitado, Amarelo. Passarinhos vivendo em uma gaiola são uma desgraça. -A voz da mulher é como uma facada.

-Sim… Sim senhora Yumi. -Ele murmura, murchando. Em seguida, sua aura envolve o passarinho, tendo o corte em sua asa esquerda fechado pela energia amarela. Apesar de querer levar o animal, o jovem concorda que prendê-lo seria uma real desgraça.

Soltando-o, o animal decola voo no céu, cantando alegre até desaparecer em meio ao horizonte.

-Que despedida dramática. -O quarto membro declara, o que faz os nervos do Amarelo saltarem.

-Cala a boca, Evan! -Encarando seu colega que, arqueando as sobrancelhas, cruza os braços.

-Vem calar. -O homem levanta o rosto, disposto a comprar uma briga. O Amarelo dá um passo na direção dele, pronto para dar-lhe uma pancada e, Bleeim levanta a mão, chamando a atenção deles ao parar o cavalo da Yumi. -Eh… O que aconteceu?

-Amarelo, você está ouvindo isso? -A questão faz o garoto arquear as sobrancelhas. Aparentemente, não havia barulho diferente do normal no local. Nem a audição sensível do jovem estava ouvindo qualquer coisa estranha.

Focando em tentar ouvir algo, o Amarelo invoca sua aura em forma de eletricidade, concentrando-a nas orelhas. A energia toma forma das orelhas de um lobo, cobrindo a sua cabeça conforme torna-se mais sensível a vibrações no ar, ouvindo colisões.

-Estou, alguém está lutando. -A declaração faz Bleeim cerrar os dentes. Algo realmente estava acontecendo ali.

-Vamos logo! Evan, você fica com Yumi. Tem algo de errado aqui!

***

O ar torce junto da lâmina.

Atravessando a armadura de Tobias, rasgando seu peitoral até cravar-se no solo, a reação do cavaleiro é puxar sua espada ao imbuí-la com o máximo de aura que conseguia antes de cortar o assassino em resposta.

Ao menos, essa era a intenção do golpe.

O assassino abandona sua adaga e recua num salto, desviando com folga. Cacos de gelo surgem pelo ar e, antes de Tobias explodir a magia, o garoto agarra-os.

“O que?” A magia é rompida pelas mãos do Numerado, sequer sendo arranhado pela dispersão da aura. “Isso só pode ser brincadeira.” Erguendo-se, a incredulidade é acompanhada pela dor. Era a primeira vez que via alguém quebrar uma magia com as mãos nuas.

O cabelo branco do assassino reluz junto dos olhos azuis, analisando o cavaleiro enquanto ele usa a arma de aura para fechar seus ferimentos. O Numerado não parecia se importar com a fuga dos outros assassinos. Também não estava se importando em dar tempo de Tobias reagir. O vampiro não está nada feliz. Caso tivesse reagido um único instante mais tarde, teria tido seu corpo partido em dois. Sua vida poderia ter ido embora naquele único movimento.

-Um bruxo? -O jovem assassino pergunta, retirando a sujeira pela roupa cinza criada pelo gelo em leves movimentos. Seus olhos safiras passam pelo corte feito no peitoral de Tobias, congelado por um gelo vermelho. Aquele traço de energia era… Exótico. -E um vampiro?

Isso assusta o Cavaleiro. Como estava em uma situação de vida ou morte, não estava escondendo a natureza de sua aura. Contudo, reconhecer a aura de um vampiro não era fácil. Ela era extremamente similar a de um humano. Sem ideia de como aquela pessoa chegou nessa conclusão, talvez pela velocidade que havia fechado o ferimento ou por como havia manipulado o próprio sangue para resistir ao ataque, sua aura procura a presença de Laissa, ainda presa na magia.

O Numerado definitivamente conseguiria destruir aquilo.

-Também drenou a aura do local e a energia vital para fechar os danos causados ao seu núcleo? Pensou rápido, admito. Se eu fosse mais lento, teria arrancado parte da minha aura também. -O assassino deduziu o que ele havia feito em segundos. O pressentimento ruim de Tobias piora, fazendo seu coração apertar junto da presença do jovem, provavelmente na casa dos 16 anos. Aquilo era perigoso. -Mas, com toda certeza precisou fazer um voto para ser tão eficiente. Deixa eu adivinhar, sem outra magia de sangue pelos próximos cinco minutos?

Aquilo era um chute. Fazer votos tinha um conceito simples: dificultar a aplicação da magia para a fortalecer. Era como a vocalização da magia de Tobias para ativá-la.

-Na Floresta nunca nós ensinaram a fazer isso. Se eu te der uma morte rápida, você me ensina?

-Você fala demais. -O cavaleiro levanta, energizando sua espada ao olhar para a adaga cravada no solo, repleta pela energia do Numerado. Tudo o que ele falou é verdade. Só havia um detalhe: Tobias não fez um voto para aumentar sua eficiência com magia de sangue em troca de não usá-la apenas por cinco minutos, mas sim por meia-hora.

-E como não falar!? Você é um híbrido de duas raças raras! O meu hobbie era estudar as diferentes adaptações da raça humana pelos continentes! -A espécie de armadura reluz em energia verde, denunciando seu entusiasmo ao olhá-lo dos pés à cabeça como se fosse um animal. -Você é tipo um puma albino! Ou… Ou uma onça-pintada totalmente negra!

-Um numerado fan de biologia? Chega a ser irônico. -O cavaleiro fica extremamente irritado com a comparação. A aura do local gira, reagindo a sua preparação para lutar. -O que faz com suas vítimas? Disseca?

-Nunca fiz isso, mas é uma boa ideia! -O gelo alastra-se pelo solo em uma explosão.

A adaga no chão move-se pelo ar em direção a Tobias, refletindo-a por reflexo. Pegando-a já diante do vampiro, o assassino ataca uma segunda vez e suas armas colidem novamente, afundando os pés do cavaleiro no solo conforme suas feridas abrem na colisão. Sendo obrigado a redirecionar o golpe, ele questiona-se como alguém tão novo é tão forte e outro golpe atinge-o com tudo.

Recuando a cada colisão, seu foco é voltado para a defesa, sem ter chance alguma de contra-atacar. Os detalhamentos dela reluzem, iluminando a cobra verde desenhada no lado lateral da lâmina antes da aura do assassino ser lançada em um disparo.

Desviando em um rápido movimentos de pés, sentindo o ar torcer com a mudança da gravidade do local, o dom do assassino é ativado. Sem ter a chance de sequer respirar, o vampiro outra vez desvia de outros cortes de aura que, torcendo a gravidade do local ao puxá-lo em sua direção, mudavam suas rotas em pleno ar antes de retornarem em parábolas.

“Teleguiado!? Sério!?” Disparando a correr, Tobias desvia em saltos dos ataques, usando as árvores de eucalipto como escudo enquanto o assassino persegue-o, desferindo cada vez mais golpes, cercando-o. Sabendo que não aguentaria correr para sempre, sua arma de aura é ativada em potência máxima. Virando-se, seus olhos vermelhos cintilam junto do colar.

Como se uma bomba de gelo explodisse ali, cacos de vidro são lançados pelo local ao atravessarem os cortes. Simplesmente rompendo-os, o assassino continua a persegui-lo sem medo algum.

E, outra vez, Tobias não acredita no que vê. A aura branca envolve-se pela lâmina verde em uma forma líquida, condensando antes do golpe dele atravessar o gelo como manteiga, partindo toda a região congelada.

Uma lâmina de aura líquida. Tobias desvia por causa de centímetros. Sem tempo para reclamar. Sua única possível ação é a de lutar. Apertando o cabo da arma com as duas mãos em força máxima, seu colar ressoa ao descê-la. O assassino ergue a lâmina verde e, na colisão, o gelo é rompido pela força branca, tornando-se vermelha conforme a gravidade torce o local feito massinha.

Protegendo-se com o gelo, a força do golpe retira seus pés do solo. Sendo lançado para trás, a gravidade atinge-o, mandando-o de volta para o Numerado conforme a adaga verde brilha ainda mais. “Droga!” Sem tempo de entoar uma magia, o gelo que surge em explosões é partido pelo golpe sem dificuldade alguma, acertando novamente a arma do vampiro. “Eu estou perdendo todas as disputas de força!” Resistindo a alteração da gravidade, seus pés afundam no solo e outros três ataques são bloqueados. Sentindo sua espada ficar cada vez mais pesada, o vampiro também estava perdendo a disputa de aura.

Se sua aura continuasse a falhar naquele ritmo, a gravidade torceria seu corpo feito massinha.

Como se o peso de sua espada tivesse sido multiplicado por dez, Tobias é puxado para baixo enquanto o golpe do assassino vinha na mesma direção. Desviando a direção do golpe com o gelo, sendo atravessado ao passar raspando á cabeça do vampiro, a arma fica ainda mais pesada.

-Tá pesado? -Outro corte, a espada é colocada na frente e, na colisão, fica novamente mais pesada. Tobias aplica ainda mais aura nela, tentando lutar contra a suposta habilidade ou dom enquanto o garoto abre a mão, descendo-a em seguida.

A arma atinge o solo. Agora, apenas mantê-la em mãos estava sendo difícil. O jovem avança, imbuindo sua adaga em aura ao ver Tobias abandonar sua arma, abrindo as mãos na direção dele.

Sem hesitar, o assassino golpeia.

O cavaleiro, invocando seu gelo em uma explosão que é cortada, levanta uma nuvem de aura que rapidamente se torna gás, não causando dano algum no jovem que a atravessa antes de cravar os pés no solo. Não acertou o seu alvo.

-Se escondeu? -Os olhos azuis procuram o vampiro junto de sua aura e, uma mão surge da nuvem.

A adaga corta-a. O sangue espalha-se pelo ar, congelando conforme a silhueta de Tobias revela-se, com a outra mão aberta e com o colar nela.

Os pelos do jovem se arrepiam, o tempo parece desacelerar e, o gelo explode o peitoral do assassino.

O segundo seguinte parece uma eternidade. O Numerado recua um passo, sentindo o impacto enquanto a adrenalina mascara a dor de Tobias, abrindo a boca ao preparar-se para entoar uma magia com toda a sua aura restante.

A silhueta do jovem desaparece diante dos olhos do vampiro. Recuando por puro instinto, o seu peitoral rasga da esquerda até a direita em um corte.

Seu mundo treme. O corte, aparentando mais um rasgo, faz sua aura falhar enquanto o colar voa, tendo sido arrancado de sua mão.

Sem sequer ter tempo de praguejar, a silhueta do jovem surge diante de Tobias, com as duas mãos fechadas na adaga, pronta para atacar.

O tempo desacelera. A serpente verde brilha, reluzindo diante do olho de Tobias, conseguindo ouvir seu próprio coração bater.

Era o fim.

“Me desculpe, Laissa.” Já imaginando-se diante de seu criador, de Taylor, de Laissa, de Alucard e Luizen, a culpa e a previsão da dor que viria unem-se a um rápido movimento do Numerado, acelerando a percepção de tempo do vampiro enquanto um raio atinge em cheio a lâmina diante de sua face.

O silêncio toma o local. O ar escapa dos pulmões de Tobias, vendo a arma mágica subir.

Faíscas atravessam as mãos e braços do assassino, arregalando os olhos conforme, um punho surge diante de seu rosto.

O Numerado não tem tempo de reação. Seu rosto é afundado pelo golpe, descarregando eletricidade e aura nele em uma explosão antes de seu corpo ser projetado feito um disparo de canhão pela floresta.

O jovem atravessa duas árvores, colide três vezes contra o solo e, enfiando ambas as mãos no solo, seus olhos azuis focam enquanto a tatuagem em seu pescoço brilha. Seu corpo estabiliza, a arma mágica para no ar e segue direção a seu dono conforme seu corpo reage.

E, novamente,um clarão toma a floresta de eucalipto.

Quando os sentidos de Tobias retornam, o Numerado novamente está no ar, dessa vez com um buraco em sua barriga.

Sendo lançado dentre as árvores, arrebentando uma antes de sair batendo contra o solo, ele quebra uma segunda antes de colidir contra uma rocha, parando nela junto da queda de sua lâmina verde, sendo agarrada.

-Não levante. -Em meio a eletricidade, o garoto loiro de pupilas de diferentes cores alerta ao quebrar a arma mágica. -O terceiro vai te matar.

Tentando exatamente levantar, 050 sente seu corpo tremer violentamente. Sua mente começa a falhar, sangue surge em sua boca e, antes de sua consciência sumir, ele ativa a magia de sua líder.

Abaixo dele, um portal abre-se. A lâmina verde some das mãos do garoto, apenas observando o assassino empurrar a pedra, jogando-se na direção do portal, onde duas mulheres olham-no.

Uma corre na direção do assassino, saltando ao pegá-lo no ar. A outra, olha diretamente para o dono da eletricidade.

Então, o portal se fecha.

-É, fugiu. -Ele murmura, voltando os olhos para o Tobias, ainda sem ter conseguido processar tudo aquilo. Então, a surpresa domina-o. -Você… Tá bem?

Sem entender de imediato o motivo da preocupação, a lembrança do último golpe em seu peitoral retorna. Então, abaixando sua visão, o sangue escorrendo por todo o peitoral do cavaleiro faz seu corpo fraquejar.

-Ah não, eu não deveria ter perguntado! -O mundo de Tobias gira. Sua aura, instável, sequer consegue congelar o ferimento. E, ainda estando sem conseguir utilizar sua magia de sangue, as forças dele desaparecem conforme seu corpo cede, indo pro chão.

Sendo segurado antes de cair, o jovem vira-o para cima e, observando a cor de Tobias sumir, começa a entrar em pânico.

-Ei! Não desmaie! -A voz dele mal pode ser ouvida por Tobias, sequer se preocupando consigo mesmo.

Mas sim com aquela que deveria proteger.

-Laissa… Está na carruagem. -Ele balbucia, com a escuridão tomando conta do seu mundo. -Não deixe… Eles… Machucarem ela.

“Deus, eu falhei de novo?”.