Ferox Cap. 2
Capa de Ferox

Ferox

Capítulo 2 — 2-Internum

[Um carro militar corta a escuridão de uma região isolada. Faróis atravessam o vazio até revelarem um prédio alto, solitário — a única presença viva naquele lugar morto.]
O veículo entra na garagem. O ar ali dentro é frio, pesado. Os soldados descem em silêncio e atravessam corredores de metal e salas neutras — organizadas, limpas… e sem vida. Um lugar que reflete perfeitamente quem manda ali.
Eles param diante da sala principal.
— Soldado 1: Com licença… senhorita Atena.
De costas, olhando a paisagem escura pela janela, ela não responde de imediato. Então vira levemente o rosto — o olhar frio por trás dos óculos é suficiente pra calar qualquer um.
— Atena: Onde está o Predatory Core?
Os dois soldados trocam um olhar rápido. Tensão.
— Soldado 2: N-nós… não conseguimos capturar o portador. Três homens foram mortos.
Silêncio. Atena se senta lentamente. Apoia o queixo na mão, analisando.
— Atena: Um portador novato… que deveria ter morrido na primeira ativação…
Ela levanta o olhar, agora fixo neles.
— Atena: …matou três dos meus homens?
Uma pequena pausa. Um leve suspiro.
— Atena: Interessante.
— Soldado 1: Ele… se transformou. Algo como um lobisomem. Resistiu aos disparos… e rasgou os homens como se não fossem nada.
Atena acende um cigarro, sem pressa.
— Atena: Então houve compatibilidade.
Ela solta a fumaça lentamente.
— Atena: E acima do esperado…
Os soldados permanecem imóveis.
— Atena: O localizador.
Os dois travam.
— Soldado 1: F-ficou com um dos soldados que… não sobreviveram.
Atena fecha os olhos por um instante e pressiona as têmporas, controlando a irritação.
— Atena: …
Silêncio pesado.
— Atena: Vocês ao menos lembram o rosto?
— Soldado 1: Sim.
Ela abre os olhos. Fria novamente.
— Atena: Então me deem tudo. Cada detalhe.
[Corte]
Zaio desperta, jogado na cama. O corpo inteiro dói. A cabeça gira.
— Zaio: Ah… a-ah… mano… que porra…
Axel levanta rápido da cadeira ao lado.
— Axel: Zaio! Porra, tu acordou! Como tu tá?
— Zaio: Fudido…
— Axel: Tu consegue ficar um minuto sem xingar? Ah, esquece… tu lembra de alguma coisa?
Zaio força a memória, franzindo o rosto.
— Zaio: Eu lembro de uns cara atirando na gente… aí deu um bagulho no meu peito… ficou tudo estranho… depois apagou… e… depois disso só dor.
Axel hesita por um segundo.
— Axel: Mano… tu virou um lobisomem.
Zaio encara ele. Silêncio.
— Zaio: Para de caô… eu tava morto se isso fosse verdade.
Axel não responde. Só aponta.
Zaio olha pra própria calça.
Manchas escuras. Sangue seco — grosso demais pra ser normal. Pequenos pedaços grudados no tecido. Restos.
— Zaio: …QUE PORRA É ESSA?
O rosto dele perde a cor. O estômago embrulha.
— Zaio: Que merda é essa, mano…?
Axel recua um pouco, mantendo a calma.
— Axel: Calma… calma. Eu vou ali fazer alguma coisa pra gente comer, beleza? Tu… tenta se acalmar. Toma um banho… troca de roupa… depois a gente conversa direito.
Zaio não responde. Só encara aquilo, imóvel.
Axel sai do quarto em silêncio.
Zaio se levanta da cama devagar. O corpo ainda pesa. Um desconforto estranho percorre cada músculo — dor, formigamento… algo fora do lugar.
Ele evita olhar pro próprio braço por um segundo. Respira fundo.
Então encara o armário.
O espelho na porta devolve a imagem.
Ele para.
Não é grande coisa… mas não é igual.
O corpo está mais definido. Não muito — mas o suficiente pra incomodar.
A postura parece mais firme.
E… ele inclina a cabeça.
— Zaio: …eu tô mais alto?
Três centímetros, talvez. Nada absurdo. Mas… impossível de ignorar.
Ele passa a mão pelo próprio braço. A pele parece normal. Mas não parece… dele.
— Zaio: …isso é um sonho… só pode ser…
Sem querer encarar mais, ele vira e entra no banheiro.
[Corte]
Na cozinha, Axel está parado, apoiado na bancada. Em silêncio.
A cena volta na cabeça.
O corpo do amigo rasgando.
Os ossos quebrando.
E depois… aquilo.
Ele fecha os olhos. Um arrepio sobe pela espinha.
— Axel (baixo): …que merda foi aquela…
Um pensamento invade, seco.
E se ele fizer aquilo de novo?
Axel engole seco.
E se for comigo?
Ele passa a mão no rosto, irritado consigo mesmo.
— Axel: …porra…
Balança a cabeça. Afasta o pensamento.
— Axel: Zaio… tu é um azarado do caralho, viu…
Um suspiro. Mais calmo agora.
— Axel: …mas não vou te largar nessa não, irmão.
[Corte]
Algum tempo depois, Zaio entra na cozinha. Cabelo molhado. Expressão estranha.
Ele senta devagar na cadeira, olhando pra mesa.
Silêncio.
— Zaio (baixo): …mano…
Axel levanta o olhar.
— Zaio: Tu acha que… tem alguma coisa dentro de mim agora?
A pergunta sai seca. Sem piada. Sem filtro.
Axel trava por meio segundo — mas disfarça.
— Axel: …não sei.
Ele cruza os braços, pensando.
— Axel: Mas não parece algo que “acordou” do nada… tipo poder escondido ou coisa assim.
Olha direto pra ele.
— Axel: Tu disse que um cara te aplicou uma agulha, né?
— Zaio: É… um maluco todo fudido… parecia médico… sei lá.
— Axel: …
Ele pensa mais um pouco.
— Axel: E se isso tiver vindo daí?
Zaio encosta na cadeira, tentando lembrar.
— Zaio: Ele tava falando umas parada estranha… tipo “criei algo que vão roubar de mim”… aí do nada pá… agulha no ombro.
— Axel: …merda.
Ele esfrega a testa.
— Axel: Tá… talvez eu tenha uma ideia.
— Zaio: Manda.
— Axel: Meu tio.
Zaio franze o rosto.
— Zaio: …o ceguinho?
— Axel: Ei, respeita, porra. O cara lutou em guerra.
— Zaio: Perdão, majestade.
— Axel: Idiota.
Axel respira fundo.
— Axel: Ele é médico. Se alguém pode descobrir o que tem em tu… é ele.
Pausa.
— Axel: Topa?
— Zaio: …é.
Ele dá um meio sorriso torto.
— Zaio: Já pisei na merda mesmo… agora é mergulhar.
A campainha toca.
Axel levanta, vai até a porta e volta com dois hambúrgueres e um refri suspeito.
Zaio encara a garrafa.
— Zaio: …isso aí é refri ou desentupidor de pia?
— Axel: Porra, eu paguei e tu ainda reclama?
— Zaio (dando um sorrisinho): Relaxa… é meu charme.
[Corte]
Os dois soldados estão novamente diante de Atena.
Ela segura um tablet. Olhar fixo.
— Atena: Descrevam.
Eles se entreolham por um instante.
— Soldado 1: Ele era… jovem. Uns quinze, dezesseis.
— Soldado 2: Não muito alto… um e sessenta e pouco.
— Soldado 1: Cabelo escuro… meio bagunçado. Raspado dos lados.
— Soldado 2: Pele clara… rosto comum.
Um pequeno silêncio.
— Soldado 1: Se você visse na rua… não reparava.
Atena anota. Sem emoção.
— Atena: Entendido.
Ela levanta o olhar. Fria.
— Atena: Estão dispensados.
Os soldados saem rapidamente.
Sozinha, Atena encara o retrato falado na tela.
Por alguns segundos… silêncio absoluto.
— Atena (baixo): …pobre garoto.
Uma pausa.
— Atena: Se envolveu em algo grande demais pra ele.
[Corte]
Axel está ao telefone. Zaio devora o hambúrguer.
— Axel: Alô, tio? …tô bem, sim. Preciso da sua ajuda… é sério. Posso ir aí amanhã?
Pausa.
— Axel: …valeu. Obrigado mesmo.
Ele desliga.
— Zaio: E aí?
— Axel: Amanhã a gente vai lá.
— Zaio: Tu paga o táxi, né?
— Axel: Pago.
Pausa. Axel encara ele.
— Axel: Mas tu me paga depois.
— Zaio: Relaxa… eu sempre pago.
Axel fica em silêncio por um segundo.
— Axel: Eu escuto isso há oito anos.