Ferox Cap. 1
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Ferox

Capítulo 1 — 1-Nexum

A sala estava abafada.
O som do caneta riscando o quadro era quase irritante, se misturando com números que pareciam não fazer sentido nenhum.
Zaio nem olhava.
A cabeça apoiada na mão, olhar perdido na janela, expressão de puro tédio.
Ele soltou um suspiro pesado… e virou pro lado.
— Zaio: Caralho, mano… quem foi o filho da puta que inventou essa merda?
Axel soltou uma risada baixa, sem nem tirar os olhos do caderno.
— Axel: Ah, para com isso… matemática é boa. Você que não presta atenção em nada.
Zaio estreitou os olhos, incomodado por ter sido pego.
— Zaio: Ah… cala a boca. Tu é nerd, então automaticamente eu tô certo.
Axel só balançou a cabeça, segurando o riso.
TRIIIIIM!
O sinal ecoou pela sala.
Zaio praticamente levantou na hora.
— Zaio: Meu Deus do céu… finalmente. Aula de matemática já é uma merda, com aquela velha então piora tudo.
A professora ainda escrevia no quadro quando Zaio, já de costas, mostrou a língua pra ela.
Axel percebeu.
— Axel: Tu é muito idiota, na moral.
— Zaio: E sobrevivo assim até hoje.
Eles saem da sala juntos.
No corredor, Axel olha pra ele.
—Axel: Vai a pé hoje, né?
Zaio dá de ombros.
— Zaio: É… aquele ônibus lixo nem passa direito mais. E tu?
— Axel: Vou ficar. Limpeza da sala… representante de turma, lembra?
Zaio solta um riso curto, debochado.
— Zaio: Papo de nerd.
Axel responde com um dedo do meio.
Zaio só ri… e segue sozinho.
No caminho
O sol já começava a descer.
As ruas mais vazias.
— Zaio: Porra… tô morrendo de sede…
Ele enfia a mão no bolso, puxando algumas moedas.
— Zaio: Cinco conto… se eu gastar dois agora, amanhã eu me fodo… mas também… que sede do caralho…
Ele para diante de uma máquina de refrigerante.
Suspira.
Olha pro lado.
Um beco.
Escuro.
Silencioso.
…e alguém ali.
Encostado na parede.
Sangue.
Zaio franze a testa.
— Zaio: Ehh… ô… cê precisa de ajuda?
A cabeça do homem se move devagar.
A voz sai fraca.
— Homem: …água… ou qualquer coisa…
Zaio hesita por um segundo.
Olha pro dinheiro.
Olha pro homem.
— Zaio: …ah, foda-se.
Compra o refri.
Abre.
— Zaio: Toma aí… mas não bebe tudo não, beleza?
Ele se aproxima.
Agora dá pra ver melhor.
Roupa suja.
Ferimentos.
Mas… algo nele parecia… errado. Diferente.
O homem segura a garrafa com dificuldade.
Dá um pequeno gole.
E então… sorri.
— Homem: Você… é estranho.
Zaio trava.
— Zaio: Como é que é?
— Homem: Estranho… e corajoso.
Zaio franze o rosto, irritado.
— Zaio: Qual foi, coroa? Vim te ajudar pra ser zoado?
O homem levanta levemente a mão, em rendição.
— Homem: Não… não… não foi isso…
Ele respira com dificuldade.
— Homem: Só… não é comum alguém parar… num lugar assim… pra ajudar alguém como eu.
Zaio solta um riso curto.
— Zaio: É… vai que eu ganho uns pontos com Deus ou acho dinheiro no chão depois.
O homem observa ele por alguns segundos.
Como se estivesse… analisando.
— Homem: Hm…
Ele apoia melhor o corpo na parede.
— Homem: Me chamo... Gaspar.
Zaio dá de ombros.
— Zaio: Zaio.
Silêncio por um instante.
O ar ali parecia… pesado.
— Gaspar: Me diga uma coisa, Zaio…
Ele encara o garoto.
Olhos fundos… mas atentos.
— Gaspar: Se algo que você quer muito… estivesse nas suas mãos… e alguém tentasse tirar isso de você…
Pausa.
— Gaspar: O que você faria?
Zaio pensa por um segundo.
Dá de ombros.
— Zaio: Eu lutava, ué.
Olha direto pra ele.
— Zaio: Até o fim. Pra não perder.
Gaspar… sorri.
Um sorriso fraco, mas… satisfeito.
— Gaspar: Entendo…
Ele abaixa o olhar por um instante.
— Gaspar: …é uma boa resposta.
O silêncio volta.
O vento passa pelo beco.
Algo… estranho no ar.
Gaspar levanta a mão.
Faz um gesto leve.
— Gaspar: Vem aqui… preciso te mostrar uma coisa…
Zaio hesita.
Mas se aproxima.
— Zaio: Que foi?
No instante em que ele se inclina—
CLACK.
Uma pressão no ombro.
Uma agulha.
Silêncio.
Então—
Uma sensação gelada explode pelo braço.
Como se gelo estivesse correndo pelas veias.
— Zaio: …que porra—!?
O coração dispara.
Forte.
Rápido.
Pesado.
A respiração falha.
O som do mundo… fica distante.
Por um segundo—
Algo se move.
Dentro dele.
— Zaio: QUE MERDA FOI ESSA!?
Ele se afasta bruscamente.
Olhos arregalados.
Sem entender.
Sem conseguir pensar.
Ele olha pra Gaspar—
E chuta com força.
— Zaio: SEU DOENTE!!
Ele vira.
E corre.
Sem olhar pra trás.
Sem parar.
O coração batendo descompassado.
Algo errado.
Muito errado.
Silêncio no beco
Gaspar desliza lentamente pela parede.
Sentado no chão.
Respiração fraca.
Olhos quase fechando.
Um pequeno sorriso surge em seu rosto.
— Gaspar (baixo): …continue…
O corpo dele relaxa.
E ele não se move mais.
Alguns minutos depois
Passos.
Vários.
Firmes.
Organizados.
Soldados entram no beco.
Uma mulher vem logo atrás.
O rosto parcialmente coberto pelas sombras.
Ela observa o corpo.
Fria.
Calculista.
Um dos soldados pega um dispositivo.
Uma luz piscando.
Movendo-se.
Ela encara o ponto.
Silêncio.
Então—
— Cientista: Encontrem o Predatory Core.
Pausa.
— Cientista: …agora.
[corte]
O som dos passos de Zaio falhando contra o chão ecoava pela rua vazia.
Ele cambaleava.
Uma mão apertando o ombro, a outra tentando se equilibrar.
— Zaio (ofegante): …caralho… que porra foi aquela…
Uma sensação gelada se espalhava pelo corpo dele, como se algo estivesse rastejando por dentro.
Ele chega na frente de casa… mas não entra.
As pernas falham.
Ele cai sentado na calçada.
Respira fundo.
Puxa o celular com dificuldade.
Liga.
— Zaio: Axel… cola aqui em casa… tô fudido… tosse… vem logo…
Silêncio.
— Axel: …tô indo. Aguenta aí.
A ligação cai.
Zaio deixa o celular cair no peito e olha pro céu.
Respiração pesada.
— Zaio: …será que eu vou morrer…?
Ele ri fraco.
— Zaio: …nem comprei um iate cheio de gostosa ainda…
Minutos depois—
Passos apressados.
— Axel: ZAIO!!
Ele aparece correndo, suado, ofegante.
Se ajoelha na frente dele.
— Axel: Tu tá bem, irmão!?
Zaio levanta o olhar devagar.
— Zaio: …acho que vou de base hoje…
Um sorriso fraco… que some rápido.
— Zaio: tô meio zonzo… uma dor do caralho no ombro… mano… cê não tá ligado no que aconteceu…
— Axel: fala logo, porra.
— Zaio: eu tava vindo… parei naquela máquina de refri… aí ajudei um cara estranho num beco… e o filho da puta me espetou com uma vacina…
Silêncio.
Axel encara ele.
Processa.
E então—
— Axel: …tu é muito burro.
— Zaio: ah, vai se fuder.
— Axel: NUM BECO, ZAIO!?
— Zaio: eu só queria ajudar, porra!
— Axel: ajudar sendo idiota não conta!
Zaio abaixa a cabeça, emburrado.
— Zaio: …tava tentando ser gente boa…
— Axel: e até nisso tu consegue se ferrar, impressionante.
Zaio levanta o olhar, irritado.
— Zaio: ah não vem crescer pra cima de mim não! tu que vivia falando pra eu ser legal!
— Axel: COM RESPONSABILIDADE, ANIMAL!
Silêncio.
Zaio desvia o olhar.
— Zaio: …essa parte tu não explicou…
Axel respira fundo.
— Axel: tá… o que tu tá sentindo?
— Zaio: dor no ombro… tontura… só isso…
— Axel: dor de cabeça?
— Zaio: não.
— Axel: alucinação?
— Zaio: nah.
— Axel: dor em área vital?
— Zaio: mano, eu nem sei o que é vital direito.
Axel suspira.
— Axel: …acho que tu tá bem.
Zaio solta o ar.
— Zaio: então foi nada?
— Axel: provavelmente… mas se piorar—
Zaio olha pro chão.
Algo brilha.
Ele estreita os olhos.
— Zaio: …carai… 2 conto.
Ele se inclina pra pegar—
BANG!!
O tiro explode no vaso atrás dele.
Terra e cerâmica voam.
— Axel: QUE PORRA—
— Zaio: PUTA QUE PARIU!!
— Voz (longe): Peguem o garoto!!
Som de botas.
Vários.
Rápidos.
— Axel: CORRE!!
Os dois disparam pra lateral da casa, passando pelo corredor estreito até os fundos.
Tiros rasgam a parede.
Eles se jogam atrás de entulhos — madeira velha, tijolos quebrados.
Respiração acelerada.
— Zaio: CARALHO CARALHO CARALHO—
— Axel: CALA A BOCA!!
Passos se aproximando.
Vozes baixas.
— Soldado: alvo confirmado… não acertar o coração…
Axel olha pra Zaio.
Agora não tem bronca.
Só medo.
— Axel (baixo): …o que você fez…
Zaio tenta responder—
Mas para.
O corpo trava.
A pele formiga.
Os olhos dele começam a se mover rápido demais.
— Zaio: …mano…
O coração dispara.
Forte.
Rápido.
Pesado.
— Zaio: …tem algo errado…
O medo cresce.
Sufocante.
Instintivo.
E então—
A pele do braço dele rasga.
Direto.
Violento.
Sem pausa.
Axel se afasta na hora.
— Axel: QUE PORRA É ESSA!?
Os ossos estalam.
Quebram.
Se expandem.
O corpo cresce.
Se distorce.
Os olhos—
EXPLODEM.
Sangue escorre… e novos olhos se formam no lugar.
A pele rasgada se recompõe em segundos—
Coberta por pelos grossos, escuros, com tom azulado.
As mãos viram garras.
A mandíbula se alonga.
Dentes surgem.
Afiados.
Predatórios.
Em poucos segundos—
Zaio desapareceu.
No lugar—
Uma criatura.
Respirando pesado.
Viva.
Instintiva.
Axel recua, tremendo.
— Axel: …não… não… não…
Os soldados surgem.
Apontam.
— Soldado: contato—
Tarde.
A criatura avança.
Rápida.
Bruta.
Um impacto só—
Um soldado perde a cabeça.
Outro é rasgado no meio.
Disparos acertam o corpo da criatura—
Mas ela não para.
Não hesita.
Não pensa.
Só destrói.
Um avança—
Erro.
O corpo dele é dilacerado.
Outro tenta recuar—
Não consegue.
O caos toma conta.
Sangue.
Gritos.
Silêncio quebrado por violência.
Dois soldados restantes recuam correndo.
— Soldado: RETIRADA!!
Eles entram no carro e somem.
A criatura para.
Respira.
Pesado.
Imóvel.
Axel, de longe, mal consegue ficar em pé.
— Axel (trêmulo): …Zaio…?
A criatura não responde.
Por um segundo—
Dois—
A pele começa a ceder.
Derreter.
Os ossos voltam.
Os pelos somem.
E ali—
Zaio.
De pé.
Só de calça.
Silêncio absoluto.
— Axel: …Zaio?
Zaio abre a boca—
E solta um grito.
Um grito humano.
Cru.
Desesperado.
— Zaio: AAAAAAAAAAA—
A dor vem de uma vez.
O corpo inteiro colapsa.
Ele cai no chão.
Tremendo.
E então—
Apaga.