Ferox Cap. 4
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Ferox

Capítulo 4 — 4-Vinculi

Uma placa solitária corta a estrada fria da noite. O sereno escorre em gotas lentas pelo metal desgastado, marcando “45 km”. Um carro passa em alta velocidade.
Dentro dele, mãos suadas apertam o volante. No banco de trás, papéis com impressões e um notebook estão espalhados. O painel marca 52 km/h.
Minutos depois, o carro para em um estacionamento.
Robert desce apressado, segurando as impressões e o notebook. Ele entra no prédio, sobe as escadas rapidamente e segue até uma sala. Para diante da porta, segura a maçaneta, puxa o ar fundo… e entra.
— Robert: Senhorita Atena... tenho algo que a interessa.
Atena, que lia um livro à mesa, fecha-o com calma. Ajusta a gravata e ergue o olhar — firme, frio.
— Atena: Deve ser algo importante. É raro vê-lo aqui. Diga... o que o traz?
Robert hesita por um instante, mas logo se recompõe.
— Robert: Ouvi dizer... que você está atrás de algo. Comentários entre soldados do centro de treinamento.
Uma das sobrancelhas de Atena se ergue levemente. Um mínimo sorriso surge.
— Atena: Correto. Então me diga... o que você tem?
— Robert: Informações preciosas.
Ele se aproxima e coloca as impressões sobre a mesa.
— Robert: O portador se chama Zaio. Pelo que sei, mora na cidade aqui perto. Não tenho o endereço exato... mas sei onde ele deve estar agora.
Robert abre o notebook e mostra a localização.
— Robert: O alvo está aqui. Este é o melhor momento para agir... mas há uma condição.
Atena apenas o observa, aguardando.
— Robert: Quero que todos naquele carro sejam mortos.
Ele diz isso com frieza absoluta.
Atena não demonstra reação.
— Atena: Aceito. Mas quero saber o motivo.
Os olhos de Robert se enchem de um ódio antigo.
— Robert: Não te devo explicações. Apenas faça.
Ele desvia o olhar, murmurando baixo:
— Robert: ...você vai pagar, Dante.
No carro, o clima é outro.
Zaio está no banco de trás, ao lado de Axel. Dante dirige, cantarolando junto com um rock antigo tocando no rádio.
— Zaio: Coé, Dante... me diz aí, o que eu faço agora? Não fui curado nem nada...
Dante abaixa o volume, pensativo.
— Dante: É complicado, garoto. O melhor é seguir sua vida normalmente. Se ainda estivessem te caçando, você não estaria aqui agora. Casos assim... não passam despercebidos.
Zaio ouve, mas continua inquieto, girando os dedos entre si.
Axel percebe e tenta acalmá-lo.
— Axel: Zaio... relaxa. Vai dar tudo certo. O Robert é confiável, o tio também. Eles sabem o que estão fazendo.
Dante solta uma leve risada.
— Dante: O Robert é bom mesmo... até escolheu uma roupa perfeita pra você lá na clínica.
Axel ri. Zaio levanta a voz, irritado.
— Zaio: Cala a boca, porra!
Os três seguem pela estrada.
Depois de alguns minutos, já próximos do campo onde Dante mora, o clima parece mais leve.
— Zaio: Ainda bem que estamos chegando... quero só dormir e esquecer esse dia bizarro...
Um tiro explode.
O vidro do carro estilhaça.
— Axel: CARALHO?!
Dante reage na hora, tentando manter o controle.
Ao redor, mais de vinte soldados cercam o carro.
— Dante: ...puta merda.
Ele puxa a pistola, engatilha e olha sério para os dois.
— Dante: Escutem bem. Abram a porta e pulem. Tem um barranco — vocês vão cair numa floresta. Se escondam. Eu encontro vocês.
Os dois travam.
— Dante: VAI, PORRA!
Zaio reage no susto. Chuta a porta, puxa Axel e os dois se jogam.
Eles rolam pelo barranco.
Tiros ecoam.
Zaio é atingido na canela.
— Zaio: AAAAAH!
Ele continua rolando na lama… até se chocar contra um tronco. Axel se perde dele na queda.
Axel chega ao fundo, ofegante.
Luzes de lanternas cortam a escuridão, vasculhando a área.
Ele se esconde atrás de uma árvore.
No chão lamacento, vê uma faca velha, enferrujada.
Ele a pega. As mãos tremem.
Um soldado o encontra.
Dispara.
Axel se joga para trás, se escondendo.
O soldado avança… mas não o vê.
De cima da árvore—
Axel salta.
A lâmina crava no pescoço do homem.
Silêncio.
O corpo cai.
Axel fica parado, olhando.
Sangue nas mãos.
Respiração pesada.
Medo.
Mas ele engole seco, pega o fuzil do soldado… e corre.
Zaio tenta se levantar.
A perna falha.
As lanternas se aproximam.
Os disparos ecoam ao longe.
O coração dele dispara.
A visão escurece.
E então—
Sua mão estala.
Os ossos se quebram, se alongam, rasgam a pele — formando garras.
A carne se reconstrói, coberta por pelos escuros.
Sua caixa torácica se fragmenta e se expande, rasgando a roupa.
Os músculos crescem.
Os dentes caem… e outros, afiados, nascem no lugar.
Seu rosto se estica, se parte — dando forma a um crânio animalesco.
A criatura surge.
Um rugido ecoa pela floresta.
E então—
Ela avança.
Um soldado é dilacerado antes mesmo de reagir.
Outro tenta atirar.
Tarde demais.
A criatura o atravessa, rasgando carne e ossos como se fossem nada.
Por um breve instante—
Ela para.
Respiração pesada.
O sangue quente escorre por sua boca.
Ela engole.
E o corpo responde.
Os músculos se contraem… e crescem ainda mais.
As garras se alongam.
A respiração se torna mais profunda, mais pesada, mais animalesca.
As veias saltam sob a pele coberta de pelos.
Quanto mais sangue… mais forte ela ficava.
Mais rápida.
Mais instável.
Mais monstruosa.
E então—
Ela volta a se mover.
Mais veloz que antes.
Mais brutal.
Os soldados restantes mal conseguem reagir antes de serem despedaçados.
Dante se esconde atrás do carro, atirando com precisão.
Os disparos inimigos destroem os vidros restantes.
Estilhaços voam.
Axel surge ao lado dele, jogando o fuzil.
— Axel: ...tio... usa isso logo...
Dante percebe o estado dele — o sangue, o choque — e entende.
Ele pega o fuzil e começa a atirar.
Mas há um problema.
Um veículo blindado.
— Dante: Merda... não dá pra atravessar isso—
Antes que termine—
Um impacto absurdo.
A criatura despenca de uma árvore.
Com um movimento brutal, avança em velocidade absurda.
O veículo é lançado contra uma árvore, sendo completamente amassado.
Silêncio.
O combate cessa.
Sangue escorre pelas frestas do metal destruído.
A criatura se vira lentamente.
E então—
Sua forma começa a derreter.
Pelos, carne, tudo se desfaz… até revelar Zaio novamente.
Ele mal consegue ficar em pé.
Olha para os dois—
E grita.
Um grito tão alto que ecoa por toda a floresta.
Então desaba.
Inconsciente.
Depois de algum tempo, os olhos de Zaio se abrem lentamente, como se ainda carregassem o reflexo daquele olhar monstruoso recente. Ele olha ao redor e vê que está em um dos quartos da casa de Dante. Parece ser de madrugada — está tudo escuro.
Zaio se levanta com dor e vai se arrastando pelas paredes. Acende a luz e segue até a cozinha.
Lá, Axel está sentado, olhando para o prato de comida, ainda em choque, com medo estampado no olhar. Dante está ao lado, esfregando as têmporas.
— Zaio: Hey... aconteceu de novo, né?
Axel o olha, abatido, e apenas confirma com a cabeça.
— Zaio: Merda... e aí, Dante... já viu algo parecido em toda a sua vida?
Zaio tenta aliviar o clima, mesmo estando destruído por dentro.
Dante dá um leve sorriso e responde:
— Dante: Em 55 anos nessa indústria vital... é a primeira vez que vejo algo assim. É bizarramente impressionante...
(pausa)
E bem... já sei o que você quer ouvir. Sim... eles vão vir atrás de você. Esse seu poder deve ser muito além do que a gente imagina... por isso estão te caçando.
Dante esfrega a barba, pensativo.
— Dante: Mas o que mais me intriga é que não parece ser o governo... e sim alguma organização privada.
Zaio se senta, confuso.
— Zaio: E o que isso significa?
Dante o encara sério.
— Dante: Significa que alguém quer usar o seu poder... não esconder.
Zaio respira fundo e olha para Axel.
— Zaio: O que aconteceu, irmão?... você parece pior do que eu...
Axel levanta o olhar lentamente. Ele parece distante, como se ainda sentisse o sangue nas mãos.
— Axel: ...eu matei uma pessoa...
(pausa)
Eu sou um criminoso... um monstro...
Eu tô com medo do que eles vão fazer comigo...
Ele passa as mãos no cabelo, olhando para os lados, inquieto.
Zaio abaixa o olhar, afetado.
— Zaio: Axel... me desculpa...
(pausa)
Eu sou um amigo horrível... te meti nisso tudo...
Eu não sou forte o suficiente... fui irresponsável...
Eu sabia que sem você eu não duraria... e nem pensei que você ia sofrer com isso também...
(pausa)
Pra ser sincero... você devia se afastar de mim...
Axel bate com força na mesa e se levanta.
— Axel: IDIOTA!
Ele encara Zaio, com raiva misturada com medo.
— Axel: Você acha mesmo que eu não faria isso?
(pausa)
Sim, eu tenho uma vida boa... podia simplesmente ignorar tudo isso...
(pausa)
Mas você não é “qualquer um”, seu burro...
(pausa)
Você é meu melhor amigo.
Ele respira pesado.
— Axel: Eu não tô aqui porque é conveniente...
Eu tô aqui porque eu preciso de você do meu lado.
Então não vem com essa de que eu vou virar as costas agora!
Zaio o olha, surpreso. Por um momento, ele parece não entender... mas então um leve sorriso surge.
— Zaio: Sabe... a gente é bem diferente em várias coisas...
Mas em uma, a gente é igual...
Nossa lealdade.
Ele encara Axel.
— Zaio: Por isso você é meu melhor amigo.
Axel sorri, meio sem jeito, esfrega os olhos e se senta de novo.
— Axel: Merda...
(pausa)
Tá... então fala logo... você tem algum plano genial?
Ele abaixa a cabeça na mesa, ainda meio envergonhado.
Zaio solta uma leve risada, mas logo fica sério.
— Zaio: Eu sei que já pedi muito de vocês dois... mas preciso de mais uma coisa.
Axel e Dante o encaram, atentos.
— Zaio: Axel... você vai estar sempre perto de mim... e você é inteligente...
Quero que você anote tudo.
Minhas transformações... o que eu viro... minhas habilidades...
Ele então olha para Dante.
— Zaio: E você, velhote... sei que você é bom de luta... já passou por muita coisa...
Quero que me treine.
Me ensine a sobreviver... em qualquer situação.
Zaio abaixa a cabeça.
— Zaio: Eu quero proteger quem eu amo... até de mim mesmo...
Por um momento, fica em silêncio.
Então Dante solta um leve riso.
— Dante: Você tá ferrado na minha mão, fedelho.
Axel levanta a cabeça, com um meio sorriso.
— Axel: E eu ainda quero meu dinheiro do táxi, você sabe, né?
Zaio olha para os dois e sorri, mais leve.
— Zaio: Eu não vou decepcionar você, Dante...
E vou arrumar a grana, Axel, relaxa.
Dante ri e dá leves tapinhas na cabeça dos dois.
— Dante: Agora chega... vão dormir, seus melequentos. Já tá tarde.