Ferox Cap. 3
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Ferox

Capítulo 3 — 3-Studium

No outro dia de manhã, Zaio acorda. Seus olhos piscam lentamente, se acostumando com a luz do sol que invade o quarto. Ele puxa o travesseiro e cobre o rosto, tentando voltar a dormir, mas não consegue — a lembrança da responsabilidade do dia pesa na mente.
— Zaio: Ah... que saco... queria dormir mais...
Ele fala arrastado, pega o telefone na cabeceira e vê que já são seis da manhã. No mesmo instante, levanta como um relâmpago.
— Zaio: Puta merda... o Axel mandou eu estar lá no ponto às sete!
Ele começa a se arrumar todo destrambelhado. Tira a roupa às pressas, toma banho rápido, escova os dentes quase correndo e veste uma roupa simples, própria pra um dia corrido. Desce as escadas ainda ajeitando a camisa e encontra a mãe sentada à mesa.
— Mãe de Zaio: Bom dia, filho... já vai sair?
— Zaio: Vou sim, mãe... tenho uns negócios com o Axel...
Ela o olha com carinho e empurra um prato na direção dele.
— Mãe de Zaio: Come esse pão com queijo antes de sair. Do jeitinho que você gosta.
— Zaio: Ah, mãe... tô meio atras—
Ela apenas encara. Um olhar firme, silencioso, mas impossível de ignorar.
Zaio engole seco.
— Zaio: ...Tá bom.
Ele come rápido, quase engolindo sem mastigar, e já sai correndo.
— Zaio: Tchau, mãe! Te amo!
— Mãe de Zaio: Vai com cuidado!
Zaio dispara pela rua, todo desengonçado, até chegar ao ponto de encontro.
O lugar é simples: bancos velhos, marcas do tempo, um silêncio típico de manhã cedo. Axel está sentado, mexendo no celular. Levanta os olhos quando vê Zaio se aproximando.
— Axel: ...Uhm. Mais dois minutos e você tava frito.
Zaio apoia as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego.
— Zaio: Eu sei... mas sem papo. Tu já chamou o táxi ou não?
— Axel: Já. Deve estar chegando.
— Zaio: Ainda bem... mas me diz, por que teu tio mora tão longe?
Axel dá de ombros.
— Axel: Sei lá. Talvez ele goste de paz. E, ó, melhor você não fazer pergunta idiota nem ser mal educado. Ele já tá fazendo um favor enorme. Se você pisar na bola, a gente tá ferrado — e você nunca vai descobrir o que é esse bicho dentro de você.
O tom é sério, mas o medo escapa nas entrelinhas.
Minutos depois, o carro chega. Eles entram.
Durante o caminho, Zaio observa a paisagem pela janela, quieto, com o olhar perdido. Axel percebe.
— Axel: Zaio... tenta se acalmar. Meu tio é um bom médico. Ele vai descobrir alguma coisa... ou pelo menos entender.
Zaio força um sorriso leve.
— Zaio: Eu espero...
Depois de um tempo, chegam. A casa é simples, isolada, cercada pelo campo. O ar frio da manhã invade os pulmões.
— Zaio: Caralho... que frio...
— Axel: Se acostuma. Aqui é sempre assim.
Axel bate na porta.
— Axel: Tio Dante? O senhor tá aí?
Um homem de cerca de 57 anos aparece na janela. Usa um tapa-olho, tem cicatrizes no rosto e um olhar cansado, quase entediado.
— Dante: Ah... chegou, pirralho. Entra.
Ele abre a porta.
— Dante: Você disse que era coisa séria, né?
O olhar dele pousa em Zaio, curioso, mas sem muita emoção.
— Dante: E esse fedelho aí?
Zaio já abre a boca pra falar besteira, mas Axel tampa antes.
— Axel: Então, tio... é sério mesmo. É sobre ele. E a gente acha que só o senhor pode ajudar.
Dante suspira, senta e faz um gesto para que eles façam o mesmo.
— Dante: Fala logo.
Zaio tenta.
— Zaio: Eu... meio que...
Ele trava. A lembrança volta forte demais. A garganta fecha. Nenhuma palavra sai.
Ele olha pra Axel.
Axel entende.
Respira fundo.
— Axel: Ontem, ele recebeu uma injeção de um cara estranho. Depois disso, foi atacado por soldados... e virou uma criatura. Um tipo de lobo humanoide. Eu vi tudo.
Silêncio.
— Axel: A gente não sabe o que fazer. O senhor é a nossa única chance.
Dante observa os dois por alguns segundos.
Sem pressa.
— Dante: ...Tenho alguns contatos.
Cruza os braços.
— Dante: Posso fazer uns exames. Não prometo nada... mas vou tentar.
Os dois se entreolham, aliviados.
— Zaio e Axel: Obrigado, tio Dante!
— Dante: Podem ficar por aqui hoje. Mais tarde a gente resolve isso.
Mais tarde, o céu já escureceu. O chão ainda está molhado da chuva recente. Zaio e Axel esperam do lado de fora, tremendo de frio.
O carro de Dante sai da garagem e para diante deles.
Eles entram.
— Zaio: Coé, tio... a gente tá indo pra onde?
— Dante: Um amigo meu. Clínica particular. Ele vai fazer uns exames em você.
Zaio tenta se acalmar... até que um rock pesado explode no carro.
Ele se assusta.
— Zaio: PORRA! Precisava disso agora?!
Dante ri.
— Dante: Não existe momento ruim pra um bom rock.
Zaio abre a boca pra retrucar.
Axel tampa.
A clínica é escura. Luzes piscam. O lugar parece abandonado.
Os passos ecoam.
— Dante: Por que vocês tão com medo?
— Zaio: VOCÊ TROUXE A GENTE PRA ONDE O DIABO DORME!
Axel só concorda com a cabeça.
— Dante: Drama demais...
Eles entram numa sala.
Um homem está sentado. Jaleco. Crachá: Robert.
— Robert: Ora... Dante. Quanto tempo.
— Dante: Sem enrolação. Você sabe por que estamos aqui.
Robert olha para os dois.
— Robert: Qual deles?
Dante dá um leve tapa na cabeça de Zaio.
— Dante: Esse aqui.
— Zaio: Ei!
Robert sorri.
— Robert: Prazer. Pode trocar de roupa ali. Vamos ser rápidos.
Zaio encara Dante.
— Zaio: Tu tem certeza que esse cara não é um tarado?
— Axel e Dante: VAI LOGO!
Minutos depois, Zaio volta.
Roupa hospitalar rosa. Ursinhos.
Silêncio.
E então…
Risadas.
— Zaio: ...eu vou te matar, velho.
O exame começa.
A máquina gira.
Silêncio.
Alguns minutos depois…
Robert analisa a tela.
E para.
— Robert: ...
Ele aproxima a imagem.
Ali.
No coração.
Um “X”.
Vivo.
Se movendo.
Conectado por veias.
Ele não tira os olhos da tela.
— Robert: ...isso não devia existir.
Silêncio pesado.
— Dante: O que a gente faz?
Robert respira fundo.
— Robert: ...por enquanto? Nada.
Ele desvia o olhar.
— Robert: Escondam isso. Vivam normalmente.
Mais tarde, do lado de fora…
Zaio já está trocado.
— Zaio: ...finalmente aquela roupa ridícula acabou com minha testosterona
— Robert: (rindo) tinha combinado com você.
Eles vão embora.
O carro some na estrada.
A sala fica em silêncio.
O sorriso de Robert desaparece.
Ele olha novamente para as imagens.
Imprime.
Uma.
Duas.
Várias.
Mãos levemente trêmulas.
Ele guarda tudo.
Sai rápido.
Entra no carro.
Liga o motor.
E acelera.
Sem olhar pra trás.