
Crônicas de Kanh
Capítulo 10 — Oito
Capítulo 8
O mundo de Tobias estava pesado.
A adrenalina que o manteve ligado durante todo o resgate dos Numerados, acabou.
O cansaço chegou e o acertou como uma marreta.
Porém, mesmo querendo desmaiar na sua cama, a mente de Tobias não ficava quieta.
“Como você vai olhar pra Laissa agora?” A pergunta apenas aumentava sua dor de cabeça.
O jovem não sabia se havia passado minutos ou horas desde que sentou no banco da praça. Sua única certeza era o céu escuro sobre ele, iluminado por uma fraca lua minguante.
O grupo do Amarelo provavelmente estava chegando e os Numerados estavam em um lugar “isolado” dos demais. O vampiro levou o grupo para seu “refugio” da sociedade, uma espécie de casinha de madeira em meio a floresta.
Todos os quatro sobreviveram. Estavam estáveis.
Um milagre, ele diria.
Sequer estava com forças para pegar uma mosca. Mesmo assim, conseguiu salvar os Numerados.
Sua mão, trêmula, com a aura instável, lembrava-o do quanto estava fraco. Tobias conseguiu ajudar eles naquele estado.
O grupo possuía feridas imensas, como se animais gigantes tivessem mastigado eles, além de estarem quase zerados de aura.
Pela primeira vez em sua vida, sua magia de sangue conseguiu de fato tirar alguém da beira da morte.
Ele sempre sonhou com isso, salvar a vida de alguém ao invés de tirá-la.
O jovem amaria abandonar a carreira de cavaleiro pela de médico.
A ideia atingiu sua mente durante toda a sua férias, a qual parecia estar dando mais problema do que o próprio serviço de lenhador.
Então, mesmo tendo salvado vidas, por que o estava triste?
Em menos de 24 horas, a vida de Tobias quase se foi na batalha contra 050, o Amarelo apareceu no último instante, Laissa quase foi sequestrada e o grupo de Numerados apareceu diante dele beirando a morte.
“Não consigo digerir tanta coisa.” O jovem grunhe, sentindo uma dor maior que a dor física.
Sem coragem para voltar a casa de Taylor, o que era o combinado momentâneo de não ficar sozinho em seu apartamento até recuperar-se, temia não ter coragem para olhar Laissa nos olhos depois de tudo aquilo.
Havia feito uma promessa para protegê-la e havia falhado.
Não apenas isso, como salvou o seu algoz.
O cavaleiro tem certeza de que ela está procurando-o agora. O quase-morto jovem decide fazer uma caminhada e, quatro horas passadas, não retorna? Com toda certeza a mulher está atrás dele. Provavelmente todos estão atrás dele.
O latejo na parte de trás do seu crânio piora. Pondo a mão nele, uma silhueta surge diante de seus olhos.
“Não deixe o ódio te consumir.” Um sorriso. Aparentava ser uma mulher. Então, olhos verdes tomam o local do vulto, acompanhados por uma risada conforme a mais pura raiva atravessa o vampiro, sentindo cada vez mais dor.
“Vampirinho, se estivesse no meu lugar, pouparia eles?” Um grunhido escapou dentre seus dentes. Não sabia se estava delirando ou se lembrando de algo. Seria consequência da exaustão de mana? Ou apenas sua mente doente pregando peças?
Queria desligar, desaparecer. Uma forma bonita de não querer mais existir.
Agarrando o colar no pescoço, ainda emanando ondas de aura que ajudam-no em sua recuperação, o presente de Taylor não ajudava a curar suas paranoias.
Tinha ciência que elas estavam piorando e, não queria voltar. Não queria ver nenhum deles. Poderia ir direto para a sua casa. Contudo, eles inevitavelmente iriam para lá. Também não queria preocupar eles. Mas, uma parte dele queria falar com eles… E com Laissa.
“Como explico esse tempo todo fora? Ah, eu estava andando e topei com aquele Numerado que quase te matou e vendeu como escrava e mais alguns amigos dele! Ajudei todos eles! Fiz bem?” O pensamento arranca uma risada seca dele, apertando a própria cabeça com força. Temia que a culpa esmagasse-a.
-Eu sou mesmo um imbecil. -Estava com medo. Estava aterrorizado pelo o que poderia acontecer caso Laissa e Taylor vissem os Numerados. Tinha medo deles o odiar. Tinha medo dos Numerados fazerem algo contra eles. Ele… -Eu estou com medo.
-Tobias? -A voz feminina paralisa o corpo do vampiro, cessando seus pensamentos. “Cristo, não.” -Graças a Deus você tá bem! O que tu ta fazendo aqui um horario desse seu retardado!? Tu vai gripar!
O linguajar educado era acompanhado pela aparência inconfundível da loira, ofegante e vermelha. Estava com roupas leves e verdes, como se fosse ficar em casa. Porém, estava diante de Tobias, suada. “Ela… Estava me procurando mesmo.” O cavaleiro abaixa a cabeça, rindo baixinho ao tampar o próprio rosto.
“Eu sou mesmo um imbecil.”
-Tobias… Está tudo bem? -Quando ele repara, a loira já está sentada ao seu lado. Os olhos azuis permanecem fixos nele, tentando encontrar algo que o vampiro fazia questão de esconder.
O estômago do cavaleiro embrulha. Estava com nojo de si mesmo.
A pergunta tão comum carregava um peso maior do que o costume. “Estou indo” é o que o cavaleiro gostaria de responder, mas sua boca sequer abre.
Seria mentira. Estava sobrevivendo? Seguindo o rumo? Sua mente estava pesada ao ponto de fazê-lo questionar sua própria existência ali.
Estava triste, decepcionado. Ele havia perdido uma batalha, mas salvou quem quase o matou. Mesmo após ver a alegria dos Numerados em verem seus membros vivos, a simples ideia de ter salvado assassinos o consumia por dentro.
Sua mente estava colapsando. E era por dentro.
Sua ação poderia “estar indo” a fazer outras pessoas morrerem. E “estar indo” contra tudo o que Taylor esperaria dele, simplesmente proteger aquela mulher.
-Tobias, por favor, fala alguma coisa. -Laissa, com a palma de sua mão ferida pelas próprias unhas, permanece voltada pro cavaleiro, calado. Ele normalmente era uma pessoa calada e, às vezes fazia algumas piadas, soltava-se um pouco quando estava a sós.
O tempo passa. Longos minutos e nenhuma palavra sai dele.
-Jesus Cristo, eu vou ficar maluca! O que aconteceu, Tobias!? Você parecia bem até sair daquela maldita casa!
Naquela hora, ele estava aliviado demais dela estar viva para se preocupar com o resto. A “ficha” não havia caído ainda. Contudo, diante dela, sua mente pesada o pune com ainda mais violência.
“Eu sou mesmo um imbecil.”
-Laissa. -Sua voz mal pode ser escutada pela loira, prendendo a respiração conforme seu coração ameaça parar de bater. A única vez que ouviu o jovem falar daquela forma, tão frágil, foi quando uma parte de suas memórias retornou. -Por favor, me deixe sozinho.
Silêncio. O coração dela, antes ameaçando parar, começa a bater com violência. Suas unhas cravam-se com ainda mais força em sua própria mão, acompanhada por um forte aperto enquanto um sorriso de mentira tomava conta de sua face.
-Tá… Tá bom. -Ela levanta, ousando estender a mão em direção ao jovem. Ia encostar em seu ombro. Porém, paralisando no meio do caminho, a jovem recua. -Se quiser falar com alguém, você sabe que eu estou aqui, né?
Outra vez, não há nenhuma resposta.
-Certo… -Ela murmura, dando outro passo para trás. -Vou avisar os outros que você… Está vivo. Posso falar que decidiu ficar sozinho, né?
Dessa vez, a mulher sequer espera por uma resposta.
“O que raios estou fazendo?” Laissa se afasta, virando de uma vez antes de acelerar seus passos, indo embora conforme lágrimas surgem em seu rosto.
“Eu sou uma idiota mesmo.” Em uma situação normal, Tobias tentaria ir atrás dela. Falaria algo para não deixá-la ir naquele estado, tentaria consolar.
Mas, sua mente, mergulhada em uma tempestade de pensamentos, não o permitia.
O pensamento predominante deles era que o vampiro era um imbecil.
