Capa de Crônicas de Kanh

Crônicas de Kanh

Capítulo 4 — Dois

Capítulo 2

Tobias sente um gosto amargo na boca.

Estava ansioso. Seus olhos, fixados nas paredes brancas da igreja, questionavam-se sobre si mesmo e sobre Laissa. Ela estaria segura? Somente a sua presença seria o bastante para protegê-la? A pele abaixo de seu olho esquerdo pulsa junto de seu coração, um tique. Fragmentos de gelo surgiam em sua volta, estalando em compasso as vezes que seu pé esquerdo batia no chão.

-Você sempre chega cedo… Mas é a primeira vez que chega duas horas antes. -A voz de um amigo retira-o de seus pensamentos. Olhando-o, o simples homem sorri ao colocar a mão em seu ombro, sem saber há quanto tempo estava ali. Muitas pessoas perderiam o braço por isso, ele não. -Aconteceu algo?

-Hoje não vou poder participar do culto. Então... Ao menos passei aqui. -Levando a mão até o colar dado por Taylor, a arma de aura chama a atenção de seu amigo. Aquilo era poderoso o bastante para matar centenas. Contudo, o amigo não se sentia ameaçado.

-Vai ser o segurança de alguém? -A brincadeira arranca uma risada baixa dele, movendo um pouco sem jeito na própria armadura preta e vermelha, velha e surrada. Havia usado aquela roupa anos atrás quando precisou se esconder na mata à frente de Kanh. Preferia não se lembrar daquilo. -Cuidado com essa espada, em? Capaz de se cortar com ela.

-Pode deixar. Eu pretendo não usar ela. -Sua atenção retorna para a igreja ainda fechada. O pressentimento ruim que fez ele treinar três vezes mais nesta semana está cada vez pior. -Marco, pode orar por mim? Estou… Com um pressentimento ruim. Espero que seja coisa da minha cabeça, mas… Sei lá.

-Como se eu já não fizesse isso. -Marco dá um soquinho na ombreira de Tobias, não reagindo. Um suspiro escapa dele, notando o ótimo humor de seu amigo. -Pode deixar. Eu até perguntaria se gostaria de conversar, mas... Acho que está com pressa.

-Estou. Vou sair em dois minutos. Talvez eu sequer volte até amanhã. -“Principalmente se eu morrer.” O pensamento é cortado por um forte balançar de cabeça. “O que raios estou pensando!? Nada vai acontecer, nada!” Outro suspiro, o colar tremia no aperto. -Te dou notícias quando eu voltar.

Antes de Marco abrir a boca, dois cavalos listrados aproximam-se junto da carruagem. O cocheiro, claramente mal humorado, chama Tobias com um gesto de cabeça. Estava com pressa. O jovem apenas olha para Marco, sinalizando para ele ir tranquilo.

-Vai com Deus, irmão. -Eles se despedem em um aperto de mão.

Entrando na carruagem, Tobias sente-se desconfortável ao ver Laissa, extremamente arrumada. Usando uma jaqueta preta com uma blusa branca por baixo, além de uma calça jeans também preta. Seu cabelo loiro está solto, assim como seu olhar, claramente analisando cada reação de Tobias em sua armadura surrada.

Não abrindo a boca, ele senta-se e encosta sua espada do seu lado. Laissa ri.

A risada dela seria a última coisa leve no dia de Tobias.

***

Durante a manhã, eles foram para o Reino de Condão. Chegando lá, o carroceiro parou na área dos nobres e o grupo foi na direção do homem que havia contatado Taylor. Depois de tomar um pouco de café, Laissa e Henrique, o nobre responsável pela compra de alimentos para aquele Reino, acertaram o acordo. Tobias permaneceu ao lado dela o tempo inteiro e estranhou o quão fraco os outros soldados eram. Até mesmo o Cavaleiro daquele nobre parecia ser… Medíocre. Os recrutas que treinavam com ele com toda certeza cuidariam dele caso se juntassem nele, o que é inadmissível para um cavaleiro formado.

A ideia fez o jovem sorrir um pouco. No fim, Taylor estava certo sobre o quão fraco os novos Cavaleiros eram. Desde que havia pisado ali, Tobias estava sendo mal olhado por todos. O motivo? Suas características. Pele escura e cabelo preto como carvão. Apesar da magia de ilusão esconder a cor real de seus olhos, apenas sua cor era motivo de encrenca.

O carroceiro, um antigo funcionário de Taylor, aparentou se comover com o garoto e lhe entregou uma garrafa de água. Tobias achou isso gentil, porém não bebeu uma única gota daquela garrafa.

Ele tentou permanecer o mais quieto possível. E tendo conseguido sair do Reino sem causar nenhuma confusão, o jovem permanece sentado diante de Laissa, enfim suspirando na carruagem.

-Que dia longo. -Ela permite-se relaxar no banco da carroça, puxando a própria roupa pro ar circular. O incômodo de estar com roupas chiques a faz querer ir embora o mais rápido possível. A loira conseguiu ficar vinte minutos calada na presença de Tobias, um recorde. Apesar do Reino de Condão ser próximo, resolver política nos negócios consumia muito tempo. Por isso, eles estavam felizes de voltar enquanto ainda era dia. Não precisariam passar a noite lá.

-Nem fala. -A baixa resposta acende uma lâmpada em Laissa. “Então está querendo conversar!?” Sequer tendo tido esse pensamento, os olhos dele continuam na estrada. -Pelo menos estamos indo embora, indo embora bem.

Silêncio. A mulher fica incomodada. Ele sempre foi preocupado, mas nem tanto. Talvez fosse somente uma preocupação exagerada com ela. Isso a deixava feliz. Contudo, acreditava que isso era somente uma fantasia sua. Coitada. Então, tomando novamente a água que o carroceiro deu, sua decisão é de ficar calada.

Um pressentimento estranho começa a incomodá-la. Seus olhos passam pela estrada, repleta de árvores e asfaltada. Apesar de ser asfaltada, de ter árvores, não era familiar.

-Tobias, fizemos algum desvio? -A pergunta faz o jovem arquear as sobrancelhas.

-Como assim? -Ela aponta para fora. Olhando na direção indicada, o jovem logo entende. Durante o caminho, eles não viram uma única árvore de eucalipto. Porém, havia várias ali.
Os pelos dele se arrepiam. “Quando desviamos do caminho? Isso não pode ter sido um engano.” Levantando, os olhos de Tobias focam, ficando vermelhos conforme sua aura sente o carroceiro parar os cavalos.

“Ele nós ouviu.” A espada é agarrada por puro reflexo. “O que estou fazendo!? Ele é um homem de confiança!” A lembrança de Taylor retorna em seguida, lembrando-o de que Tobias era a única pessoa confiável dele no momento. “Por favor, não.”

-Edgar, o que isso significa? -Procurando qualquer sinal de outra pessoa na região, o jovem acompanha o carroceiro calmamente levantar, voltando o corpo para a direção deles, ainda na parte frontal da carroça.

-Preciso que os dois cooperem. -Estando separados pela estrutura metálica da carroça, reforçada exatamente por questões de segurança, o jovem abre a mão para Laissa, sinalizando para ela não se levantar. -A menos que não queiram sair daqui vivos, é claro.

-Edgar, não me obrigue a fazer isso. -As palavras de Tobias ressoam enquanto Laissa começa a tremer, ainda não conseguindo processar o que está acontecendo. “Ele, ele nos traiu.” Seu corpo começa a tremer ainda mais. Não por medo, mas… Por algo diferente.

-To… Tobias, ele… -O jovem leva o dedo à própria boca, educadamente mandando-a calar a boca. Porém, sentindo um forte enjoo conforme seu corpo parece enfraquecer, o desespero fala mais alto. -Tobias, eu não estou conseguindo respirar.

A atenção dele é voltada totalmente para Laissa, pálida. Um flash de pensamentos atravessa a cabeça de Tobias, terminando na água.

Veneno. A água estava envenenada.

-Não é nada pessoal. Negócios sã… -A parede da carroceria é atravessada por cacos de gelo.

A fala de Edgar é cortada junto de seu corpo, sendo levantado pela aura de Tobias que, de uma única vez, materializa-se em gelo ao cravar o homem em estacas no solo.

Os cavalos relincham e as cordas que prendem-nos são seguradas por Tobias em meio aos berros de Edgar, não conseguindo se mover enquanto outros quatros cacos descem do ar, cravando suas pernas e braços.

-Como!? Você deveria estar envenenado! -O grito dele apenas enfurece o Cavaleiro. Conseguindo prender os cavalos antes de olhar ao redor, não vendo e nem sentindo aura alguma por perto, a raiva faz seus caninos pontiagudos atravessarem a ilusão.

“Eles estão esperando eu me descuidar.” A possibilidade de não ter mais pessoas ali era zero. Sua aura muda, esfriando ainda mais o local conforme fita o carroceiro.

“Deveria matá-lo?” O pensamento transpassa sua mente.

-Curiosidade dos vampiros para você. -Tobias vocifera, indo para dentro da carruagem. A prioridade não era executar o traidor. -Nós sentimos pouquíssima sede. Eu não tomei um único gole dessa maldita água.

-É acha que isso vai ser melhor!? Te envenenar foi um favor! Agora você vai ser morto! -Ele pragueja. Tobias ignora-o totalmente. Aproximando de Laissa, desesperada conforme seus olhos começam a fechar, o jovem leva a mão até seu rosto da forma mais gentil que conseguia, odiando ter que fazer isso. Com seu conhecimento de magia, poderia tentar ajudar.

-Isso vai doer. -Ele alerta. Uma leve risada escapa dela. -Eu tentarei filtrar o veneno.

O motivo de seu ódio à própria magia? É extremamente doloroso para a sua vítima.
Laissa apenas concorda e, quando a magia é aplicada, a face da jovem contorce conforme sua pele branca fica vermelha feito uma rubi, reagindo a manifestação da aura de Tobias.
Retirando a mão do rosto dela, a atenção de Tobias é voltada para fora enquanto Laissa vomita o veneno junto ao sangue. Aparentemente, havia dado certo.

E, Tobias sente alguém se aproximar.

“Chegaram” Com sua aura expandida, ele sente cinco pessoas se aproximarem em meio aos eucaliptos, cercando-os. Utilizando sua outra magia inata, a “Ordem”, como sua mãe gostava de chamar, a posição deles e suas armas eram checadas. Todas as adagas imbuídas em aura. Haviam alguns amplificadores de magia também. Pelo menos nenhuma arma de aura, definitivamente a coisa mais perigosa que poderia aparecer ali.

As armas pareciam ser invocadas por suas próprias energias, eram conhecidas como armas mágicas. Apesar de serem resistentes e poderem ampliar a manifestação da aura e dom de um despertado, não eram tão perigosas.

Pondo a mão em seu colar, ele decide não usar sua arma mágica. Ainda era instável, o presente de Taylor precisa servir. “Você é um prodígio.” A fala dele retorna, fazendo-o apertar o cabo da espada com ainda mais força. “Conto com você caso alguém ataque minha garota, ok?” Ele estende a mão na direção de Laissa, subindo os olhos ao senti-lo invocar sua aura de gelo.

“Ninguém vai encostar um dedo na sua filha.”

-Escamas do dragão de gelo, como uma armadura, ergam-se! -A magia entoada é concluída no fechar de sua mão. O gelo irrompe pela carruagem, cercando a mulher antes de envolver totalmente seu corpo em meio a seu grito, criando um cristal em sua volta ao deixar um espaço para o ar circular. Ela bate nele por puro reflexo, incrédula e presa. Porém, segura. -Laissa, Taylor te deu um artefato para avisar ele sobre problemas. Use ele.

-E você!? -O protesto abafado pela proteção é acompanhado por outra magia. Dessa vez, não vinda do jovem.

Um corte de luz é refletido pelo gelo, atravessando o ar à esquerda de Tobias em um piscar de olhos. A parede da carroça é cortada, uma espada rasga o ar em direção ao cavaleiro e, como se o ar dobrasse, a arma é torcida em uma espiral. A luz emitida pelo assassino é esmagada pela aura azul, expondo seu peitoral que é aberto em um único corte.

O assassino sequer tem tempo de grunhir pelo golpe. A força invocada atinge-o como uma marreta contra o solo, esmagando seu peito instantes antes da bota de Tobias afundar sua cabeça.

A temperatura do local despenca enquanto Laissa perde ar de seus pulmões. O sangue espirrado congela, crescendo em fragmentos que começam a girar conforme a bota é retirada do crânio esmagado. A silhueta de Tobias escurece para a loira, não conseguindo processar o que aconteceu.

-Tobias… -Os olhos do vampiro, vermelhos como uma rubi, procuram algo em sua volta. Estava vendo além da carroça. A imagem do guerreiro diferenciava-se e muito do jovem que conhecia. -São… São assassinos…

-Não se preocupe, apenas use o artefato. -Sua aura denunciava seu pensamento: Se aproximarem, irei matar. Desativando a ilusão que escondia sua identidade, inútil agora, o vampiro faz o que Davi o ensinou a fazer.

Um Cavaleiro deve exalar tanta força que seus oponentes desistirão ao vê-lo.

Um clarão. O gelo colide contra as forças, vindo de quatro direções diferentes conforme as armas são bloqueadas pelo cavaleiro. Segurando a própria espada com força ao ver seu dom ser rompido, sua magia ressoa junto do colar.

Eles não pretendiam desistir.

-Ordem! -O entoamento faz o chão afundar, rompendo o gelo ao lançar a força contra os assassinos. O primeiro e o segundo destroem o golpe com suas forças, abrindo espaço para o terceiro e quarto avançarem. Sem tempo de reagir e muito menos de invocar outra magia, Tobias reúne sua energia em volta da própria cabeça e órgãos vitais, sendo cortado em cheio pelo grupo, rasgando parte de sua armadura ao espalhar sangue pelo local.

O grito de Laissa mistura-se às auras, levantando os destroços de madeira antes dos quatro reagirem à aura do jovem, explodindo o local.

Sendo lançados para fora, os assassinos derrapam no solo antes de pararem metros a frente, quase ilesos. Eles não iriam cair na mesma magia duas vezes. Voltando a atenção para a carroça e os cavalos, tomada por uma nuvem de aura e gelo conforme os animais tentam se libertar, apavorados, o feixe de energia que atravessa-o quase arranca a cabeça de um.

Desviando por um triz, seus olhos encontram-se com a aura líquida em volta da espada de Tobias. Defendendo-se com sua lâmina, o arco do golpe altera o local como se o espaço dobrasse, batendo-o no chão conforme as estacas irrompem do solo, atravessando-o junto de sua aura. Os outros três assassinos avançam contra o vampiro, arrancando o último ar de vida do assassino ao explodir o gelo em seu peitoral e partir sua lâmina.

Desviando e bloqueando, Tobias começa a ser pressionado pelo trio conforme cria blocos de gelo pelo ar apenas para serem destruídos, desacelerando a investida que mal dava-lhe tempo de respirar. Revidando, sua espada erra o alvo, indo pra direita antes de uma adaga vir contra sua face, sendo congelada no instante seguinte. O homem erra Tobias que se afasta em um movimento circular dos pés, revidando em seguida.

A adaga congelada colide contra a arma do cavaleiro, resistindo ao impacto conforme expulsa o gelo dela, descendo a arma do jovem no movimento conforme os outros dois assassinos atacam tanto pela esquerda quanto pela direita.

Eles estão se afastando cada vez mais da carruagem. Utilizando sua magia no máximo para acompanhar a luta, reagia aos golpes combinados de dois deles, sem ter tempo para ver o que o terceiro golpeado momentos antes estava fazendo.

Em uma explosão de velocidade, Tobias dá uma ombrada no assassino a direita conforme sangue surge pelo ar, explodindo contra sua aura ao aumentar a força do vampiro, surpreendendo o segundo em um corte que parte a máscara preta em formato de V do assassino.

-Magia de sangue!? -A pergunta retórica é acompanhada por uma descarga imensa de aura pelo vampiro, preocupado com Laissa. A batalha deveria ser encerrada o mais rapidamente possível.

Então, um raio colide contra o peito de Tobias. Seus músculos enrijecem e seus dentes batem um contra o outro. Outro raio atinge-o, arrebentando o gelo que o protegia enquanto o assassino, em um movimento limpo, parte o pescoço do vampiro.

O cavaleiro tomba para trás. Os assassinos cessam os ataques, vendo o jovem tombar sem… Sem nem uma gota de sangue sair de seu pescoço, congelando. Por trás da máscara, os olhos do assassino se arregalaram, percebendo o que havia acontecido.

O colar de Tobias brilha. Sua arma de aura transforma o gelo em seu pescoço em carne novamente, zerando o dano do golpe ao condensar a aura do seu usuário em uma esfera de gás maciça, explodindo-a a queima roupa de seu alvo.

Grunhindo, o assassino cai ao segurar o próprio rosto, com marcas de queimadura e gelo espalhadas por todo o corpo. O sangue que escorre por ela enrijece, solidificando-se conforme todo o local reage à arma de aura do vampiro.

Cacos de gelo surgem pelo ar, o assassino prende a respiração e eles disparam.

O terceiro assassino, longe da luta, encara o gelo em volta de Laissa. A loira encara-o furiosa, somente agora conseguindo ficar de pé dentro da magia. Queria ajudar, queria fazer algo por Tobias. Porém, não conseguia fazer nada além de xingá-lo enquanto a magia era golpeada seguidas vezes, balançando-a dentro da mesma.

-A arma de aura dele é tão potente assim? -Revoltado por não ter conseguido sequer arranhar a magia entoada, a atenção dele retorna para a batalha. Queria usá-la como refém. Porém, já que não era possível, deveria matar o Cavaleiro primeiro.

Seus olhos cruzam com os de Tobias, com a mão aberta em sua direção.

-Dragão criador do gelo verdadeiro… -Os pelos do assassino arrepiam, o entoamento faz o ar em sua volta engrossar em compasso a reação imediata dos outros, preparando-se para uma magia em grande escala. -Devore-os!

O ar é rasgado junto da aura do vampiro, atravessando o local como uma verdadeira baforada dracônica. O homem em pé salta para longe conforme o caído se lança para o lado, quase sendo levados juntos do golpe que segue reto na direção do mercenário próximo de Laissa, tendo tempo apenas de se agarrar a porta destruída da carruagem e usá-la como escudo.

As vigas metálicas entortam-se junto das madeiras, rompendo antes do assassino ser isolado pelo local. Laissa sai rolando junto do cristal de gelo, batendo seguidas vezes contra o solo conforme a força é dissipada em uma tempestade.

Os outros dois assassinos, reagem junto dos relinchos dos cavalos. O pensamento de ambos é o mesmo: “Ele não vai aguentar lutar depois de uma magia desse tamanho!” Porém, os olhos de Tobias fazem o mais velho deles hesitar.

Posicionando a espada em sua postura de luta, sangue escorre de sua boca conforme a aura nele começa a se manifestar de forma diferente a anterior.

-Cuidado! -O alerta não chega a tempo ao companheiro, partindo para cima do Cavaleiro que, tomando a forma de um Cavaleiro Imperial, parte o ar com a própria aura.

A lâmina nas mãos do assassino rompe em duas e seu peitoral abre. Recuando ao refugar sem nem entender o que aconteceu, o ferido apenas vê Tobias se preparar para outro golpe, com ainda mais sangue escorrendo de sua boca.

Porém, seu golpe é interrompido pelo outro assassino. Recuando, os dois trocam golpes rápidos antes de estabelecerem uma distância mínima, cerca de cinco metros.

Tobias aperta o cabo da espada com ambas as mãos, pronto para tomar a posição de um Cavaleiro Imperial e, a adaga é jogada no solo.

-Vamos… Fazer um acordo. -O assassino da direita levanta as mãos.

O cavaleiro paralisa. “O que?” Levantando ainda mais sua guarda, esperando um ataque surpresa, o companheiro do assassino se afasta, grunhindo tentar estancar o ferimento coberto pelo gelo. Era uma ferida grande. Os segundos passam, nenhum ataque surpresa chega. O assassino arremessado da carroça ergue-se dentre os destroços, arrancando sua máscara ao cuspir sangue. Ele também não estava mais em condições de lutar.

Mais segundos passam, nenhum ataque chega. Tobias fecha a cara, unindo as sobrancelhas conforme fica ainda mais desconfiado.

-Um acordo? -Expandindo seu sensor de aura para procurar por outras pessoas no local, mas não há ninguém além deles ali. Estava tentando comprar tempo? -Tu tá tentando ganhar tempo na cara de pau?

-Não compensa lutar mais. Temos mais o que perder do que ganhar. -Ele aponta na direção de seus aliados caídos, ainda vivos. -E você corre o risco de perder mais. Você precisa tirar aquela mulher daqui caso queira viver, assim como eu preciso sair daqui com eles para sobreviver.

-E por que eu deveria acreditar em você? -Ainda estava alerta. Aquilo… Parecia estranho.

-Um Numerado está vindo. -Os pelos do vampiro se arrepiam. Seu semblante fecha, vendo a máscara cortada do homem rachar, revelando sua pele escura que rapidamente começa a borbulhar. Aquilo o assustou. “Uma magia de restrição?” A reação significava que ele estava quebrando uma magia de silêncio ao falar do Numerado.

O interior do cavaleiro contorce, não querendo acreditar nele. Um Numerado era um problema imenso. Muito maior do que alguns assassinos.

Tobias checa mais uma vez o local com sua magia da Ordem, lançando um leve pulso de aura pelo local. Porém, além deles, não há nada além de escombros ali.

-E ele vai vir nos matar assim que descobrir sobre o plano de nosso grupo. Essa missão era dele, mas viemos fazer ela antes do combinado enquanto os outros emboscam ele. -A expressão de dor do homem piora. Sangue começa a escorrer de seu olho. O coração de Tobias dispara, sequer conseguindo acreditar que o assassino se machucaria tanto para mentir. -Não posso dizer mais nada que isso, se não morrerei para a magia. Se quer sair vivo com a garota, precisa sair agora.

Seus dedos apertavam o cabo da espada com tanta força que estavam brancos. Aquilo era ruim. Deveria acreditar nele? Se qualquer ataque surpresa viesse, poderia reagir? Mas… Se um Numerado realmente aparecer ali, precisaria dar um jeito de tirar Laissa dali.

Um xingamento escapa dentre seus caninos afiados, aquilo era péssimo.

-Pegue logo seus companheiros e saia daqui.

Tobias espera os assassinos se afastarem da carroça, com a guarda alta e pronta para explodir o local em gelo. Apesar de não acreditar totalmente nele, depois da magia do segredo fazer aquilo com ele, o assassino definitivamente não conseguiria mais atacá-lo na mesma potência de antes. E somente um deles não é ameaça alguma pro cavaleiro.

O alívio atravessa o semblante do assassino, podendo concentrar-se em lidar com a maldição.

Então, Tobias para de andar.

A aura em sua volta congela e, é atravessada.

Movendo-se por puro reflexo, a parte direita de seu pescoço é rasgada.

Sangue espalha-se pelo ar. Seus olhos focam, a arma de aura reage a seu instinto de sobrevivência e o gelo toma o local em uma explosão na direção em que o ataque veio.

E, o peitoral de sua armadura é destroçado.

Como se um elefante o atingisse, seu núcleo de energia falha e seu corpo tomba.

Sequer havia visto de onde o golpe veio.

Sua mente dispara. “Como? Quem? Como? Meu núcleo…” Seus olhos sobem, vendo um garoto. Ele move sua adaga casualmente, olhando-o de cima conforme suas pupilas azuis o analisam.

Estava irritado. O indivíduo, na casa dos quinze anos, com o cabelo branco manchado pelo sangue, assim como seu boné, suspira enquanto a tatuagem em seu pescoço reluz em sua aura branca.

050, é o que está tatuado.

-Nada pessoal. -Tobias cerra os dentes e, invocando sua magia, é cortado.