Ferox Cap. 14
Capa de Ferox

Ferox

Capítulo 14 — 14-Dissolutio—Pars II

O carro passa em disparada até o shopping. Ao chegar lá, Zaio e Dante saem do veículo e deparam-se com aquela cena: o local infestado de fungos por todos os lados, e as luzes da polícia brilhando do lado de fora, sem que ninguém conseguisse entrar. Os dois se aproximam, mas são barrados pelos policiais. Zaio, nervoso, grita:
Zaio — MEUS AMIGOS ESTÃO ALI DENTRO! POR FAVOR, DEIXE-NOS ENTRAR!
O policial nega e os afasta, até que os agentes são empurrados para o lado por um amontoado de fungos, entulhos e corpos transformados em formas que pareciam mãos — e a entrada se abre de repente. Sem pensar duas vezes, Zaio e Dante correm e pulam para dentro. O lugar parecia outro mundo: o terror biológico estava estampado em tudo. O ar era carregado de cheiro de mofo; cartazes promocionais estavam apodrecidos e destruídos; as lojas da entrada nem pareciam já ter sido frequentadas um dia — só restavam bolor, fungos e ruínas. Zaio olha ao redor, engole em seco e diz:
Zaio — Bem… pelo menos foi educada em abrir a porta para nós.
Dante dá um tapa leve na cabeça de Zaio e seguem adiante. O ambiente tem um cheiro forte e impregnante de matéria estragada, e o chão é estranho ao toque. Enquanto caminham, uma figura humana transformada os observa, mas Dante age com destreza: acerta um tiro certeiro na cabeça da criatura. Ele não treme nem um instante — apenas confere sua arma e observa o corpo caído. Zaio, por sua vez, treme levemente, pega a própria arma que trazia na cintura e a segura com as mãos ainda instáveis. Dante então diz:
Dante — Sei bem como é essa sensação. Segurar uma arma sob tensão é muito diferente de apenas carregá-la por aí… Temos que encontrar seus amigos logo. Tenho medo do que essas coisas podem ter feito com eles.
Seguem pelo interior até chegarem à praça de alimentação, onde várias criaturas vagueiam sem rumo, como se só existissem para habitar aquele espaço. Dante dispara contra uma delas; ao cair, é imediatamente devorada pelas demais que estavam por perto. Com o barulho do tiro, um grito ecoa — e logo reconhecem a voz de Marie, que soava chorosa e desesperada:
Marie — AQUI! ESTAMOS AQUI! VENHAM LOGO, POR FAVOR!
Dante e Zaio correm na direção dela e encontram todo o grupo preso e acuados. Ao se aproximarem, porém, os monstros que estavam mais distantes passam a se mover em direção a eles: alguns se arrastam pelo chão, outros vêm cambaleando, e há também aqueles que avançam com velocidade assustadora.
Zaio — Droga… estão vindo todos de uma vez!
Marie olha firme para Zaio e fala, ainda assustada:
Marie — Zaio, tudo isso é obra da Cypsa! Ela está ali, no alto, na escada! Você precisa subir e descobrir o que ela quer de verdade!
Zaio olha para a escada e sente uma repulsa imediata, mas se recompõe e responde, nervoso:
Zaio — Não posso simplesmente deixá‑los aqui para trás. E como vai ficar o Dante lutando sozinho contra tudo isso…?
Dante sorri, segura a arma com mais firmeza e o encara:
Dante — Agora é a sua hora, rapaz… Não se preocupe. Para alguém como eu, isso aqui é pouco mais do que um treino.
Zaio fica paralisado de preocupação:
Zaio — Mas são dezenas deles, Dante! É muita coisa para só um homem!
Dante olha bem nos seus olhos, com serenidade:
Dante — Vá logo. Nós nos vemos depois.
Zaio concorda com a cabeça, ainda relutante, e parte em direção às escadas. Ao subir os primeiros degraus, ouve Dante dizer baixinho:
Dante — Boa sorte, garoto.
Zaio olha para trás e abre um sorriso fraco:
Zaio — Valeu, velhote!
Respirou fundo e disparou escada acima. Quanto mais subia, mais forte e denso ficava o cheiro de mofo e decomposição. Quando chegou ao topo, viu a luz da lua iluminando o ambiente sombrio e engatilhou a arma, preparado para o que encontrasse ali.
Enquanto Zaio segue para o andar superior, Dante confere a sua munição: apenas treze tiros restavam. Solta um suspiro longo e vê que as criaturas avançam cada vez mais rápido em sua direção. Com voz calma e decidida, diz:
Dante — Pois então… vão ter que se dividir.
Aproveita a distância ainda existente para disparar contra os que vinham à frente; quando eles chegam muito perto, pula sobre as mesas para ganhar altura e vantagem. Mas com o tempo, vai ficando cada vez mais encurralado. Ao saltar de uma mesa para outra, é pego de surpresa por uma das criaturas, que o agarra e o joga com força ao chão. Sem tempo para pensar, ele empurra uma mesa inteira contra o grupo que vinha, criando uma barreira provisória, levanta‑se rápido e acaba com a ameaça que o derrubara. Guarda então a pistola e corre até um restaurante japonês ali perto — na entrada, havia uma katana exposta como decoração. Pega‑a sem hesitar e, ao desembainhar, percebe que a lâmina era afiada e verdadeira.
Dante — Nunca usei uma dessas… mas vai servir muito bem.
Olha para os corpos cobertos de fungos e cogumelos que brotavam pela pele inteira, e completa com um tom desafiador:
Dante — Parece que vou preparar um bom sukiyaki então… Itadakimasu!
Avança de uma vez, cortando pescoços e membros com facilidade — os corpos das criaturas pareciam frágeis diante da lâmina. Ainda havia alguns resistindo, e um deles consegue se aproximar por trás e o morder. Dante grita de dor e bate de costas contra uma parede para se soltar. Com os últimos opositores restando, ele sorri de canto e saca novamente a arma:
Dante — Aposto que não contavam com isso… só gastei dez tiros até agora.
Ele mata os restantes e olha ao redor: o chão estava manchado de sangue e restos, misturados aos fungos que cresciam por toda parte. Ele mesmo estava todo sujo e ferido, mas ainda de pé. Volta‑se para os jovens, que assistiam tudo em absoluto choque, e diz com ironia:
Dante — Acham que eu sou assim tão velho e acabado, seus pirralhos?
No topo do prédio, o ambiente é escuro, iluminado apenas por poucas luzes e pelo brilho da lua. Ao olhar para frente, Zaio vê Cypsa de costas, observando a cidade abaixo com expressão fria e distante. Ele tenta se manter firme, apesar do medo:
Zaio — Cypsa? Por que tudo isso? O que está acontecendo mesmo?
Ela se vira lentamente e responde com voz neutra e indiferente:
Cypsa — Zaio… não lhe devo explicações. Só precisei que você viesse até aqui para cumprir o meu objetivo.
Ele não entende, mas antes que possa perguntar mais, ela levanta a mão e cria uma lança feita de ferros retorcidos, concreto e massa de fungos endurecida. Aponta diretamente para ele:
Cypsa — Cumprir a missão: eliminar o Portador.
Lança a arma com toda força, direto à cabeça dele. Por puro reflexo, Zaio se desvia, mas a ponta ainda rasga seu rosto. Ele se protege atrás de uma parede baixa, gritando:
Zaio — PELO AMOR DE DEUS, CYPSA! NÃO PRECISA SER ASSIM!
Ela já prepara outra lança,com a mesma frieza:
Cypsa — Seria melhor que aceitasse logo, Zaio. Não quero ter que prolongar o nosso confronto.
Desta vez, a lança passa tão perto que quase atravessa a parede que o protege. Ele pula para o lado, mira com a arma — ainda com as mãos trêmulas — e dispara. O projétil acerta o ombro dela. Cypsa solta um gemido de dor, mas logo uma camada espessa de fungos cresce rapidamente sobre o ferimento, fechando‑o completamente.
Cypsa — Não pense que uma arma comum vai ser suficiente para me ferir de verdade. Não me subestime.
Com um movimento rápido, faz espinhos brotarem do chão ao redor dele. Zaio perde o equilíbrio e cai sentado, ficando perigosamente à beira da borda do prédio.
Zaio — Escuta… eu não quero lutar contra você. Sei que deve ter um motivo forte para estar fazendo tudo isso. Você é nossa amiga, sempre foi… podemos ajudar você, como você nos ajudou outras vezes. Não precisa ser assim.
Cypsa aperta os dentes, lutando contra a própria emoção, e por um instante parece que vai ceder. Mas logo volta ao ar sério e duro:
Cypsa — Me perdoe, Zaio… é a lei dos mais fortes. E ela está no topo de tudo.
Ele estranha aquela frase:
Zaio — Ela? Quem é “ela”?
Ela percebe que falou demais, endurece novamente o olhar e encerra o assunto:
Cypsa — Já falamos o bastante. Adeus, Zaio.
Dá um chute forte contra ele, fazendo‑o despencar de costas, direto para o chão da rua abaixo. No susto, Zaio aperta o gatilho sem querer — o tiro acerta a perna dela, mas mais uma vez os fungos cobrem e fecham o ferimento quase instantaneamente. Cypsa observa ele cair e desaparecer na fumaça que se forma ao impacto.
Ao bater no solo, uma grande nuvem de poeira e fumaça toma conta de tudo. O corpo de Zaio fica imóvel, todo fraturado; sangue sai pela boca, braços e pernas pareciam sem vida. De repente, ele inspira fundo e começa uma transformação dolorosa: ossos se quebram e se reorganizam, músculos se esticam e crescem, e os olhos estouram, sendo substituídos logo em seguida por novos órgãos, que brilham num vermelho vivo e intenso. O peito aumenta de tamanho, com o som de costelas e vértebras se remodelando. Quando a poeira baixa, Cypsa, que se preparava para ir embora ao crê‑lo morto, ouve um bramido forte e monstruoso. Vira‑se e vê: uma criatura enorme, forte e imponente, semelhante a um minotauro. A pele era protegida por placas rígidas, e entre elas corria uma luz brilhante, como fogo ou lava em ebulição. Mesmo assustada, Cypsa respira fundo, desce até a rua e fica de frente para a nova forma de Zaio. A polícia e pessoas ao redor observam sem entender nada, paralisadas.
Cypsa — Essa forma… é novidade. Então é assim que está, Zaio? Ainda quer lutar? Ficou maior, mas não pense que estou em desvantagem.
A criatura apenas bufa forte e avança de uma vez, querendo esmagá‑la sob os pés. Cypsa desvia com agilidade, segura as pernas do ser com uma massa de fungos e prepara uma lança de fungos para atacar — mas o corpo de Zaio esquenta de repente, o calor que sai pelas fendas queima e destrói tudo o que toca. Surpresa, ela recua e ataca de outra forma; ele defende‑se com facilidade, pega um carro abandonado e o arremessa contra ela. Cypsa cria uma barreira em forma de lâmina que corta o veículo ao meio antes que o acerte. Ele continua atacando, batendo o chão com força, até que ela consegue atingi‑lo com um golpe pesado feito de seus próprios poderes, e depois ergue uma coluna de asfalto e fungos que o arremessa para longe.
Zaio recupera‑se e olha para ela, que continua com a mesma postura firme e fria. Então, ele vira‑se e começa a correr pela rua, afastando‑se. Cypsa deixa escapar uma risada seca:
Cypsa — Nunca imaginei que acabaria brincando de pega‑pega com um minotauro.
Corre atrás dele, usando as estruturas que cria no caminho para avançar rápido. Ele, porém, usa a força e o calor de seu corpo: ao passar por um carro próximo, bate forte no tanque de combustível, provocando uma explosão que a atrapalha momentaneamente. Ela se recompõe e segue‑o até chegarem a um posto de gasolina. Com a aproximação da luta, todas as pessoas que estavam por ali fogem assustadas.
Cypsa — De que adianta correr, Zaio? Sou muito mais rápida que você. Apenas aceite o seu destino.
Forma então um grande espigão de concreto e matéria orgânica endurecida e o arremessa com toda força. Ele desvia, mas o impacto abre uma grande fenda no chão, bem em frente às bombas de combustível. Em seguida, Zaio bate o pé forte, levantando uma densa parede de fumaça que deixa Cypsa perdida e sem visão. Aproveitando isso, ele avança de repente, envolve‑a num abraço forte e se joga com ela para dentro do buraco aberto — direto para o subsolo e reservatórios do posto.
Enquanto caem, Cypsa luta para se soltar, mas não consegue se desvencilhar. O calor e o fogo que saem do corpo do Minotauro aumentam cada vez mais, até atingirem o limite: todo o local explode com força devastadora. Ele é lançado alto ao ar, envolto em chamas, e cai distante, dentro de um prédio em construção. A forma monstruosa vai se desfazendo aos poucos, voltando ao corpo humano, que fica jogado no chão, com os olhos entreabertos, até abri-los com força, e dar um grito de dor absurda e desmaiar
No meio do fogo que ainda consome tudo ao redor, surge Atena. Observa a destruição com tranquilidade e diz em voz baixa:
Atena — Que grande decepção… era um projeto que tinha tanto potencial.
Dá meia‑volta e segue caminhando lentamente, afastando‑se:
Atena — Agora… chegou a minha vez de agir. Chegou a sua hora, Zaio.
Quando ela já está distante, saindo da área de risco, do fundo do buraco ainda em chamas levanta‑se lentamente uma mão deformada, queimada e coberta de fungos vivos.