Capa de Aurora, uma luz no nevoeiro

Aurora, uma luz no nevoeiro

Capítulo 6 — Capítulo 6

Charlotte

Chegando ao primeiro andar do Pronto Socorro Adulto, Charlotte encontrou um ambiente intenso e movimentado, pessoas iam e vinham sem parar. O local possuía dois corredores ladeados por salas de tamanho médio e portas abertas. O salão principal tinha o piso de mármore com desenho imitando madeira e paredes beges iluminadas por luzes alaranjadas, o espaço em si tinha esse tom monocromático. Ali ficavam poltronas reclináveis estofadas em algodão e seda, com porta-copos e carregadores embutidos ao lado. Encostados nas paredes, de frente para as poltronas, estavam os leitos, separados do ambiente por cortinas grossas de pano. Pacientes recebiam soro nos braços. Médicos e enfermeiros circulavam com jalecos brancos e uniformes rosas ou azuis. Idosos apoiavam-se em seus acompanhantes. Risadas e gemidos de dor se entrelaçavam como uma sinfonia desafinada, um verdadeiro caos.

Charlotte olhava de um lado para o outro perdida sem saber para onde ir, então ela avista um enfermeiro de uniforme rosa andando apressadamente e decide ir em direção a ele para pedir ajuda.

— Boa noite, você poderia me informar onde fica a área de mensageiros? — diz ela tentando dar passos apressados para o acompanhar.

— Mensageiro? Mas não temos mensageiros aqui.

— Como não!? — ela respondeu tensa.

O enfermeiro para e olha para os lados com uma expressão duvidosa — Vem comigo — ele anda mais rápido voltando para a sala monocromática.

Os dois chegam até a área da administração do PSA que ficava nos fundos da área onde os pacientes tomavam soros nas confortáveis poltronas, a sala era bem pequena e estreita, cheia de armários, duas mesas com dois computadores e impressoras, a sala mal cabiam três pessoas, as paredes brancas com a luz do mesmo tom se destacava no ambiente alaranjado dos pacientes, haviam duas mulheres que trabalhavam ali em frente dos computadores.

— Oi, tem uma mensageira perdida aqui, dão um suporte pra ela — diz o enfermeiro com tanta pressa que mal olhou para as meninas, apenas se virou e sumiu num corredor.

— Boa noite — diz Charlotte olhando para os lados confusa, as duas mulheres olham para Charlotte em uma expressão incrédula

— Oi meu bem, me desculpa por essa recepção — disse uma delas se levantando rapidamente da cadeira, indo em direção a Charlotte e segurando as mãos dela — eu sou Alycia, ADM do PSA e essa é a Klarier, a mensageria daqui.

Klarier abriu um largo sorriso enquanto acenava com a mão, Charlotte suspirou aliviada por um instante.

— Bom saber que tem mais de uma mensageira além de mim, aquele homem disse que não tinha mensageiros aqui.

— Não liga pra isso flor, o pessoal daqui é meio ignorante mesmo — diz Klarier fazendo caretas

— Você começa hoje né? Klarier vai fazer uma entrega agorinha e você vai com ela pra poder ensinar tábom.

— Tá bom — responde Charlotte dando outro suspiro de alívio.

— Vem comigo — Klarier se levanta da cadeira, ela pega um imenso caderno em cima da mesa e anda até Charlotte — você vai precisar disso também.

Elas saíram da salinha atravessando a área de atendimento, entrando num outro cômodo pequeno, haviam quatro pessoas nela sendo duas auxiliares de coleta e dois pacientes, eles estavam retirando sangue, o pequeno local era rodeado de armário e estantes cheias de seringas, cilindros com tampas de cores diferentes, algodões e curativos, uma pia e uma mesa com computador e uma pequena a impressora, tinha duas entradas que ligavam a sala monocromática e um corredor atrás dela.

— Oi meninas, essa aqui é a nova mensageira — Klarier fez uma pausa e as duas mulheres olharam pra elas

— Prazer, o meu nome é Charlotte.

— Que maravilha, tem muito pessoal novo entrando hoje, eu sou Suzete e essa aqui é a Pâmela, seja bem vinda ao hospício — Suzete é loira com pequenas partes do seu cabelo super liso pintado de preto amarrados por um rabo de cavalo longo e olhos castanhos mel combinando com a pele amarelada, ela aparentava ter 40 anos por várias marcas de expressão e pintas pretas em seu rosto, porém seu corpo era esbelto e firme revelando que frequentava academia.

— Não liga pra ela, só quer te assustar — a outra mulher dá um tapinha no ar — eu sou Pâmela, prazer em conhecer. Já tem algumas coletas pra subir — Pâmela era doce e simpática, de cabelos curtos presos em um coque, os seus olhos eram castanhos escuros, algo chamava atenção nela, uma aura brilhante, um ar de inteligência e paciência, tinha uma natureza materna, a sua pele era tão branca que parecia ser de porcelana, ela tinha menos que 37 anos.

Klarier pegou um cooler térmico azul em cima da pia — essa é a maleta de coleta, você só precisa abrir e ver se tem esses cilindros com sangue e outras coisas como urina, espero que não sinta nojo.

— Não sinto — Charlotte queria revelar a sua formação, contar as experiências que teve nas casas de repouso e necrotério, mas teve medo de ser questionada.

— Sério? Eu não consigo abrir essa caixa sem sentir nojo. Prefiro só perguntar se está tudo lá.

— Frescaaaaa — Suzete fala em um canto lírico fazendo Pâmela rir um pouco.

— Bom, tudo o que você precisa fazer é pegar essa maleta e levar no laboratório e trazer de volta.

— Só isso?

— Sim, também temos que protocolar nesse caderno a hora que a gente saiu daqui, o tipo de cilindro e quantos foram, a hora que a gente chegou lá no laboratório e a assinatura do laboratório — Klarier mostra o caderno com as informações anotadas com apenas com espaços suficientes para marcar com caneta.

— Eu pensei que era mais difícil — murmurou Charlotte.

— Vem, vou te mostrar o laboratório.

Elas seguiram para a porta que dava ao corretor atrás da sala de coleta e deram de cara ao elevador, durante o trajeto, elas foram se conhecendo.
Klarier era morena com cabelos em cachos mola bem cheios, lábios grandes de sorriso largo, sua voz macia e delicada, com um charme nas palavras pois a sua língua era presa, ela era uma garota virtuosa que vivia rindo de vídeos em suas redes sociais e era bem fotogênica, as suas últimas recordações eram do dia anterior, comemorando o seu aniversário de 25 anos, as duas saíram do elevador no Terceiro andar do hospital e deram de cara num corredor branco, ao andarem para frente, Klarier parou e suspirou.

— Droga, esqueci que a Valéria me pediu um negócio, Me espere aqui Charlotte, eu vou voltar pro PSA — disse Klarier

— O que? E eu vou ficar aqui olhando pro teto? vamos levar esse sangue pra ela e depois voltamos.

— Não menina, eu não vou subir tudo de novo, olha, tive uma ideia melhor, você vai na frente e me espera lá no laboratório e descemos juntas.

— Mas vai dar no mesmo Klarier, Você vai ir lá pra voltar aqui depois.

— Mas o elevador já vai estar aqui, só virar a direita e seguir no fim tabom, vai ter uma pequena janela com uma porta de madeira, é só bater que a Valéria te atende — o elevador apita e se fecha deixando Charlotte sozinha.

— Vai ver Erick tenha razão sobre esse trabalho — Charlotte murmura e segue pelo corredor branco, ao virar para direita de uma vez, ela se esbarra num grupo de rapazes, um homem calvo, e dois jovens sendo um míope e outro de jaleco.

— Opa! Desculpe, eu não tinha visto vocês.

— Mais uma João, você só se esbarra em mulheres, é como um ímã que atrai xereca — disse o homem calvo que rlecebeu uma cotovela na costela.

— Desculpe por isso, está perdida moça?

— Eu só preciso saber onde fica o laboratório, tenho que deixar isso lá — ela ergue o cooler azulado.

— Fica ali nos fundos, onde está aquele rapazinho — O jovem de jaleco aponta para o fim do corredor.

— Obrigada — Charlotte faz uma cara feia para o homem calvo e se afasta deles.

Enquanto anda, ela avisa um rapaz com um pouco mais de altura que ela, seus cabelos eram ondulados e pretos, estava com roupas cinzas e olhava fixamente para uma pequena porta fechada, ela se aproximou dele e disse

— Oi, boa noite, esse aqui é o laboratório? — disse com uma voz simpática, mas o garoto só a ignorou olhando para a porta fixamente, Charlotte respirou fundo e torceu para não surtar — Boa noite, Poderia me informar se esse é o laboratório? — disse em um tom mais alto.

O garoto se virou para ela e a encarou nos fundos dos seus olhos, ali ele ficou, sem se mexer, sem piscar, sem respirar.
Sem saber o que fazer e já estressada, Charlotte bufa e abre a boca para dizer algo, mas é impedida por uma voz que saia de dentro da sala atrás da janela — Eu estou chegando — a porta abriu por dentro e o recinto misterioso é revelando, era uma sala grande com vários equipamentos de laboratório cada um fazendo uma sinfonia de sons e apitos diferentes, uma mulher muito animada atendeu as os dois — Oi... boa noite queridos, em que posso ajudá-los?

— Olá, boa noite, eu sou a nova mensageira e queria saber se deixo as coisas aqui?

— Deixe-me adivinhar, são novos e estão perdidos né?

— Perdida, estressada, meu primeiro dia começou um caos.

— Bem vinda a família, meu bem, vai ter dias piores, mas vamos rezar pra melhorar.

— Entendi e muito obrigada, eu andei pedindo informação mas só levei gelo — Charlotte olha para o rapaz, ele olhava fixamente a mulher do laboratório, mas não demonstrava nenhuma reação.

— hum, se acostume com isso, vai ter em todo o canto, mas não gaste saliva, agora coloquem as suas maletas aqui e seus cadernos para eu autografar.

— Meu nome é Charlotte, prazer, eu estou ajudando Klarier no momento — ela colocou as coisas em cima do balcão.

— A que bom, uma nova ajudante aqui, já estava na hora né, a coitada da subia e descia sem parar, agora vai ter um apoio, meu nome é Valéria, sou a responsável pelo laboratório — disse ela com tom de felicidade em sua voz um pouco rouca, ela tinha menos que 43 anos, com cabelos longos e liso em rabo de cavalo com muitas canetas enfiadas na parte de trás, era um pouco baixa pois a janela cobria a maior parte do seu corpo, deixando apenas aparecer a parte de cima.

— E esse rapazinho aí, quem é — Valéria apontou com a cabeça mas o garoto não respondeu, ele apenas deixou a maleta em cima do balcão — entendi, você é do tipo que não fala muito né, vamos fazer o seguinte, voce não vai sair daqui até dizer o seu nome — ela pegou as amostras da maleta de Charlote e assinou o caderno dela — aqui meu bem, pode voltar ao seu setor, você só precisa trocar o gelo de vez em quando está bem?

— Obrigada Valéria, até mais tarde — Charlotte acena e dá um sorriso simpático, o mesmo faz Valéria e assim, ela sai do corredor deixando o rapaz sozinho com a analista do laboratório.