
Crônicas de Kanh
Capítulo 9 — Sete
Capítulo 7
O que você faria? Caso o poder de salvar três pessoas estivesse nas suas mãos, você os ajudaria?
Desconhecidos. Você não tem ideia de quem são eles. Mesmo assim, você os salvaria?
E se as pessoas fossem assassinas? Indivíduos criados unicamente para matar, podendo ter o sangue de milhares em suas mãos? Mesmo assim, você os salvaria? Ou os abandonaria para a morte sem remorso algum?
Você agiria como um bom samaritano?
Diante de Tobias, uma Numerada, uma assassina de elite, agarra a mão de seu companheiro ruivo trêmula, sem forças para sequer se levantar. A dupla, aparentemente um casal, como qualquer outro, não conseguem esconder a própria aura, vibrando inconsistentemente conforme fitam Tobias, parado, olhando para suas tatuagens.
003 e 004. São Numerados, assassinos de elite.
Como se já não bastasse, outros dois Numerados estão à beira da morte. 050, o garoto na casa dos 15 anos que quase o matou mais cedo e, 001, a líder deles, provavelmente a mais perigosa do grupo, custa a respirar conforme sua aura luta para mantê-la viva.
Mesmo assim, seu coração continua a acelerar. Seu eu inteiro vibra, sentindo medo, raiva, preocupação e… E algo que não conseguia explicar.
Ele via o mesmo vampiro que recebeu ajuda. Um assassino. Sua cabeça dói, as memórias de antes se colidem com o presente.
Ele queria ajudar. Sentia-se na obrigação de ajudar.
Absurdo. Revoltante. Porém, alguém o mandava fazer algo. “Eu preciso fazer algo.” O pensamento insano é a única coisa que passava pela cabeça dele, batendo as memórias de sua quase morte junto da imaginação do que aconteceria com Laissa caso aquele Numerado tivesse sucesso na missão.
Mas ele não teve sucesso.
Tobias milagrosamente sobreviveu.
E, milagrosamente, os quatro estavam vivos diante dele, mesmo feridos.
Milagres. Eram muitos milagres.
Seus dentes rangem. “Mas e se eles matarem outras pessoas?” Seu pulso começa a sangrar, cravado pelas unhas do vampiro que, segurando o próprio braço, sequer sente dor. “Eles estarem vivos é um milagre. Eu estar vivo é um milagre. Espera, esses milagres…” Sua mente paralisa, sentindo uma força que definitivamente não era sua tomar o seu corpo.
A loira e o ruivo permanecem em silêncio, olhando-o preocupados conforme o corpo do vampiro tremia. Estava muito bem para quem havia acabado de morrer. Havia andado em linha reta até eles, dentre vários lugares que poderia ter ido, ele foi ali.
Eram muitos milagres.
-Cristo... -Ele murmura, ainda não acreditando no que iria fazer.
Aproximando dos caídos, a aura dos feridos estava fraca. O ruivo desvia o olhar deles. Não conseguia vê-los naquele estado. A loira estava apavorada, mas não conseguia tirar os olhos deles. Implorava ajuda aos céus mesmo sem nem saber para quem estava pedindo.
-Deus, eu vou tentar fazer minha parte. Que faça a sua vontade, e não a minha. Se for pra eles viverem, que eles vivam.
Abaixando, ele encara o enorme ferimento no peitoral de 001. “Um golpe de espada vindo por trás.” Todo o seu corpo estava muito instável, vibrando, como se tentasse expulsar algo para fora. Sinceramente, não tinha ideia de como aquela cicatriz de quase sete centímetros foi fechada.
Um dom parecia segurar os ferimentos, evitando um colapso total. “O núcleo de aura dela foi atingido.” É a conclusão mais lógica. Pondo as mãos sobre a ferida com extremo cuidado, Tobias começa a injetar aura pela ferida, apostando que as aulas com Davi sobre como ajudar soldados feridos na batalha.
Quando um humano tem feridas e está sangrando, o intuitivo é estancar o sangramento. Com um despertado ferido, o intuitivo é consertar os vazamentos de aura. Contudo, o núcleo dela estava danificado, então o plano dele era tentar mantê-lo estável enquanto “remendava” o resto.
Muito mais fácil falar do que fazer. Sua energia poderia causar uma reação alérgica.
Inclusive, ele sempre tinha uma quando alguém tenta ajudá-lo com aura.
Mas que opção ele tinha? Encontrando o núcleo, com o lado direito estilhaçado, a surpresa domina-o. Havia outra energia ali, extremamente densa. Porém, ela foi isolada pela aura da jovem, sequer sofrendo danos pela presença dela. É quase como se ela tivesse se adaptado à força.
Ignorando os pensamentos e focando no que importa, Tobias envolve o núcleo da mulher com a sua aura e, juntando as partes estilhaçadas, o sangue dela reage à magia.
A energia dele foca-se nas feridas, mantendo-as estáveis conforme o vampiro tenta impulsionar a produção de aura da jovem, quase nula. Simplesmente manter o núcleo estilhaçado junto não seria o suficiente para a condição da mulher melhorar, ela precisava estar funcionando minimamente para colar ele.
“Mas ela provavelmente gastou toda a aura sobrevivendo aos ferimentos. Isso é ruim.” Seus espasmos reduzem, os olhos abrem um pouco. Estava reagindo.
As pupilas castanhas mudam de cor ao serem desfeitas em fios, tornando-se uma mistura de preto e branco. “Isso é o dom dela?” Tobias não entendia exatamente o que estava fazendo o corpo da jovem responder, mas sabia que ela estava lutando. O fato dela ainda estar viva era assustador.
Ela não tinha desistido.
-Eu vou te ajudar. Tente produzir mais energia. -O jovem declara, retirando o cabelo dela de seu rosto. Já havia tomado sua decisão, precisava manter a calma.
-Não… Não! -A ação é tão repentina que o cavaleiro quase engasga. Quando percebe, seu braço está sendo segurado por ela, produzindo cada vez mais aura. Seus olhos arregalam. A pele começa a brilhar e os outros Numerados se levantam. -Ele… Ele está mais ferido que eu, ajude ele!
“O que?” A dupla de Numerados também trava. Ela aponta para o caído. Processando, os olhos do vampiro voltam-se para 050, desacordado. As marcas de cortes e mordidas tinham uma cor roxa horrível, aquilo era um péssimo sinal.
A aura dele definitivamente está mais fraca que a dela. Porém, não estavam tão distantes nesse quesito. Os dois estavam quase morrendo.
Os olhos do vampiro cruzam com os da jovem, tremendo.
-Por favor.
Ela sequer tinha forças para aumentar a voz.
O cavaleiro cerra os dentes.
-Droga. -Ele cede.
Ajoelhando, seus olhos passam pelas feridas de mordidas e a aura dele, instável. A aproximação apenas confirma sua teoria, a outra energia é realmente de 003.
-O que raios atacou vocês?
-Uns crocodilos. -003 responde e o vampiro sequer questiona. Naquela altura do campeonato isso era aceitável. A loira se aproxima lentamente deles com o ruivo apoiado no próprio corpo, vidrados no jovem de cabelo branco. 001 parecia minimamente estável. Permanecia escorada no próprio braço esquerdo. -Eles eram enormes. Pareciam estar nos seguindo.
-Fomos ajudados por uma pessoa. Ele começou a atacar os crocodilos e o rio continuou arrastando a gente até aqui. -O ruivo completa, sendo colocado cuidadosamente no chão perto de 001. Vê-lo falando faz os ombros de Tobias relaxarem um pouco. Era menos um para se preocupar. -Você tá bem? De verdade?
-Eu estou! Foquem nele!
O Cavaleiro coloca as mãos no peitoral do jovem, com o pulso e respiração fracos. Começando a energizá-lo sem misturar as auras, o vampiro outra vez começa a utilizar sua magia de sangue, fechando artificialmente os ferimentos internos dele ao tentar reconstruir seus circuitos de aura.
A visão de Tobias começa a escurecer.
Seus braços começam a tremer. Os danos acumulados estavam aparecendo.
A aura, cada vez mais escassa, dificulta cada vez mais a ação da magia de sangue. O corpo de 050 estava mais ferido que sua aura conseguia ajuda-lo naquele estado.
Precisava de ajuda.
Então, uma onda de energia atravessa seu corpo. Vibrando em seu interior, Tobias sente a força estrangeira misturar-se com a sua e impulsionar o próprio núcleo de energia.
Assimilando-a de alguma forma, aquilo assusta o vampiro. Os olhos do vampiro voltam-se para a dona dela, com a mão em suas costas ao entregar a maior quantidade de aura possível conforme fios surgem pela sua pele escura, fechando artificialmente feridas que abriam.
-Eu… Não vou aguentar muito tempo. -As palavras abafadas apenas comprovam o que as feridas, cada vez maiores, alertam. Os outros Numerados tentam se aproximar, provavelmente pensando em fazer o mesmo, mas paralisam no olhar de sua líder, uma clara ordem para parar. -Por favor, não o deixe morrer.
“001 está se sacrificando!?” O cavaleiro volta a atenção para 050, decidido a estabilizá-lo o mais rápido possível. O motivo? Caso demorasse, era a Líder dos Numerados que poderia morrer. Preocupar-se com a líder dos assassinos arranca uma risada seca dele, ainda incrédulo com tudo aquilo.
O processo de cura começa pelo próprio núcleo de energia. A primeira reação é boa, ele começa a produzir sua própria aura novamente. Contudo, o coração não volta a bater. “Ainda há água no pulmão dele?” A sensação de um líquido pela parte interior do peitoral de 050 incomoda Tobias, decidindo virá-lo lentamente antes de pressionar suas costas.
Assim que a pressão acontece, 050 cospe a água.
Seu coração volta a bater de uma vez. Os olhos dele se arregalam e um grunhido escapa dentre seus dentes, um grunhido de dor.
Tobias senta de uma vez conforme 001 cessa o fluxo de energia, perdendo as forças.
Ela é segurada pelo cavaleiro, de alguma forma reagindo a tempo. 003 e 004 choram puxando 050 num abraço. Ele, ainda não conseguindo entender o que está acontecendo, permanece com o rosto pálido e o semblante pasmo. Nenhum dos dois nunca havia chorado na frente dele.
001 sorri, sequer notando que o vampiro a segurava. Devolvendo a energia que lhe foi dada, de alguma forma compatível, Tobias ousa olhar para o trio. O jovem é segurado pelo ruivo conforme a loira checa cada parte de seu corpo, vendo se há algum ferimento perigoso.
Porém, ele estava estável.
Durante aquele pequeno momento, o vampiro ficou feliz por ter salvado a vida de alguém. Mesmo fraco, mesmo sem aura o bastante para curar uma mosca, ele havia conseguido salvar a vida deles.
Bem, não foi exatamente ele, mas ainda assim estava feliz.
-Ei… -A líder balbucia. O olhar dos dois se encontram, próximos. Estavam tão fracos que se um deles mexesse, os dois iam pro chão. Ciente disso, 001 permanecia parada, segurada pelo ombro e apoiada no cavaleiro conforme a aura dele continuava a ser processada pelo seu núcleo, agora inteiro. -Qual é o seu nome?
A pergunta o paralisa. Pensou que ouviria um “obrigado”, algo como “estou te devendo uma” ou até mesmo uma ameaça. Pensando, o vampiro volta a olhar pro trio, começando a retornar para a realidade.
-Meu nome é Tobias. -Sua resposta carrega um peso que nem ele mesmo sabia. Aquele nome era o seu verdadeiro nome, o nome causador de tantos problemas… -Tobias Ordeal Arcanjo.
001 abre a boca, porém trava. Seus olhos arregalam, Tobias arqueia as sobrancelhas e olha na mesma direção, somente a tempo de ver uma mão o segurar e puxá-lo com força.
-OBRIGADA! -Tanto o vampiro quanto a Numerada são engolidos num abraço pela loira, arrancando um grunhido do homem conforme a jovem líder tenta segura-la para manter a distância, falhando miseravelmente. -Os dois! Obrigada! Eu nem acreditei quando eu vi a aura de vocês se unirem! Você não era hiper resistente a toda mistura de aura mulher!?
-Eu… Eu… -Suas palavras não saem. A força trava seu peitoral. Percebendo, a loira a solta junto do vampiro, imediatamente se afastando com a respiração instável, vermelho feito uma pimenta. -Eu sou. Não sei como, mas deu certo.
-Você também é resistente a aura de terceiros? -Tobias balbucia, notando o olhar do ruivo nele, com as sobrancelhas arqueadas e o punho cerrado.
A líder fecha a cara, não acreditando naquilo. Se os dois eram resistentes à ação da aura de terceiros, como eles conseguiram se ajudar naquela situação? Era pra aura deles lutarem uma contra a outra, e não entrarem naquele nível de sinergia.
-Você… Ta bem expressiva hoje. -A loira murmura, encarando sua líder. Ela, por resposta, volta ao semblante inexpressivo padrão, somente agora percebendo isso. -Bem, isso não importa! Prefiro assim, estamos vivas! Estamos livres! E estamos te devendo uma, Tobias Arcanjo. O que quer como pagamento?
-Pagamento? -A líder checa a dupla de meninos conforme o vampiro processa o que ouviu, sequer notando que repetiu a fala. Não havia feito aquilo pensando em ganhar nada em troca. Sequer esperava que isso acontecesse.
-Sim. -A alegria da loira parece diminuir. Sua atenção, voltando momentâneamente para o ruivo e o garoto de cabelo branco, olhando fixamente para eles, fixa no vampiro, sentindo a aura dela mudar. -Eu farei qualquer coisa que pedir. Só peço para não pedir nada para eles.
A aura transmite seu maior sentimento no momento: Medo. “Está com medo de mim?” Um sentimento horrível toma o jovem, não entendendo o motivo daquilo.
-Por… Por quê? -O garoto de cabelo branco finalmente fala. 001, que estava refazendo a roupa dele com seu dom, para sua ação ao olhá-lo. 004, antes encarando a loira e o vampiro, retorna a atenção pro jovem, pálido.
Tobias respira fundo. A parte difícil estava começando.
-Eu… Eu tentei te matar! -Os outros Numerados encaram-no, sentindo a mudança na aura dele. -E você… Me ajuda!?
O ruivo arqueia as sobrancelhas. A loira fica confusa, piscando algumas vezes.
001 arrepia dos pés a cabeça, olhando para Tobias.
Ele estava ao lado do loiro quando 050 caiu do portal.
-Aqueles desgraçados teriam feito de Laissa uma escrava até o último dia da vida dela e, e você… -A voz falha, não encontrando palavras para descrever o que está sentindo. -Por que!? Eu… Você! Se eu estivesse no seu lugar…
Estava tremendo muito. Sentia revolta, raiva, sentia-se… Confuso.
A loira tenta juntar as peças. Estava tão focada em 050 que não havia olhado além do portal e nem viu os detalhes da missão. Temia ficar neurótica se visse.
Diferente da sua líder.
-Você era o ferido. -As palavras dela fazem a guarda de 003 subir. O ruivo obriga-se a levantar, olhando-a surpreso. -As feridas de gelo em 050 foi você quem fez, assim como a eletricidade veio do loiro. Você… Estava lá.
-De que merda vocês estão falando!? -004 braveja. Não havia informação nenhuma do que aconteceu. A agressividade de 050, a confusão de 004 e, a fala da líder, estava deixando o ruivo maluco. -Ele não acabou de salvar a gente!? Por que está com a guarda alta!?
-Ele foi o alvo da minha missão. -050 começa a rir.
Lágrimas descem de seus olhos conforme a risada, histérica, intensifica-se. Ambas as mãos agarram o próprio cabelo branco, seu corpo encolhe e a aura instável parece aumentar os ferimentos pelo seu corpo.
Estava colapsando.
-Dá pra acreditar? Ele foi a minha última missão, eu deveria matar ele! A família dos Braganças queriam que eu matasse Tobias Arcanjo e capturasse Laissa viva, eles a queriam usá-la como escrava enquanto pressionavam Taylor! E, e… Ele acabou de me salvar! De nós salvar!
O clima no local pesa. Os Numerados voltam a atenção ao Cavaleiro.
-Você… Nós ajudou sabendo de tudo isso?
-Sim. -Sua resposta seca para 001 é pior do que o silêncio. -No final, eu decidi ajudar.
-Mas por quê!? -O garoto braveja, levantando de uma vez.
As folhas no chão sobem de uma vez, começando a girar em torno deles conforme o dom dele torce as árvores no local, sendo vítimas da confusão mental dele.
-Se acalme! -O ruivo entra na frente dele e as chamas tomaram o local, bloqueando a gravidade de acertar eles. Indo até o amigo, ele é afastado em um violento movimento de braço, torcendo as chamas na gravidade ao afastá-lo. -Olhe o seu estado! Você vai piorar!
-Me acalmar!? Como!? Você não me escutou!? -Apontando pra cara do amigo, sua risada começa a dar lugar para contrações de raiva. As emoções disputam entre si, como se estivessem em um cabo de guerra. -Aquela mulher teria virado uma escrava! Se fosse com você!? Se isso acontecesse com 003, você ainda teria salvado ele!? Mesmo sabendo o que iriam fazer com ela!?
O ruivo abre a boca, mas a fecha em silêncio. Cerrando os punhos, seus olhos desviam pro solo à sua esquerda, sem conseguir responder.
-050, por favor! -003 tenta se aproximar. Ele se afasta, novamente colocando as duas mãos na cabeça. O turbilhão de sentimentos, memórias e pensamentos o golpeava sem piedade. Aquilo era para ser algo feliz, era para estarem felizes porque saíram da floresta.
Então, por que tudo o que ele sentia era culpa?
004, o ruivo, queria falar algo. Mas, diante daquilo, o que iria argumentar?
Somente em pensar na vida de 003 após se tornar uma escrava seu corpo tremia. A Floresta os obrigavam a obedecer e matar, e o matavam se não o fizessem. Porém, a vida dos escravos era mil vezes pior. Principalmente os dos Braganças.
Sua hipocrisia o matava por dentro. Estava grato por ter sido salvo, mas não salvaria ninguém naquela situação. Mesmo que não tenha sido ele na missão, ele era um deles. 003 não sabia o que falar. Literalmente, nada passava por sua mente.
Se virasse o papel e ela estivesse no lugar dele, também não ajudaria. Principalmente se fosse com um deles, com um de sua família. Jamais teria feito aquilo.
Então, os três olham para 001, a líder, lentamente desfazendo o fio que estava diante do pescoço de Tobias.
O que ela faria?
A carrasca deles, a mais forte dentre os Numerados e a que sempre tomava a frente nas brigas com golem, que matou vários por eles… O que ela faria?
Ela não conseguia pensar nisso no momento.
-Por quê? -É tudo o que sai de sua boca.
Tobias suspira, com a cabeça doendo. Durante um leve momento, havia esquecido de seus ferimentos. Liberar aura daquele jeito na raiva não foi uma boa ideia.
-Não fazer isso seria contra o que eu acredito. -Suas palavras somente deixam o trio mais confuso. 001 retorna para o rosto sério, mesmo que o seu interior também não tenha entendido. -Cristo. Somente por isso. Não espero que entendam ou que conheçam a parábola do bom samaritano.
-Nunca ouvi tanta merda na minha vida. -O garoto põe a mão no rosto, sem saber se o vampiro é daquele jeito mesmo ou se ficou retardado depois da luta.
-Você achando que é merda ou não, é essa merda que fez vocês estarem vivos. -A resposta dói mais do que os ferimentos. O jovem recua, passando a mão pela própria pele branca conforme o cavaleiro levanta, tentando não vacilar no que havia decidido. -Não acha coincidência? Logo eu? Após escurecer, após tudo o que aconteceu, logo eu fui encontrar vocês? Algo similar aconteceu comigo e, caso não tivessem uma crença parecida, eu estaria morto. Tinham todos os motivos para me deixar morrer, então por que me salvaram?
Silêncio.
-E se você falar novamente que o que eu acredito é merda, vamos ter problemas.
Mesmo sem dizer, 050 entende. Ele era um vampiro, era quase como ser amaldiçoado. Então, sendo descendente das bruxas, era quase como um presságio de desgraça. Os outros Numerados não entendem exatamente, unicamente por não conhecerem como aquela sociedade marca algumas pessoas.
-E então? Vai nos denunciar pras autoridades? -O ruivo questiona. Aquilo obrigaria uma reação deles, já que um assassino pego era o mesmo de um assassino morto.
-Não, eles só iriam se aproveitar de vocês. -A resposta o surpreende. “Aproveitar?” -Kanh não executa, ele escraviza. Vocês se tornariam escravos do Reino. Algumas pessoas poderiam acreditar que é o que vocês merecem, mas eu não. Somente seriam executados se os Nobres Altos movessem uns pauzinhos.
-Então… O que você vai fazer? -A loira tenta encontrar uma resposta por si só, mas falha. -Se não vai cobrar nada, não vai nos denunciar, o que vai fazer?
-O mesmo que fizeram comigo, eu vou ajudar vocês. -050 sequer consegue mais rir. Sua cabeça dói tanto que está vermelha feito uma pimenta. O ruivo massageia a própria testa. Olhava para a loira, esperando alguma reação para copiar, mas ela também estava pasma. -Por favor, eu não quero me arrepender disso. E se Deus me trouxe até aqui, se tudo o que eu fiz até agora, algo que todos devem entender que deveria ser impossível no meu estado atual, é porque tem um motivo. Então, não me façam eu me arrepender disso.
Nenhum deles fala nada. Estão em choque demais para isso.
001 cerra o punho, cravando as próprias unhas na pele. Aquilo era ridículo para ela. Era inaceitável. A punição que daria a alguém que tentasse matar um deles seria algo brutal. Seria inumano. Se encontrasse o seu “algoz” em uma situação de vulnerabilidade definitivamente o deixaria ali para morrer. Isso se não o fosse torturar.
Então, por que independente de quantas vezes analise a aura daquele homem, ela dizia a verdade? Ele realmente queria ajudar, mesmo com a raiva de um possível cenário onde tudo tivesse dado errado, o jovem queria evitar que mais sangue caísse.
Aquilo era misericórdia?
E por que aquilo doía tanto em seu ego?
-Nós… Não vamos. -001 declara, ainda com o semblante sério. Ao menos para os outros Numerados. Os olhos de Tobias se encontram com o dela e, vibram. A única coisa que passa pela mente dela, é que ele sabe. -E iremos pagar esse favor.
-Pagar o favor? -Um suspiro escapa dentre seus dentes. -Depois da poeira abaixar, paguem um churrasco e ajudem outras pessoas. Cristo gostaria disso.
Apesar da piada, nenhum deles riu.
***
Uma carne está sendo assada. Diante dela, um pequeno homem, na casa dos um metro e cinquenta e oito centímetros de altura, mexe em uma vasilha metálica roxa.
É um churrasco. Os homens ao redor estão sentados em suas carroças, vigiando os cavalos e ovelhas pelo local. Alguns dormem, outros limpam as armas cobertas de sangue. Todos são Cavaleiros Imperiais. Ao menos, eles eram. O nome do churrasqueiro é Caio. Ele, o responsável pela carne da noite, e pelos problemas no Império, permanece encarando as chamas no solo. Estava fazendo churrasco ao estilo gaúcho, o que pessoalmente gostava. Porém, sua face era séria, pensativa. Alguma coisa estava errada, somente não sabia o que.
-Caio, encontramos ele. -Seus olhos brilham em um violetta neon, indo em direção ao grupo que se aproxima. Uma mulher puxa uma pessoa pelo cabelo e, lançando o prisioneiro para frente de Caio, ignora seus grunhidos de dor ao encarar seu líder. -O que devemos fazer? Ele apagou as memórias sobre as verdadeiras Relíquias de Tau. As Relíquias de cada Reino permanece como a dos outros, mas as verdadeiras definitivamente foram apagadas.
-Não foi! Por que eu nunca ouvi falar disso! -O prisioneiro vocifera tentando levantar, apenas para ser batido contra o solo pelo próprio Caio. Sua pele branca estava repleta de feridas, exalando uma aura que definitivamente não era dele. Pelo visto, resistir à captura da mulher lhe causou alguns problemas.
-Deixe comigo, Karen. -A mulher de cabelo vermelho simplesmente concorda, fitando o churrasco. O prisioneiro grunhe, sem sequer ver o que está prendendo ele no chão. -Bem, a carne está pronta. Podem pegar.
Ignorando o caído, os subordinados aproximam-se e cortam a carne, pegando cada um suas partes preferidas. Com ambas as mãos presas nas costas, tanto a sua aura quanto a sua habilidade estão anuladas. A energia dele foi zerada na batalha contra a antiga Arquimaga, que fez questão de destruir seu núcleo de energia. E o que isso significava? Seja um despertado ou não, caso tenha seu núcleo de energia destruído você volta a ser um humano comum. Não apenas comum, mas com um ferimento imenso.
-Pronto, agora podemos conversar. -Caio declara, comendo um pouco da carne do churrasco. O cabelo roxo reluz em satisfação, fazendo sua violenta aura espalhar-se pelo local, tingindo-o na mesma cor. A ação recorrente sequer afeta seus companheiros, já acostumados. Porém, a simples manifestação da energia dele faz o prisioneiro cerrar os punhos e dentes com força, tentando controlar o próprio medo. Aquilo era energia o bastante para varrer uma cidade. -Tem certeza que não se lembra de nada?
-Eu não lembro! Eles colocaram uma magia para apagarem minhas memórias! -O homem dispara a falar, apavorado. Conhecendo a fama de Caio, sua única chance de sair vivo dali era cooperar. O que era impossível. -A nobreza não poderia colocar uma magia para me matar porque também sou um nobre, entao apagaram minha memória! Eu não lembro de nada sobre o segredo das Relíquias! É verdade!
-Mas… Apesar de ser um nobre, conseguiram apagar assim totalmente suas memórias sobre Táu e sobre quem estava guardando os segredos das relíquias? Mesmo vocês, ao nascer, recebendo uma proteção contra esse tipo de magia? -O nobre treme, o que já o denuncia. Obviamente, ainda se lembrava de algo. -Ótimo, pode desembuchar.
-Eu… Eu não posso falar. -Caio ri, mandando outro pedaço de carne para dentro antes de dar as costas para ele, afastando. O nobre imediatamente tenta se mover, mas algo continua a segurá-lo. -Eu não posso! A magia dos nobres…
-Ela vai te matar? -Mudando a rota ao girar, retornando para perto dele, sua aura começa a emergir pelo solo, subindo em espiral conforme reúnem-se no pescoço do prisioneiro, começando a ficar roxo assim como a energia do antigo Cavaleiro Imperial. -Oh… Que pena, eles não podem colocar esse tipo de magia em você. Então, o desgraçado que colocou essa magia vai te matar é?
-Ele… Ele não é alguém que eu possa falar… -A fala dele trava diante de Caio, mal estando na altura dele mesmo de pé. -A, a magia, a magia não apagou totalmente todas as memórias, eu po-posso me confundir. Ela, ela pode me punir se eu falar…
Contudo, sua aura o fazia parecer um gigante. Sua fala cessa, seus olhos arregalados tentam desviar para outro lugar, mas o Cavaleiro faz questão de voltar o olhar do prisioneiro para si em um leve movimento da aura no pescoço dele.
-Hm… Então vamos fazer assim. Eu vou te dar um tempo, e aí você decide se fala ou não. Que tal? -O nobre sorri, amando a ideia. Mais tempo significaria mais tempo para sua família tentar um resgate. -Se começar a falar, consigo quebrar a magia que aparecer para te impedir. Que tal?
-Sim! Claro! -Ele agradece, já pensando em como iria sair dali vivo. Resgate poderiam vir, uma vez que os grupos irregulares já foram contratados para assassinar os aliados de Caio.
Então, uma mão segura-o pelo ombro. O corpo do nobre inteiro arrepia, sentindo uma aura distorcida adentrar pela sua carne, paralisando-o conforme o vulto atrás de si cresce, tombando na direção dele.
-O… O que? -Virando, a visão da criatura de mão roxa, com unhas de um carnívoro e uma face totalmente escura fazem-no berrar.
Tentando fugir, as unhas negras cravam-se no ombro dele e a outra mão agarra-o pelo pescoço, levantando-o enquanto a silhueta de um enorme ser materializa-se da escuridão, criando seu corpo pela energia de Caio.
-Socorro! Socorro! -O nobre tenta se libertar em violentos movimentos das pernas, contudo, elas atravessam a força roxa que compõe o corpo da criatura como se fosse água, formando uma roupa lilás, imitando a de um palhaço.
-Kevil, deixe ele passar um tempo na minha energia. -Caio gentilmente pede. A criatura concorda, abrindo a sua boca em seguida.
As partes laterais da boca dele rompem ao crescerem, criando um vácuo entre suas mandíbulas ao emanar ainda mais aura, criando uma espécie de fenda no espaço. O prisioneiro berra, começando a se debater enquanto olha para todos ali, comendo suas carnes ao assistirem a cena.
-Não! Não me deixem essa coisa me engolir! Eu sou um nobre seus… -Em meio aos prantos do homem, Kevil fecha a boca de uma vez, engolindo-o.
Silêncio. Seu resquício de aura desaparece, como se nunca estivesse ali.
-Então, quem quer uma barrigada? -Caio questiona após suspirar, gostando do silêncio. O grupo prontamente levanta as mãos. Então, abrindo a mão, a energia púrpura dele expele um pedaço de gordura imenso, sendo colocado em um espeto antes de seus companheiros se aproximarem. -Nossa viagem até aqueles desgraçados vai demorar, então comam muito.
Aquele era o antigo pilar do Império, o homem mais perigoso do continente.
Caio, o Niatit do Caos.
