
Ferox
Capítulo 13 — 13-Dissolutio—Pars I
Atena esfrega as têmporas enquanto olha para Cypsa.
Atena: — De novo o garoto portador do Predatory Core sai com vida... e você ajudou o grupo?
Cypsa olha, envergonhada e com medo, tentando se defender.
Cypsa: — Mas se eu não ajudasse, o que falariam? Me perdoe, Atena. Prometo não falhar no próximo plano...
Atena a encara calmamente, suspira e responde com um olhar sério.
Atena: — É bom mesmo... porque, desta vez, quem vai matar o portador... é você.
Cypsa toma um susto e encara Atena, confusa.
Enquanto isso, na casa de Dante...
Zaio limpa a parte de fora da casa enquanto Dante lava seu carro. O velho olha para o garoto e diz:
Dante: — Sabe, pirralho... até que você morar aqui não é tão ruim.
Zaio o encara, confuso.
Zaio: — Como assim, velhote?
Dante sorri.
Dante: — Sabe, Zaio... eu nunca tive muito contato com a família do Axel. Eles nunca foram muito com a minha cara. O único que realmente aparecia por aqui era ele... e nem isso acontecia com frequência. Então essa casa vivia vazia. Agora... mesmo você sendo um pirralho barulhento, preguiçoso, chato e reclamão... é bom ter alguém por aqui. Você consegue arrancar umas risadas deste velho.
Zaio sorri, meio surpreso.
Zaio: — Relaxa, velho... mas vai abaixar um pouco o nível do treino, né?
Dante: — Claro que não.
Zaio: — Porra...
[Corte]
Cypsa liga para Marie. Assim que ela atende, Cypsa fala animada:
Cypsa: — E aí, Marie! Tudo bem?
Marie responde, curiosa.
Marie: — Oi! O que foi?
Cypsa: — Sabe, eu vou ao shopping hoje comprar algumas coisas e passear um pouco para esfriar a cabeça. Queria saber se você não quer ir comigo.
Marie sorri, já mais animada.
Marie: — Nossa, mulher, eu vou! Todas essas coisas estão fritando nossas cabeças... Posso chamar o resto do pessoal?
Cypsa sorri.
Cypsa: — Claro! O que seria de um bom rolê sem o grupo todo?
Marie começa a falar, toda animada, sobre o que fariam no shopping. Cypsa escuta, mas parece distante. Seu olhar vai até Atena, que apenas a encara com uma expressão fria e técnica.
Cypsa abaixa a cabeça, triste, enquanto segura o celular com a mão tremendo levemente.
Até que...
Marie: — Cypsa!? Tá me escutando?
Cypsa leva um leve susto.
Cypsa: — Ah, desculpa... eu estava resolvendo umas coisas aqui. Então tá tudo certo para mais tarde, né?
Marie: — Tá sim! Vou convidar os outros. Mais tarde a gente se fala. Vai ser muito legal hoje.
Cypsa sorri, escondendo a tristeza.
Cypsa: — Claro... vai ser inesquecível.
Marie desliga e encara a tela apagada do celular.
Marie: — ...Estranho.
Mais tarde...
Cypsa chega ao shopping e vê todos esperando por ela.
Marie sorri.
Marie: — Finalmente, né?
Cypsa responde sorrindo.
Cypsa: — Pois é... acabei demorando um pouco. O Uber demorou para chegar, mas estou aqui agora.
Marie abre um sorriso.
Marie: — O importante é isso. Vamos entrar, galera! Eu não aguento mais esperar.
O grupo ri e entra no shopping.
Discretamente, Cypsa joga algo próximo à entrada. O objeto se funde ao chão quase imediatamente.
Marie olha ao redor.
Marie: — Nossa... o que deveríamos fazer primeiro?
Axel responde calmamente.
Axel: — Que tal irmos às lojas primeiro? Afinal, a Você está falando disso desde que entramos.
Marie resmunga.
Marie: — Ah, me dá um desconto. Aquele colégio e tudo o que vem acontecendo tiram todo o meu tempo.
Axel ri.
Axel: — Tá bom, tá bom. Vamos na loja que você tanto quer.
Marie imediatamente aponta para uma loja de roupas.
O grupo entra. Todos brincam, experimentam roupas e se divertem.
Cypsa também sorri e participa das brincadeiras, mas, discretamente, vai espalhando pequenos fungos entre prateleiras, frestas e outros pontos específicos da loja, sem que ninguém perceba.
Assim que saem da loja, Ajax olha para o grupo e diz:
Ajax: — Pô, a gente podia ir ao fliperama, né? Me disseram que chegaram uns jogos novos maneiros.
Cypsa olha para Ajax e responde, entusiasmada:
Cypsa: — Eu apoio! Vamos, gente!
Ajax abre um sorriso todo bobo. Axel dá um leve tapinha na cabeça dele, e o grupo segue até o fliperama.
Lá, todos se dividem entre os jogos. Cypsa e Ajax vão para um videogame de basquete.
Enquanto jogam, Cypsa pergunta:
Cypsa: — Me diz, Ajax... por que você gosta tanto de esportes? Você joga de tudo lá no colégio. Eu sempre me perguntei isso.
Ajax pensa por alguns segundos enquanto arremessa outra bola na cesta.
Ajax: — Eu me sinto diferente jogando...
Cypsa o encara, curiosa.
Cypsa: — Como assim, diferente?
Ajax continua jogando enquanto procura as palavras certas.
Ajax: — Quando eu jogo, todo mundo me elogia. Eu sou bom... Eu sou diferente do Ajax de sempre. E eu amo essa sensação de me sentir bom no que faço.
Cypsa escuta atentamente. Um pequeno sorriso sincero surge em seu rosto.
Cypsa: — Sabe, Ajax... eu gosto muito disso em você. Você sempre dá o seu melhor, até quando as coisas não dão certo. Eu acho isso muito bonito.
Ajax escuta aquelas palavras.
Quando prepara outro arremesso, sua mão trava por um instante.
Ele olha para Cypsa e, completamente sem jeito, sorri de forma tímida.
Ajax: — Ah... m-muito obrigado.
Cypsa sorri e faz mais uma cesta.
Enquanto isso, em outra parte do fliperama...
Marie, Minerva e Axel jogam um jogo de tiro.
Axel quebra o silêncio.
Axel: — Gente... não me entendam mal, mas vocês não estão sentindo alguma coisa estranha? Não sei explicar...
Marie continua jogando.
Marie: — O pior é que sim... É como se tivesse alguma coisa pesada no ar, mesmo sem nada de ruim acontecendo.
Minerva olha para os dois.
Minerva: — Acho que eu sei o motivo.
Os dois voltam o olhar para ela.
Minerva respira fundo antes de falar.
Minerva: — Não levem a mal... mas tem a ver com a Cypsa.
Ela faz uma pequena pausa.
Minerva: — Tem alguma coisa errada com ela. Quando ela sorri... os olhos dela não acompanham.
Ela abaixa um pouco a voz.
Minerva: — Ela parece... pressionada.
Axel entende o que ela quer dizer.
Axel: — Talvez ela esteja passando por algum problema familiar... não sei. Vamos tentar animá-la. Ela é nossa amiga.
Marie concorda imediatamente.
Marie: — Ela precisa da gente. Então vamos dar o nosso melhor.
Depois de algum tempo, todos se reúnem novamente.
Ajax é o primeiro a falar.
Ajax: — Ei, bora comer, galera. Barriga vazia é oficina do diabo.
Todos riem.
Marie sorri.
Marie: — Ah... um sushi cairia muito bem.
Ajax faz uma careta.
Ajax: — Nada! Bem melhor uma pizza.
Axel: — Concordo.
As três garotas encaram os dois com cara de reprovação.
Axel e Ajax abaixam a cabeça ao mesmo tempo.
Axel e Ajax: — Sushi, então...
Todos caem na risada.
O grupo se senta em uma mesa e faz o pedido.
Enquanto esperam, Ajax comenta:
Ajax: — Sabe... eu estava pensando. Se o Zaio estivesse aqui...
Cypsa imediatamente presta atenção, mas disfarça.
Ajax continua rindo sozinho.
Ajax: — Tenho certeza de que aquele idiota não saberia usar o hashi.
Axel ri.
Axel: — Com certeza. Ele ficaria bravo e acabaria quebrando os palitos.
Marie entra na brincadeira.
Marie: — Nossa! Ele ia falar uns vinte palavrões só porque não sabe segurar o hashi.
Todos riem.
Inclusive Cypsa.
Ela ri de verdade... por alguns segundos.
Então se levanta.
Cypsa: — Gente, vou ao banheiro. Já volto.
Todos apenas fazem um sinal positivo enquanto ela se afasta.
Cypsa caminha pelo shopping.
Ao redor, tudo parece tão vivo.
Crianças brincam.
Casais conversam enquanto comem.
O cheiro da comida toma conta do ambiente.
Por um instante, ela sente uma dor estranha no peito... uma pontada que nem ela consegue explicar.
Ela entra no banheiro.
Está completamente vazio.
Nenhum som.
Nenhuma voz.
Nenhuma torneira aberta.
Somente silêncio.
Cypsa levanta lentamente o rosto e olha para o espelho.
Seu coração dispara.
No reflexo...
Atena está atrás dela.
Cypsa toma um susto e se vira imediatamente.
Atena permanece imóvel.
Seu olhar é frio.
Calculista.
Atena: — Não se esqueça do seu trabalho... Cypsa.
Cypsa a encara, assustada.
Cypsa: — Por que você está aqui?
Atena apenas passa por ela em direção à saída.
Antes de abrir a porta, responde sem sequer olhar para trás.
Atena: — Só vim lembrar você do seu único propósito de vida.
A porta se fecha.
Cypsa permanece parada por alguns segundos.
Então se apoia na parede.
Leva a mão ao rosto.
Respira fundo várias vezes, lutando contra as lágrimas.
Depois de alguns minutos...
Ela recompõe a postura.
Limpa discretamente o rosto.
Sorri para si mesma diante do espelho...
Um sorriso completamente vazio.
Então volta para o grupo.Cypsa retorna à mesa.
Cypsa: — Ai, gente, desculpa. Estava só dando um retoque na maquiagem.
Marie sorri.
Marie: — Relaxa. A gente já fez o pedido. Estamos só esperando a comida chegar.
O grupo continua conversando enquanto espera.
Cypsa sorri em todos os momentos, participa das conversas e até ri das piadas, mas sua mente está em outro lugar.
As lembranças da missão voltam sem parar.
As palavras de Atena ecoam em sua cabeça.
"Seu único propósito de vida..."
A comida chega.
Mesmo assim, ela mal consegue prestar atenção.
As luzes do shopping parecem perder o brilho.
As vozes ao redor ficam cada vez mais distantes.
Tudo parece desfocado.
Até que...
Marie: — Cypsa, vamos lá para a casa do Dante semana que vem,ver o Zaio?
Cypsa ergue lentamente a cabeça.
Sua voz sai quase como um sussurro.
Cypsa: — ...Zaio?
Naquele instante...
Um homem, algumas mesas à frente, começa a gritar.
Seu corpo se contorce violentamente.
A pele apodrece diante dos olhos de todos.
Feridas se abrem por todo o seu corpo.
Cogumelos e fungos começam a nascer das chagas enquanto ele emite um grito monstruoso e abafado.
O pânico toma conta do shopping.
Fungos começam a brotar por todos os lados.
Paredes.
Pilares.
Lojas.
Teto.
Chão.
As saídas são bloqueadas violentamente por enormes massas de fungos.
Um cheiro sufocante de mofo invade o ambiente.
As pessoas começam a correr desesperadas.
Axel mal tem tempo de perguntar o que está acontecendo.
De repente...
Uma enorme massa de fungos explode do chão.
BOOM!
Ela atinge Axel em cheio no peito.
Seu corpo é lançado contra a parede.
Os fungos crescem rapidamente, prendendo seus braços, pernas e tronco contra a estrutura do shopping.
Marie arregala os olhos.
Marie: — CYPSA! O QUE ESTÁ FAZENDO?!
Cypsa permanece imóvel.
Seu rosto treme por um instante.
Então, enormes massas de fungos surgem do chão e prendem Ajax e Minerva.
Apenas Marie permanece livre.
Mesmo tremendo, Cypsa tenta manter a voz firme.
Cypsa: — Chame o Zaio aqui...
Ela faz uma pausa.
Sua voz falha por um instante.
Cypsa: — ...e eu não mato você nem os seus amigos.
Uma longa lança feita de fungos cresce lentamente até encostar no pescoço de Minerva.
Minerva permanece completamente imóvel.
Seus olhos estão arregalados.
Ela sequer consegue gritar.
Marie começa a chorar.
Marie: — Tá bom... tá bom... eu vou ligar... só não machuca a gente...
Com as mãos tremendo, ela pega o celular.
Enquanto faz a ligação...
O shopping inteiro mergulha no caos.
Pessoas infectadas pelos fungos atacam qualquer um que encontram.
Alguns sobreviventes reagem e matam os infectados para tentar escapar.
O cheiro de sangue se mistura ao odor insuportável de mofo.
Os fungos cobrem paredes, colunas e corredores.
O shopping inteiro parece um organismo vivo.
Assim que Zaio atende a ligação...
Marie grita com toda a força que ainda lhe resta.
Marie: — ZAIO!! SOCORRO!! POR FAVOR!! VEM PARA O SHOPPING!! VOCÊ TEM QUE VIR!!
Zaio se levanta da cama num salto.
Zaio: — Quê?! Como assim?! O que aconteceu?!
Antes que ela consiga responder...
A ligação é encerrada.
Logo em seguida...
Uma única foto chega ao celular.
Axel.
Preso à parede por uma massa grotesca de fungos.
Zaio empalidece.
Zaio: — Não pode ser...
Ele aperta o celular com força.
Zaio: — Puta que pariu...
Zaio: — DANTE!!
Zaio vai a sala
Na televisão, diversos canais exibem imagens do shopping tomado pelos fungos.
Zaio mostra a foto.
Sua voz treme.
Zaio: — Dante... meus amigos estão lá.
Dante observa a imagem por apenas alguns segundos.
Seu semblante endurece.
Dante: — Puta merda...
Ele respira fundo.
Dante: — Vamos. Não temos muito tempo.
Os dois correm até o quarto de Dante.
Ele abre uma gaveta.
Lá dentro estão duas pistolas.
Sem hesitar, entrega uma delas para Zaio.
Dante: — Eu sei que você não tem experiência... mas a situação é crítica. Use com cuidado.
Zaio encara a arma por alguns segundos.
Sua mão treme.
Mesmo assim...
Respira fundo.
Guarda a pistola na cintura.
Os dois correm até o carro.
Dante liga o motor.
O ronco do veículo ecoa pela rua.
Sem perder um segundo...
Ele pisa fundo no acelerador.
O carro dispara em direção à cidade.
Enquanto isso, no shopping...
Assim que a ligação termina, Marie abaixa lentamente o celular.
Suas mãos ainda tremem.
Ela encara Cypsa, completamente perdida.
Lágrimas escorrem pelo seu rosto.
Marie: — Por quê...? O que aconteceu, Cypsa? Você... você não é assim...
Cypsa observa o caos ao redor.
Os gritos.
O sangue.
Os fungos tomando conta de tudo.
Seu olhar está cheio de desesperança.
Cypsa: — Você não entenderia... E, mesmo que entendesse... eu morreria se contasse.
Ela abaixa os olhos para as próprias mãos.
As mesmas mãos que agora carregavam a destruição.
Ela respira fundo.
Cypsa: — A minha vida é isso, Marie... Trabalhar para que o meu único salário seja continuar viva.
Por um instante...
Um pequeno sorriso aparece em seu rosto.
Um sorriso cansado.
Quase melancólico.
Cypsa: — Mas eu tenho que agradecer a todos vocês.
Marie a observa em silêncio.
Cypsa: — Essa foi a primeira missão em que eu me senti alguém de verdade.
Os olhos de Marie se enchem de lágrimas.
Mesmo assustada...
Ela consegue sorrir de leve.
Marie: — Mesmo com tudo isso acontecendo...
Ela faz uma pequena pausa.
Marie: — Eu também tenho uma coisa para agradecer a você.
Cypsa ergue a cabeça, surpresa.
Cypsa: — ...O quê?
Marie sorri, apesar do medo.
Marie: — Você ajudou o Zaio a não se sentir tão estranho.
Ela enxuga as lágrimas.
Marie: — Obrigada... por isso.
O pequeno sorriso de Cypsa vacila.
Por um segundo...
Ela parece esquecer completamente a missão.
Mas então...
As palavras de Atena voltam à sua mente.
"Seu único propósito de vida."
O brilho em seus olhos desaparece.
Seu rosto volta a ficar completamente frio.
Massas de fungos brotam da parede e prendem Marie com força.
Sem olhar diretamente para ela, Cypsa diz em um tom vazio:
Cypsa: — Assim que o Zaio chegar...
Ela faz uma pequena pausa.
Cypsa: — Diga para ele me encontrar no teto do shopping.
Logo à sua frente, uma enorme escada começa a crescer.
Fungos.
Destroços.
Concreto.
Corpos infectados.
Tudo se mistura em uma gigantesca estrutura orgânica que sobe em direção ao teto.
Cypsa começa a subir lentamente.
Cada passo ecoa naquele silêncio estranho que havia tomado conta do local.
Ao chegar ao topo...
Ela ergue a mão.
Uma enorme massa de fungos explode para cima.
CRAAASH!!
O teto do shopping é atravessado.
A luz do fim da tarde invade o ambiente destruído.
Cypsa sobe até a cobertura.
Agora...
Ela está completamente sozinha.
A cidade inteira pode ser vista dali.
Viaturas cercam o shopping.
Sirenes ecoam por todos os lados.
Helicópteros sobrevoam o local.
Lá embaixo...
Pessoas ainda correm tentando escapar.
Cypsa permanece parada.
Imóvel.
Seu rosto continua completamente inexpressivo.
Nenhum músculo se move.
Nenhum soluço.
Nenhum grito.
Mas, silenciosamente...
Lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto.
Ela não tenta limpá-las.
Apenas observa a cidade...
Enquanto chora em absoluto silêncio enquando vê as luzes dos carros da polícia.
