Capa de Aurora, uma luz no nevoeiro

Aurora, uma luz no nevoeiro

Capítulo 5 — Capítulo 5

MIGUEL

O Dr. Jairo e os três novos mensageiros estavam no Pronto Socorro Infantil. O local da reunião provocava uma estranheza difícil de explicar, eles estavam num corredor comprido, de paredes verdes, iluminado por luzes brancas e frias, com desenhos de bichinhos alegres espalhados por toda parte. Ali, discutiam suas funções e rotinas.

O médico os instruiu a usarem máscaras o tempo todo e a trocá-las a cada hora.

— Bem, o trabalho de vocês é simples. Vão andar o prédio inteiro e pegar as amostras biológicas nos leitos e as levarão ao laboratório.

— O prédio inteiro? Mas esse lugar é imenso! — exclamou o homem calvo.

— Não é tão grande assim. Vão ver quando se acostumarem... Vamos adiante, vou mostrar a área principal onde irão ficar.

Eles caminharam até o elevador no fim do corredor e desceram ao andar -1. Ao sair, encontraram uma ampla sala de espera com bancos e duas TVs de tela grande. Uma transmitia um desenho animado e a outra, exibia em letras claras, número de senha, nome completo dos pacientes e a sala de atendimento.

Ao fundo, havia uma sala com uma janela quadrada ampla, de onde se avistava todo o Pronto Socorro Infantil. A porta era protegida por senha e também podia ser aberta com um crachá, ao lado da porta, tinha uma pequena campainha.

— Estes serão os postos de trabalho de vocês — disse o Dr. Jairo, destrancando a porta. — Esta é a sala da administração. Ficarão aqui aguardando até que a auxiliar de coleta os chame para levarem as amostras ao laboratório ou algum dos leitos dos outros andares. Ao retornarem, toquem a campainha ao lado para que a administradora libere a entrada de vocês.

— Perai, eu não estou entendendo nada... Que auxiliar? Que Administradora? Que laboratório? — indagou o adolescente.

Antes que o Dr. Jairo pudesse responder, uma voz ecoou pelos alto-falantes:

— Dr. Jairo, favor dirigir-se à ala PSA3... Atenção, Dr. Jairo, favor dirigir-se à ala PSA3... stat.

— Preciso ir. É uma emergência — disse Jairo, arrumando-se às pressas.

— Mas... e nós? — perguntou o homem calvo.

— Mandarei um dos nossos mensageiros experientes guiá-los com mais calma. Peço desculpas pela confusão, em breve entenderão como funciona esse... parque de diversões. Até mais tarde.

Ele se virou e saiu rapidamente, deixando os três ali, perdidos.

O homem calvo e o adolescente começaram a conversar indignados com a situação. Porém, Miguel se mantinha calmo, observando em silêncio, imóvel e quieto como uma parede.

Algum tempo depois, a porta se abriu. Entrou um jovem de jaleco branco, carregando uma maleta.

— Então estão aqui! Sejam bem-vindos ao Hospital Anjos da Guarda. Como estão? — Ele colocou a maleta sobre uma mesa pequena, pôs as mãos nas costas e acenou com a cabeça.

— Mais perdidos que cupim em metalúrgica! — respondeu o jovem de óculos, rindo.

— Peço desculpas por essa recepção desorganizada. As coisas são bem agitadas por aqui e não param, espero que compreendam.

— Deveriam ter alguém preparado para nos receber — disse o homem calvo numa ignorância.

— Entendo e lamento novamente. Que tal nos apresentarmos? Assim ficamos mais próximos — sugeriu o jovem. Os dois acenaram. Miguel permaneceu imóvel, fitando-o em silêncio.

O homem calvo chamava-se Carlos Eduardo, de 46 anos e fora contratado justamente por sua experiência. O jovem de óculos era Thiago Oliveira, com 17 anos, em seu primeiro emprego como jovem aprendiz

O mensageiro veterano era João Pedro, de 27 anos, três de casa como mensageiro. Era alto, moreno, de olhos castanhos como mel e cabelo penteado num black power definido. Ele encarou Miguel e acenou com a cabeça.

— E você, amigão? Apresente-se.

— Esse aí não soltou um pio desde que chegamos, nem percebi que estava aqui! — brincou Thiago.

Miguel encontrou o olhar de João. Notou as marcas de expressão e as olheiras profundas sob seus olhos. Uma pressão começou a apertar-lhe o peito; só de pensar em falar, sentia um desconforto subir pelo estômago. Ele respirou fundo e respondeu:

— Miguel. 24 anos... É meu primeiro emprego — A sua voz saiu baixa, quase um miado de um gato, mas todos o ouviram.

Carlos e Thiago trocaram um olhar. Miguel percebeu o estranhamento no ar. Sentiu o rosto queimar, o corpo aquecer, o seu coração batia como uma britadeira fora de controle. Ele desejou apenas que aquela apresentação terminasse ali.

— Muito bem! Agora que todos se conhecem, venham comigo. Vou mostrar o caminho — disse João, abrindo a porta.

De repente, uma mulher alta entrou com tudo, esbarrando nele.

— Ai! Me desculpe, não sabia que tinha alguém atrás da porta! — Ela cobria a boca com as mãos, a sua voz era trêmula — Se machucou?

— Tudo bem, foi só um susto. Se tivesse batido mais forte, é que eu acabaria internado neste hospital — brincou João, levando as mãos ao rosto e sorrindo. Ao se recuperar, os seus olhos brilharam ao fitá-la. Era uma mulher de estatura imponente, alta de pele morena, de cabelos pretos e lisos que lhe caíam sobre os ombros, e olhos grandes de cor âmbar. No crachá de identificação dela, estava Auxiliar de Administração Francine.

— Sinto muito... Eu cheguei agora e acabei me perdendo e...

— Não se preocupe. Estou apenas brincando. Deve ser a nova administradora, certo? Seja muito bem-vinda.

— Obrigada — respondeu ela, visivelmente nervosa.

— Já conhece os procedimentos?

— Sim. Ficarei atenta aos pedidos, aos comunicados de coleta, às autorizações... e acesso da porta.

— Perfeito. Seja bem-vinda ao Hospital Anjos da Guarda.

Os dois ficaram se olhando fixamente, como se tivessem se esquecido de piscar. Carlos deu um pigarro dando um leve susto nos dois.

— Ah, sim... Com licença, rapazes. Vamos — disse João.

Os quatro saíram da sala fechando a porta, eles foram direto para o elevador

— Porra! Se viu aquele avião?— exclamou Carlos, ainda impressionado.

— Tem mais desse tipo por aqui, João? — perguntou Thiago.

João suspirou enquanto apertava o botão do elevador — Já vi que essa daí vai dar trabalho...

As portas se abriram e eles desceram de volta ao corredor verde.

— Sei bem que tipo de trabalho você quer que ela dê, Você o tamanho daqueles peitos ? — Carlos gesticulava com as mãos. Os comentários não cessavam.

Miguel ouvia tudo, risadas, piadas, comentários. Mas se manteve em silêncio para não se intrometer.

Ao entrar no corredor verde, seus passos foram se tornando mais lentos. As vozes dos outros pareciam se afastar. Ele olhou para os desenhos nas paredes: leões, ursos, borboletas, centopéias, todos coloridos e alegres. Mas havia algo de errado. Os olhos de cada animal pareciam virar-se em sua direção. Estavam mais arregalados, as pupilas menores, e os sorrisos... os sorrisos pareciam mais largos e abertos do que antes.

— Miguel? Vamos ao laboratório! Me acompanhe ou vai se perder! — A voz de João o trouxe de volta num pequeno susto trêmulo.

Miguel fechou os olhos e respirou fundo.

— Não tem nada de errado... Vai ficar tudo bem — sussurrou pra si mesmo, ele deu passos rápidos, afastando-se dos desenhos, e seguiu João.