Crônicas de Kanh
Capítulo 3 — Um
Capítulo 1
Cavaleiro Novato
-O que? Já cansou? -O treinador de cavaleiros sorri pro seu aluno caído no chão. Diferente dele, estava se divertindo muito com aquilo. -Qual foi, eu mal te acertei!
O exausto jovem levanta o olhar conforme agarra o cabo de sua espada de madeira. Engolindo a vontade de xingar seu treinador, Tobias pergunta-se pela décima quinta vez o que estava fazendo naquele local. O treinamento, quase uma surra, estava sendo ainda mais pesado que o comum. Aquilo sempre era pesado. Porém, Davi estava tratando seu aluno de uma forma especial.
-Vamos lá, Tobias! Você aguenta mais que isso! -Em um campo aberto, praticamente uma planície, o treinador de cavaleiros casualmente chama seu aluno para cima em um gesto de mão. O local é reservado para o treinamento, com equipamentos espalhados pelo local e uma estrutura similar a uma barraca para guardá-las. -Se continuar apanhando assim, vou te fazer arrumar o campo de treino o mês inteiro!
Uma veia salta no rosto dele. Se imaginar arrumando as cordas, os equipamentos e limpando a bagunça de seus companheiros o põe de pé imediatamente.
-Pelo visto o incentivo foi eficiente. -Respirando fundo, sua mente ignora a provocação ao focar. Preferia passar o dia no hospital do que ali.
Uma espécie de fumaça azul começa a surgir em volta de seu corpo. Seus olhos castanhos reluzem junto da pele parda, emanando uma força que faz os seus colegas cessarem os próprios duelos, voltando a atenção para ele.
Agora, ele vai usar sua aura.
-Vai apelar? -Davi debocha, empunhando sua arma com uma única mão. Uma leve cor branca a atravessa, quase como se fosse um reflexo. Era uma leve manifestação de sua mana, tão invisivel que os demais alunos sequer a notam. -Pode vir.
A temperatura do local despenca no ataque do jovem, colidindo sua espada com a de Davi fazendo o ar tremer. Bloqueando na diagonal, horizontal e vertical, o treinador não recua nem um único passo em meio aos ataques, quase arrancando um dente de Tobias em um rápido soco.
-Desviou? -Aparentava estar surpreso. Tobias o golpeia por cima e o velho se afasta com um leve movimento para a direita como se uma criança tentasse soca-lo.
As colisões continuam e, no décimo impacto, criando fragmentos de gelo pelo ar, Davi recua um passo. Antes de Tobias notar seu feito, sua espada de madeira quase escapa de suas mãos no repentino contra-golpe do treinador, subindo conforme o velho sorri, um péssimo sinal.
Desviando de outro golpe vindo da direita, o jovem é superado em velocidade. Sendo obrigado a novamente se defender, a força da colisão dissipa sua aura em uma violenta descompressão, pressionando seus pés contra o solo enquanto seus colegas se afastam.
-Foco! -A ordem mistura-se à dor. A mana do treinador empurra a aura do jovem, vendo a espada de madeira ser danificada a cada golpe. -Tobias, eu vou quebrar sua espada de madeira!
Tobias grunhe algo, não conseguindo expressar sua indignação em palavras. “Ele quer me matar agora ou de alergia!?” A simples ideia de ir para o hospital e tendo que lavar aquele local o faz liberar ainda mais aura em sua arma, manifestando-se em uma forma líquida conforme cacos de gelo surgem.
A próxima colisão, faz uma rachadura surgir da ponta da espada até o seu cabo.
Tobias dá um passo para trás. Davi desce o olhar para sua arma, sendo puxada ao estar colada pelo gelo.
Em seguida, sua espada de madeira explode.
Um suspiro escapou dos telespectadores. A surpresa do treinador é acompanhada por um violento movimento de Tobias, decidido a acertar ao menos um golpe nele com sua espada de madeira danificada.
O semblante de Davi muda, o corpo de Tobias treme e, os olhos brancos são seguidos de um céu azul.
Piscando, o jovem tenta entender o que aconteceu. A dor que surge em sua cabeça o faz grunhir. “Sério que eu fui apagado numa pancada!?” Recobrando os sentidos, seus olhos cruzam com os olhos azuis de uma jovem, abaixando ao vê-lo de cabeça para baixo no solo.
-Tá bom o sono ai? -Um sorriso amarelo o toma, agora a dor era em seu ego.
-Tá incrível. -Ela estende a mão e, custando a levantar, ele dá alguns passos falsos ao ser amparado pela loira. -Droga, achei que ia finalmente ganhar dele! Laissa, foi quase!
-Você sempre fala isso, Tobias. -O jovem estreita os olhos. -Semana passada você saiu com um galo maior que a sua mão.
-Ei! -Ele ameaça fazer cócegas nela, imediatamente tentando se afastar ao ser segurada. A breve disputa física cessa quando Tobias a solta, dando passos mais firmes no solo. -É verdade, poxa! Eu quase dei um golpe limpo nele!
“E achou que isso seria suficiente para derrotar um antigo Cavaleiro Imperial, coitado.” Laissa pensa, mas não fala. Temia que não fosse solta das cócegas.
-Consegue andar sozinho? -Ela questiona, vendo-o abrir os braços ao tentar se equilibrar.
-Sim, obrigado. -O foco dele é voltado para a cesta embaixo do braço dela, tampada por um pano. “Devem ser os pães sovados que não foram vendidos.” Suas sobrancelhas arquearam. Não entendia o que a moça estava fazendo ali. -Aliás… O que você está fazendo aqui mesmo?
Tobias leva um peteleco na testa. Um “ai!” Escapa dele, pondo a mão no local sem entender o motivo da agressão.
-Eu vim te ver, idiota. Taylor pediu para todos almoçarem juntos hoje. -Laissa se vira e começa a andar, largando o jovem para trás. Seguindo-a, Tobias não consegue esconder sua surpresa. Isso não era algo muito comum. -Ele vai dar uma notícia, então pode vir comigo.
-Ao menos espera eu pegar minhas coisas! -Ela continua a andar na direção dos portões do reino. -Eu ainda tenho que falar com Davi!
-Se vira. -Correndo na direção da barraca onde deixam os equipamentos e suas roupas, o jovem avista seu armário e prontamente o abre. No instante seguinte, suas roupas são cuspidas na quebra da magia de barreira.
Os objetos são pegos no próprio ar e a gaveta é fechada em um baque. Ele mal alcança sua amiga após explicar rapidamente o que precisaria fazer para Davi que, ficando entediado com a explicação, dispensa o jovem num movimento de mão. Para a sua sorte, o treinador não estava se lembrando da punição.
Alcançando Laissa na entrada do feudo, cercado por muralhas cinzas, um pressentimento ruim toma conta dele. “Sempre que Taylor chama a casa para comer junto, é por causa de algum aviso. O que aconteceu dessa vez?” O pensamento é cortado por uma confusão na entrada de Kanh. Dois comerciantes brigavam com os guardas, gritando conforme os outros soldados apenas assistiam. Aquilo estava se tornando mais comum do que o jovem gostaria.
-Aposto que tão bravos com os impostos. -Tobias imediatamente concorda. O preço de tudo estava ficando cada vez maior, os impostos subiam e subiam. Rumores sobre as brigas internas no Império cresciam cada vez mais e o jovem não sabia onde tudo aquilo iria parar.
O Império não havia vencido a guerra? Então… Por que os comerciantes pareciam estar loucos para saírem dali tão rapidamente? Dívidas estavam sendo quitadas pela metade do valor original, nobres estavam vendendo suas joias, casos de assassinatos e mudança de poder ecoavam pelos jornais todos os dias… Várias pessoas mudaram para outros países e largaram tudo para trás.
Algo estava acontecendo.
-É… O que Taylor quer? - Laissa apenas o olha de relance, voltando o foco para frente como se não desse muita importância para a pergunta.
-Você vai descobrir. -A resposta torce seu nariz. “Tenho certeza que essa maluca tá no meio. Será que ela vai herdar o negócio?” O pensamento incomoda o jovem, não gostando da ideia de Taylor aposentar. Ele é um homem muito importante para a população daquele reino.
De repente, um súbito pensamento. Laissa estava ali para herdar o negócio do pai e para consolidar eles como nobres. Mas, Tobias estava treinando para virar um Cavaleiro para o que? Sua cabeça dói. Lembrando-se das últimas palavras de seus pais, o aperto que surge em seu peito toda vez que pensa nisso retorna. Ele queria se tornar um guerreiro capaz de proteger os outros. Queria pagar Taylor por tudo o que ele fez. Mas, por que ele estava ali? Era realmente por causa disso? Dentre todos os reinos, logo Kanh?
A dor piora. Não, havia algo a mais.
-Olha só quem está em Nárnia! -Laissa retira Tobias de seus pensamentos. Ele fica vermelho ao notar toda a família de Taylor diante de si, fixos nele. “Chegamos aqui já faz quanto tempo?” –Entre, meu pai tá te esperando lá em cima.
Todos estão na porta do casarão, cada um fazendo alguma coisa. Seja cerâmica, tricotando algo, conversando fiado e, até brincando. Porém, todos pararam para olhá-lo. Até às crianças. Sem conseguir abrir a boca para falar nada, Tobias apresse-se para entrar na enorme casa, pequena para uma família tão numerosa. Quatorze filhos, além dos dois irmãos de Taylor, cada um com mais três filhos.
Subindo as escadas, o jovem vai diretamente até o quarto cômodo no segundo andar. Estava ansioso. Primeiro, era um anúncio para a família. Depois, todos estavam fora de casa e Laissa falou para ele entrar. “Aquela miserável sabia de algo e não quis me dizer, eu tenho certeza.” O pensamento é acompanhado pelo som de um assobio, vindo do final daquele corredor.
-Licença. -Aproximando da porta aberta, avistando Taylor perto da varanda, o coração dele quase falha ao vê-lo chamá-lo com um gesto da mão. “Droga, alguma coisa aconteceu.” Entrando, ele para atrás do homem, olhando fixamente para o horizonte.
O homem na casa dos cinquenta anos, ainda com o cabelo loiro e pele branca repleta de energia, respira fundo antes de olhar para o jovem. Retirando as mãos da varanda de madeira, os olhos azuis dele focam em Tobias, já não conseguindo respirar direito.
-Você está em que nível? -Ele coça a cabeça, desviando o olhar para a escrivania no cômodo, uma sala de reuniões. “Não teve nem um bom dia? A coisa tá feia.” Pensando antes de responder, as pinturas de pessoas que sequer conhecia parecia encará-lo, também aguardando uma resposta.
-Como ainda apanho para Davi, sou mediano? -A resposta, sem confiança alguma, faz o velho tampar o rosto com a própria mão. O jovem retorna a olhar pro lado, agora encarando a porta de madeira. “Falei merda.” É a sua conclusão.
-Sua lâmina de aura está ficando cada vez mais densa. Já está até no estado líquido. Você tem noção do quão absurdo isso é? Isso porque a arte da espada é a sua pior área. –Essa última parte contém um pouco de raiva. -Você é um prodígio, garoto.
O jovem abre a boca para protestar, porém cala-se ao ver Taylor abrir a mão.
-Davi era um Cavaleiro Imperial. Então, estava muito acima dos Cavaleiros de Kanh. Aquele miserável provavelmente é um dos dez homens mais fortes desse continente. Eu mesmo nem devo conseguir ganhar dele. -A revelação é tão impactante para Tobias que até sua boca abre. Durante os últimos quatro anos, ele estava treinando diariamente com um dos homens mais poderosos do continente e sequer sabia disso. -Mas não foi por isso que te chamei aqui. Me diga, o quão forte você pensa ser? Aliás, não comente isso com ele, Davi odeia o próprio passado.
-É… Mediano? -A resposta faz Taylor estreitar os olhos, arrepiando os pelos do jovem. -Mediano para alto, senhor?
-Melhorou. Estamos caminhando. -Desencostando da varanda, o homem caminha para dentro do cômodo. Vou parar de rodear. Sinceramente, você está longe de seu potencial máximo. Porém, não consigo imaginar em uma única pessoa nesses reinos ao nosso redor que te venceria num combate. Se você visse o quanto o nível dos cavaleiros caiu, acreditaria em mim.
Indo em direção a seu armário, Taylor começa a retirar caixas, roupas e armas. Tobias se surpreende com o tanto de coisa que estava lá dentro.
-Te chamei aqui porque você é o único que posso confiar essa missão.
-Taylor, você tá me deixando nervoso. -O velho ri, abrindo um fundo falso no armário antes de tirar uma caixa dali.
Ela era pequena e escura, como se fosse de uma joia. Parecia cara, muito cara.
-Preciso que você seja meu cavaleiro por um tempo. -O coração de Tobias ameaça falhar. Aquilo era algo muito sério e carregava uma responsabilidade absurda. Eles protegem coisas extremamente importantes. E o que precisava de uma proteção tão importante assim? -Você percebeu o alvoroço dos comerciantes e dos guardas?
-É… Sim?
-É por causa do Império, ele caiu.
-Espera, é o que!? -A cabeça do jovem começa a acelerar. -O Imperador não é mais Imperador!?
-É, e vão tentar me matar. -O homem retira uma espécie de colar do baú. Apesar de ter dito isso, há um sorriso em seu rosto. -Por isso, preciso que você proteja Laissa. Duvido que iriam conseguir me matar também.
-Laissa? -O jovem não consegue não se sentir frustrado por estar lento. Contudo, era muita informação de uma vez. Até ontem, o Imperador estava aumentando os Impostos e brigando com os Nobres. Será isso o motivo de sua queda?
-É. Por isso, pegue. -Taylor estende o colar para o jovem, tirando os olhos do horizonte ao analisar o objeto prateado, possuindo entalhes azuis pelas correntes. Seu corpo vibra, sentindo a intensa energia do colar. -É uma arma de aura. Vai ajudar nas suas magias. Sei que ainda tem medo de usar elas por serem… Bem, destrutivas.
-Eu… Eu não sei se posso aceitar isso. -Afastando um pouco, ciente do quão caro aquilo é, a surpresa domina o meio-humano ao ver o homem fazer uma careta, claramente cogitando se daria um soco ou um chute nele.
-Eu pedi para o colar focar em magias de sangue e de gelo, foi feito literalmente para você. -O jovem desvia o olhar. Uma veia salta no rosto do velho, lançando o objeto nele que, pegando-o quase que no susto, sente o coração vir até sua boca antes de descer.
-Veste logo isso. Tu vai precisar. -Não sabia se era uma ameaça ou um aviso.
-É… Por quê? -A pergunta é acompanhada pelo extremo cuidado em que o jovem coloca o objeto no pescoço, com toda certeza mais caro que seis meses de seu salário. “isso deve ter sido comprado em ouro.” Outro arrepio.
-Laissa vai viajar no final de semana para fechar um negócio com o reino vizinho, o Reino de Condão. -Isso não deixa o jovem nada feliz. Ela iria viajar mesmo numa situação perigosa dessas? -Não posso deixar eles pensarem que estou com medo, Tobias. Preciso reforçar ainda mais minha posição. Por isso, conto com você caso alguém ataque minha garota, ok? Você será o único Cavaleiro, já que se eu mandar um exército… Bem, não vai cair bem e só vou chamar mais atenção. Em situações normais, mandar um grupo grande seria viável, mas os homens de hoje são inúteis. Apostaria dinheiro que mandar várias pessoas apenas te atrapalharia e se tornariam reféns.
Cerrando os punhos, tudo o que o jovem consegue fazer é concordar. Apesar de já sentir a diferença em sua aura com o colar, bem mais estável, sua confiança não era grande o bastante para garantir a proteção dela sozinho. Apesar de Tobias, sendo um despertado, facilmente varreria do planeta um exército humano.
-Taylor, eu... Eu só ainda não entendi uma coisa. -Os olhos do homem retornam para o falante, pensando muito se deveria mesmo perguntar aquilo ou não. -O Império não tinha vencido a guerra contra os Incas? Então como ele caiu?
-Não foram os Incas que derrubaram o Império. Foi um dos cavaleiros imperiais. -Tobias já não consegue sequer expressar sua surpresa. Longos minutos passam antes dele conseguir reagir.
-Meu Deus. -É a única coisa que sai da boca do jovem, custando a digerir aquilo. A movimentação estranha dos comerciantes estava explicada.
-De toda forma, posso contar com você para ir com Laissa? Não posso pedir isso para mais ninguém, todos os outros... Podem me trair por causa da confusão que nosso Império vai virar, seja lá se ainda podemos chamar de Império…
-Se pode contar comigo? Taylor, pode sempre contar comigo. -Tobias prontamente bate a mão no peito, dessa vez confiante. -Irei ser o seu cavaleiro por quanto tempo quiser. Ninguém vai encostar um dedo na sua filha!
-Bom ouvir isso. -Um leve suspiro escapa dele que, olhando para o jovem, estreita os olhos, desconfiado. Um calafrio atravessa Tobias, temendo pelo o que está por vir. -Aliás, ninguém inclui você. Laissa sempre foi... Muito próxima a você. Se, por algum motivo, nessa viagem vocês ficarem mais próximos, ao menos me avisem, ok? Pai de menina aqui…
-Isso... Isso não vai acontecer senhor. -As sobrancelhas do pai enciumado são arqueadas. Tobias sente sua vida em perigo imediatamente. -Eu não irei me aproximar dela assim, senhor. É isso o que não vai acontecer, senhor.
-Ah, bom. Sei. -Ele murmura, balançando a cabeça. -Eu falava isso e agora tenho quatorze filhos. Não importa, ela já é uma mulher, tem que saber se virar. De toda forma, pode ir. Daqui a pouco é o almoço. E é melhor você ir antes do ciúmes desse velho piorar.
Agradecendo, Tobias sai do local o mais rápido possível, não gostando nem um pouco de como aquela conversa terminou. Ele sempre soube que Laissa gostava dele, porém... O jovem não sentia o mesmo. Sequer se considerava no direito de sentir aquilo por alguém. Não depois de tudo o que havia feito durante essa vida.
-Como raios a conversa saiu de um golpe de estado para ela? Deus meu, que confusão. -Ele murmura, vendo a enorme família já na mesa perto da cozinha, conversando e rindo ao aguardar o almoço.
Tobias para na escada, observando-os. Havia um sentimento bom naquela confusão, em meio as risadas, crianças brigando e jovens falando sobre os estudos e trabalho. Até mesmo na risada de Laissa, uma jovem muito bonita que, por algum motivo, Tobias sabia não ser a mulher de sua vida. Mas, mesmo não sendo, ele queria protegê-la. Assim como Taylor o protegeu dos Inquisidores, assim como Alucard o protegeu contra o Inquisidor.
-Mesmo que seja você, quem decide tudo no final. -Tobias finalmente sai das escadas, seguindo em direção ao seu lugar.
***
-Por que me chamou aqui, Zero Zero Um? -Abordando a pessoa sentada em uma pedra em meio a mata do acampamento da Floresta, a mulher teme pelo motivo de ter sido chamada. Todas as vezes que a sua líder chamava para um lugar isolado, algo sério acontecia.
-Estou com um pressentimento ruim. -Virando, a jovem de pele escura e olhos castanhos levanta em um leve movimento do corpo, pousando no solo sem fazer um único ruído. Sua aura e face eram frias, como se tivessem sido congeladas. -Quem tem uma missão nesta semana?
-Uai, somente o Zero Cinquenta. -Abordando o “nome” do companheiro, a mulher na casa dos vinte anos já liga os pontos. Apesar de ser mais velha, ela é subordinada à “Zero Zero Um”, líder de seu esquadrão, os Numerados. -Ele vai para uma missão de sequestro. Acho que o nome dela é Laissa, filha de Taylor. Nobres e suas brigas de poder, por quê?
-Qual a chance de tentarem matar ele?
Silêncio. A rispidez das palavras da líder assustam sua companheira, não conseguindo responder de imediato. Mexendo no próprio cabelo loiro e ondulado, indo somente até o ombro, sua pele branca reluz na manifestação involuntária da aura, indicando seu nervosismo. Em contrapartida, Zero Zero Um permanece séria em meio a escuridão. Seu único movimento é tirar o cabelo preto e ondulado, indo até o ombro, da frente do olho. Cogitava cortá-lo.
-Considerando o nível da missão, baixo? Mas, considerando o desaparecimento dos nossos... Não sei. -Ela bufa, coçando a cabeça em seguida. -Tentei investigar o que raios fizeram com Zero Zero Nove e Zero Quarenta, mas não achei nada. É como se...
-Eles tivessem desaparecido. -A líder completa. As duas trocam olhares. Enquanto a mulher começa a se preocupar, a jovem apenas volta a atenção para a floresta, pensando. -Eu tive o mesmo pressentimento quando os dois foram para a missão deles. Isso... Não é coincidência.
-Acha que estamos sendo alvos de ataques? -A pergunta é acompanhada de um positivo.
-Provavelmente de outra organização. Apesar de duvidar que os Ipês tenham a força para eliminar um dos nossos, com a preparação certa e ajuda, é possível. -A careta de Zero Zero Três é acompanhada por uma bicuda na pedrinha diante dela, saindo quicando até colidir com uma das árvores. A líder não entende a ação.
-Dito isso, o que iremos fazer? -A loira se prontifica, coçando a cabeça sem nem tentar esconder sua raiva. Zero Zero Um tomba um pouco a cabeça. -Ah, nem faz essa cara! Acha mesmo que só vou dar as informações e não ajudar!?
-Você pode ser executada por causa disso. -A líder fala, não com tom de ameaça. -E não estou fazendo cara nenhuma.
-E você não pode ser executada? -A mulher cruza os braços.
-Não. Eu sou a líder, me matar seria deixar todos os outros Números em estado de alerta máximo e, possivelmente, causar uma revolta. -Ela define, seca. Suas palavras são verdadeiras. Contudo, há uma brecha no seu argumento.
-Eles podem te punir como puniram as últimas vezes, aumentando a dose das drogas. -A resposta é dada e a líder pensa um pouco, sem nada de imediato para retrucar. As drogas, entre seus vários efeitos, eram aplicadas para os assassinos serem mais fortes e menos emotivos. -Se você me chamou aqui, deduzo que também chamou Zero Cinquenta, né?
-Sim. Eu roubei uma magia, vou entregar ela para vocês. -Zero Zero Três tosse, piscando várias vezes ao analisar a face da mulher, não mentindo.
-QUE!? FICOU LOUCA!? -Sua voz é rapidamente reprimida pela aura de 001, isolando o som daquele local. Porém, mesmo assim, o ato não deixa a líder feliz, reforçando a magia da barreira somente por garantia.
-Para quem acabou de falar sobre drogas, feitas para não sentir fortes emoções, tá bem descontrolada, não acha? -O comentário faz a mulher se recompor, levando a mão até o rosto antes de contar até dez. Esse é um dos poucos atos que ela lembra ter aprendido na sua infância. Ao menos, uma das poucas coisas que aprendeu fora da Floresta. -São magias de teletransporte. Vocês dois vão ter uma, é de uso único e o local é definido após o encantamento. Eu mesmo irei fazer o encantamento aqui.
“Estava… Planejando como iremos sair daqui.” Apesar do pensamento, ela não o fala. Estava muito cedo, o plano precisava de mais preparação.
-Espera, como você sabe magia? Está planejando fugir!? -A pergunta de 003 é uma mistura de admiração e raiva. 001 estreita os olhos, ciente de que foi descoberta. Sua amiga estava planejando aquilo sozinha e, de alguma forma, aprendeu algo que era proibido de ser ensinado aos Numerados.
-Eu aprendi sozinha. -A resposta faz Zero Zero Três rir, o que deixa sua líder incomodada. -O que é engraçado? Acha que estou mentindo?
-Não, pelo contrário. Sei que está falando a verdade. Eu estou orgulhosa. Você sempre foi a melhor de nós, mas te ver aprendendo magia sozinha... Me deixa feliz. -Zero Zero Um não sabe como reagir a isso. Seus olhos são voltados para a pedra onde estava a poucos minutos, talvez por vergonha, talvez por... Não se achar digna desses elogios. 003 continua com um pouco de raiva, queria ter sido incluída no plano desde seu início e não agora. Mas decidiu deixar a raiva para depois.
“Você sempre foi forte...” Palavras soltas ecoam em sua cabeça, unindo-se de vez em quando, vindo de uma mulher que ela nunca conheceu.
“Te ver assim me deixa orgulhosa, sabia?”
Seu devaneio é interrompido quando um garoto se aproxima, batendo na magia de barreira como se batesse em uma porta. É Zero Cinquenta.
-Chegando mais cedo que o combinado, como sempre. -001 abre passagem para ele, recolhendo parte da aura. Após a entrada do garoto no local, na casa dos dezesseis anos, a barreira é colocada novamente. -O que é isso?
A vice-líder aponta para o objeto sobre a cabeça dele, tampando seu cabelo branco e volumoso. Ele sorri em resposta, com os olhos azuis e pele branca emanando leves e intensas quantias de aura verde.
-É um boné. Vi uma pessoa usando isso na minha última missão e fiz um para mim, gostaram? -A pergunta faz a cabeça da líder doer, lembrando-se de algo. Porém, a memória logo borra, deixando apenas a silhueta de um garoto, talvez na casa dos seis anos, usando um boné. -É... Líder? Você está bem?
-Estou. -A resposta imediatamente afasta os dois, tendo se aproximado durante o tempo que ela ficou perdida os pensamentos, com a face tomada pela tristeza. Isso fez eles se olharem, acostumados em vê-la séria o tempo todo. -Vamos fazer isso logo. Não quero que a Floresta comece a desconfiar de nós. Precisamos logo achar uma forma de sair daqui. O começo é com essa magia. Quero que ambos saibam fazê-la e que escutem minha teoria em como destruir a Numeração, deve funcionar usando eletricidade ou uma magia de barreira.
O jovem levanta o dedo e, abrindo a boca, abaixa o dedo.
-Eu… Ia perguntar se iríamos fugir, mas… -Ele pisca algumas vezes. -Tipo, fugir da Floresta?
-Sim.
Novamente, o jovem pisca. Seus olhos vão para a loira.
-Ela bateu a cabeça?
Após ter sua cabeça batida pela loira, fazendo isso com medo da líder fazer em seu lugar, o jovem concorda em ouvir o plano sentado na rocha, passando a mão no galo abaixo de seu boné.
Sem saber ao certo o que deveria sentir vendo eles, 001 suspira, decidindo expor seu plano de fuga para os dois, os Numerados que ela mais confiava.
Mal sabia ela, que esse encantamento mudaria todo o rumo de sua vida.
