Capa de ELYNDOR - Light novel

ELYNDOR - Light novel

Capítulo 1 — VOLUME 1 - O Evangelho do Abismo

Capítulo 1 — Antes do Fim
Tóquio, Japão.
A cidade parecia nunca dormir.
Mesmo durante a madrugada, as ruas permaneciam iluminadas por letreiros, faróis e vitrines. Milhares de pessoas atravessavam as avenidas todos os dias, cada uma carregando seus próprios problemas, sonhos e preocupações.
Para a maioria delas, aquele era apenas mais um dia.
Para dois jovens, porém, aquele seria o último dia de suas vidas naquele mundo.
Embora nenhum dos dois soubesse disso.

Hashi Kazekaya estava sentado próximo à janela de uma das salas mais avançadas da universidade mais prestigiada do Japão.
O laboratório universitário era silencioso.
À sua frente havia uma bancada repleta de equipamentos, tubos de ensaio e anotações cuidadosamente organizadas.
Hashi observava uma amostra através de um microscópio enquanto fazia algumas anotações.
— Interessante...
Ele ajustou o foco.
— Se essa reação estiver realmente ocorrendo dessa maneira, então a hipótese anterior está completamente errada.
Uma colega próxima olhou para ele.
— Você está falando sozinho novamente, Kazekaya?
Hashi sequer levantou os olhos.
— Não estou falando sozinho.
— Não?
— Estou discutindo comigo mesmo.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Isso não é exatamente o mesmo?
Hashi finalmente levantou os olhos.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Depende de quem está ganhando a discussão.
A garota soltou um suspiro e voltou ao próprio trabalho.
Hashi retornou ao microscópio.
Aos olhos dos outros estudantes, ele era praticamente o aluno perfeito.
Inteligente.
Educado quando necessário.
Extremamente dedicado.
E, graças à família Kazekaya, também possuía uma vida que muitos estudantes jamais conseguiriam imaginar.
Sua família era rica.
Muito rica.
Dinheiro nunca havia sido um problema para Hashi.
Mas isso não significava que ele fosse alguém que gastasse dinheiro sem pensar.
Na verdade, era exatamente o contrário.
Hashi gostava de entender como as coisas funcionavam.
Dinheiro.
Pessoas.
Comportamentos.
Sistemas.
Tudo poderia ser analisado.
Tudo possuía algum padrão.
E, quando alguém tentava manipulá-lo...
Hashi normalmente percebia antes mesmo que a pessoa terminasse de falar.

Tempo depois.
— HASHI!
A voz ecoou pelo estacionamento da universidade.
Hashi parou.
Fechou os olhos por alguns segundos.
— Ah...
Ele respirou profundamente.
— O problema chegou.
Do outro lado da rua, um jovem corria em sua direção.
Jin Takamura.
Cabelo preto bagunçado, roupas simples e uma expressão que misturava confiança, e uma quantidade preocupante de falta de bom senso.
Ele parou diante de Hashi.
— Finalmente te encontrei!
Hashi olhou para ele.
Depois olhou para os lados.
— Está me perseguindo?
— Não.
— Então por que você está correndo atrás de mim?
Jin pensou.
— Coincidência?
Hashi ficou em silêncio.
— Você é péssimo mentindo.
— Eu sei.
Jin abriu um sorriso.
— Então... sobre aquele dinheiro...
— Não.
— Você nem sabe quanto eu ia pedir.
— Não importa.
— Cem mil ienes.
— Não.
— Cinquenta?
— Não.
— Dez?
— Não.
— Mil?
Hashi começou a andar.
Jin o acompanhou.
— Você nem vai perguntar para que eu quero?
— Não.
— E se for algo importante?
— Não é.
— Como sabe?
Hashi olhou de lado.
— Porque você está sorrindo.
Jin parou por um instante.
— E daí?
— Quando você precisa de dinheiro para alguma coisa realmente importante, você fica sério.
Jin franziu a testa.
— Eu fico sério?
— Fica.
— Então isso significa que você presta atenção em mim?
Hashi parou.
Olhou diretamente para ele.
— Infelizmente.
Jin abriu um sorriso ainda maior.
— Sabia!
— Não fique feliz.
— Você gosta de mim.
— Eu prefiro estudar uma bactéria desconhecida.
— Isso foi meio ofensivo.
— Era a intenção.
Jin voltou a caminhar ao lado dele.
— Então me empresta pelo menos cinco mil.
— Não.
— Três mil.
— Não.
— Mil.
— Não.
— Quinhentos?
Hashi tirou o celular do bolso.
— Você está tentando negociar com a pessoa errada.
— Por quê?
— Porque eu já sei como essa conversa termina.
Jin estreitou os olhos.
— Como?
Hashi mostrou a tela do celular.
— Você vai pedir dinheiro.
— Sim.
— Eu vou negar.
— Provavelmente.
— Você vai insistir.
— Com certeza.
— Então eu vou oferecer comida.
Os olhos de Jin brilharam.
— Comida?
Hashi sorriu.
— E você vai esquecer o dinheiro.
Jin ficou em silêncio.
Dois segundos.
Três.
— Que tipo de comida?
Hashi soltou uma pequena risada.
— Eu sabia.
Alguns minutos depois, os dois estavam sentados em uma pequena lanchonete próxima à universidade.
Jin comia como se não visse comida havia dias.
Hashi apenas observava.
— Você sabe que existem pessoas que comem devagar, certo?
Jin levantou os olhos.
— Não quando estão com fome.
— Você está sempre com fome.
— Exatamente.
Hashi apoiou o rosto sobre uma das mãos.
— Às vezes eu me pergunto como você ainda está vivo.
— Eu sou resistente.
— Não. Você só tem sorte.
Jin apontou os hashis para ele.
— A sorte também é uma habilidade.
— Essa frase não faz sentido.
— Faz sim.
— Não faz.
— Então por que eu ainda estou vivo?
Hashi abriu a boca.
Parou.
Pensou por alguns segundos.
— Infelizmente, você tem um argumento.
Jin sorriu satisfeito.
— Viu?
Hashi desviou o olhar para a janela.
Do lado de fora, Tóquio continuava funcionando normalmente.
Pessoas caminhavam pelas calçadas.
Carros passavam pelas ruas.
Luzes iluminavam os prédios.
Tudo parecia perfeitamente normal.
Hashi observou aquela cena por alguns segundos.
Por algum motivo, sentiu uma estranha inquietação.
Era uma sensação difícil de explicar.
Como se alguma coisa estivesse errada.
Como se o mundo tivesse ficado silencioso por apenas um instante.
Ele franziu a testa.
— Hashi?
A voz de Jin o trouxe de volta.
— Hm?
— Você está olhando para o nada faz um tempo.
— Estou pensando.
— Isso é perigoso?
Hashi olhou para ele.
— Para você, provavelmente.
Jin riu.
— Então está tudo normal.
Hashi voltou a olhar pela janela.
Não sabia explicar aquela sensação.
Não sabia que aquela seria uma das últimas vezes em que veria Tóquio daquela maneira.
Não sabia que, naquela mesma noite, sua compreensão sobre ciência, realidade e existência seria destruída.
Não sabia que, em algum lugar além daquele mundo...
algo já havia começado a observá-los.
E muito menos sabia que o destino havia colocado justamente aqueles dois juntos.
Um homem que pensava demais.
E outro que quase nunca pensava.
Naquela noite, antes que o mundo acabasse para eles...
Hashi Kazekaya e Jin Takamura ainda eram apenas dois jovens vivendo uma vida completamente comum.
Os dois finalmente saíram da lanchonete.
Jin caminhava alguns passos à frente, com as mãos atrás da cabeça e um sorriso satisfeito no rosto.
— Cara... — ele suspirou. — Eu realmente precisava disso.
Hashi caminhava ao lado dele.
— Você precisava de comida ou precisava que eu pagasse?
— As duas coisas.
— Pelo menos você é honesto.
Jin parou de repente e se virou para Hashi.
— Bom, então acho que é aqui que nos separamos.
Hashi levantou uma sobrancelha.
— Graças a Deus.
— Ei!
Jin colocou a mão sobre o peito, fingindo estar ofendido.
— Depois de tudo que vivemos juntos...
— Nós jantamos.
— Foi uma experiência intensa.
— Você comeu.
— Foi uma experiência emocional.
Hashi soltou uma risada curta.
Jin então ficou alguns segundos em silêncio.
Seu sorriso diminuiu.
— Falando sério...
Hashi olhou para ele.
— Obrigado pela comida.
A mudança repentina fez Hashi ficar em silêncio por um instante.
— Não precisa agradecer.
— Precisa sim.
Jin desviou o olhar, parecendo um pouco constrangido.
— Eu sei que vivo tentando arrancar dinheiro de você... mas você sempre acaba me ajudando de algum jeito.
Hashi colocou as mãos nos bolsos.
— Talvez porque eu tenha pena de você.
— Estragou o momento.
— Eu sei.
Jin voltou a sorrir.
— Até amanhã, então.
— Se você não estiver morto de fome antes disso.
— Não se preocupe. Vou sobreviver.
Jin começou a andar.
Hashi seguiu na mesma direção.
Jin olhou por cima do ombro.
— Você não ia para casa?
— Ia.
— Então por que está vindo comigo?
Hashi olhou para ele.
— Porque você está indo para o mesmo caminho.
— Ah.
Alguns segundos de silêncio.
— Então estamos caminhando juntos.
— Infelizmente.
— Isso parece amizade.
— Não abuse da situação.
Jin riu.
Continuaram caminhando pelas ruas iluminadas de Tóquio.
Por alguns minutos, tudo permaneceu tranquilo.
Até Jin parar no meio da calçada.
Ele tirou um maço de cigarros do bolso.
Hashi imediatamente percebeu.
— Nem pense nisso.
Jin colocou um cigarro entre os lábios.
— Pensamento já concluído.
— Jin.
— O quê?
— Você sabe que isso faz mal, certo?
Jin acendeu o cigarro.
— Todo mundo morre.
Hashi ficou olhando para ele.
— Essa foi provavelmente a frase mais idiota que você disse hoje.
Jin tragou.
— E olha que eu falei muita coisa.
Hashi suspirou.
— Você é inacreditável.
Jin soltou a fumaça lentamente.
Então, com um sorriso malicioso, virou o rosto e soprou a fumaça diretamente na direção de Hashi.
Hashi recuou imediatamente.
— Seu desgraçado!
Jin começou a rir.
— Hahahaha!
— Eu estava falando sério!
— Eu sei!
— Eu odeio você.
— Mentira.
— Não é.
— Você acabou de pagar meu jantar.
— Isso foi um erro financeiro.
— Claro.
Hashi abanou a fumaça com a mão.
— Se você fizer isso novamente, eu jogo esse cigarro no bueiro.
Jin segurou o cigarro longe dele.
— Violência contra fumantes.
— Crime necessário.
— Ditadura.
— Sobreviva.
Jin gargalhou.
Os dois continuaram caminhando.
A conversa seguiu naturalmente.
Jin fazia comentários absurdos sobre praticamente tudo que encontravam pelo caminho.
Hashi respondia com sarcasmo.
Um provocava o outro.
O outro devolvia.
Era uma dinâmica estranha.
Mas funcionava.
— Olha aquela mulher.
Hashi nem virou o rosto.
— Não.
— Você nem sabe quem é.
— Conhecendo você, não preciso.
— Ela é bonita.
— Parabéns pela descoberta.
— Você não acha?
Hashi finalmente olhou.
— Jin...
— Hm?
— Você está olhando para a mesma mulher há quase um minuto.
— Estou analisando.
— Você não sabe nem o que significa analisar.
— Significa olhar bastante.
— Não.
Jin riu.
— Você é muito chato.
— E você fala demais.
— Mas você continua andando comigo.
Hashi abriu a boca para responder.
Então ouviu.
— SOCORRO!
Os dois pararam.
A voz veio de um beco alguns metros à frente.
O sorriso desapareceu do rosto de Jin.
Hashi também ficou sério.
Outro grito.
— ME SOLTEM!
Jin jogou o cigarro no chão e o apagou com o pé.
— Aquilo veio dali.
Hashi olhou para a entrada escura do beco.
Seu cérebro começou imediatamente a trabalhar.
Três homens.
Uma mulher.
Lugar isolado.
Possível assalto.
Possível agressão.
Talvez algo pior.
— Jin...
— Já sei.
Jin começou a caminhar em direção ao beco.
Hashi permaneceu alguns passos atrás.
— Não faça nenhuma idiotice.
Jin olhou para trás.
Sorriu.
— Não prometo.
— Eu sabia.
Os dois avançaram.
Quando chegaram ao fim do beco, a situação ficou clara.
Três homens cercavam uma jovem.
Um segurava seu braço.
Outro tentava impedir que ela escapasse.
O terceiro permanecia à frente, observando.
A mulher se debatia desesperadamente.
— Me soltem!
Jin imediatamente avançou.
— EI!
Os três homens olharam.
Jin colocou as mãos na cintura.
— O que vocês estão fazendo?
Um dos homens franziu a testa.
— Vai embora, moleque.
Jin não se mexeu.
— Eu fiz uma pergunta.
— Não é da sua conta.
Hashi permaneceu alguns metros atrás.
Não dizia nada.
Apenas observava.
O homem que segurava a mulher parecia ser o mais forte dos três.
O segundo mantinha a mão escondida dentro do casaco.
O terceiro parecia nervoso.
Hashi estreitou os olhos.
Provavelmente uma faca.
Sua atenção se deslocou para as saídas.
Beco estreito.
Pouco espaço.
Três contra dois.
A mulher estava no centro.
Se Jin avançasse sem pensar, poderia colocar a garota em risco.
Hashi já começava a calcular possibilidades.
Então o homem mais próximo colocou a mão dentro do casaco.
Sacou uma faca.
— Eu mandei vocês irem embora.
Jin olhou para a lâmina.
Silêncio.
Então...
um sorriso apareceu em seu rosto.
Hashi percebeu.
— Ah, não...
Jin flexionou os joelhos.
— Você realmente puxou uma faca?
O homem ergueu a arma.
— Último aviso.
Jin abriu um sorriso ainda maior.
— Que sorte.
Hashi fechou os olhos por um instante.
— Jin...
Jin avançou.
— EU ESTAVA COMEÇANDO A FICAR ENTEDIADO!
— Você é burro, Jin.
Hashi levou a mão ao rosto.
O primeiro homem sequer teve tempo de reagir.
Jin já estava sobre ele.
O homem ergueu a faca.
— Seu idiota!
A lâmina veio em direção ao peito de Jin.
Jin desviou o corpo por centímetros.
— Nossa.
Ele olhou para a faca.
— Você realmente queria me furar?
— Cala a boca!
O homem tentou outro golpe.
Jin segurou o pulso dele.
O sorriso desapareceu por um instante.
Com um movimento rápido, girou o braço do agressor e o puxou para frente.
— Primeira regra de uma briga...
Jin acertou uma joelhada no estômago do homem.
— Não mostre sua arma antes da hora.
O homem perdeu o ar.
Jin o empurrou contra a parede.
— Segunda regra...
Um soco atingiu o rosto do homem.
— Não escolha alguém mais forte que você.
O agressor caiu no chão.
Jin olhou para a própria mão.
— Terceira regra...
Ele sorriu.
— Não mexa com alguém que estava com fome há dez minutos.
— Isso não faz sentido! — gritou Hashi.
— Faz para mim!
O segundo homem avançou pelas costas.
Hashi percebeu.
— Jin!
Jin se abaixou.
O golpe passou acima de sua cabeça.
— Boa tentativa.
Jin girou e acertou um chute no joelho do homem.
O sujeito cambaleou.
Jin aproveitou e acertou um segundo golpe no abdômen.
— Você também quer?
O homem caiu de joelhos.
— Não!
— Então por que veio?
Jin parecia genuinamente confuso.
Enquanto isso, Hashi avançava em direção à garota.
— Está tudo bem. Venha comigo.
A jovem estava assustada demais para responder.
— Eu... eu não consigo...
Hashi olhou para o homem que ainda segurava seu braço.
— Solte-a.
O homem apertou ainda mais.
— Fique longe!
Hashi manteve a calma.
Não queria atacar.
Se o homem se assustasse, poderia machucar a garota.
Então Hashi mudou de estratégia.
— Certo.
Ele ergueu as mãos.
— Não vou me aproximar.
O homem pareceu desconfiado.
Hashi continuou:
— Mas você está segurando uma pessoa contra a vontade dela, em um beco, enquanto seus amigos estão apanhando de um lunático.
Do outro lado do beco, Jin gritou:
— EU OUVI ISSO!
— Era para ouvir!
— Justo!
Hashi voltou a olhar para o agressor.
— Então pense um pouco.
Ele apontou discretamente para Jin.
— Você realmente acha que essa é uma situação que pode terminar bem para você?
O homem olhou para os companheiros.
Um estava caído.
O outro estava tentando se levantar.
Jin estava parado no meio do beco, sorrindo.
— Eu daria ouvidos a ele — disse Jin. — Ele é a parte inteligente da dupla.
Hashi suspirou.
— Finalmente disse algo inteligente.
O homem hesitou.
Foi o suficiente.
Hashi avançou rapidamente.
Não contra ele.
Contra a garota.
Segurou o braço dela e puxou-a para trás, colocando o próprio corpo entre ela e o agressor.
O homem tentou agarrá-la novamente.
Hashi desviou.
— Corra!
A garota ficou paralisada.
— Mas...
— Agora!
Ela correu para a entrada do beco.
O homem tentou segui-la.
Jin apareceu na frente dele.
— Aonde você pensa que vai?
O agressor parou.
— Sai da frente!
— Não.
— Eu vou matar vocês!
Jin abriu um sorriso.
— Você está falando sério?
O homem levantou a faca.
— Muito.
Jin estalou o pescoço.
— Ótimo.
Hashi olhou para ele.
— Jin.
— Relaxa.
— Eu não disse nada.
— Mas ia dizer.
Hashi tirou o celular do bolso.
— Já estou chamando a polícia.
Jin olhou para ele.
— Você chamou a polícia?
— Sim.
— Covarde.
Hashi olhou para ele.
— Eu estou tentando resolver isso sem transformar o beco em uma cena de homicídio.
— Ah.
Jin pensou por um segundo.
— Faz sentido.
Hashi colocou o telefone no ouvido.
— Polícia? Sim. Estou em um beco próximo à universidade. Três homens estão tentando agredir uma mulher. Um deles está armado com uma faca.
Enquanto falava, manteve os olhos sobre Jin.
— Sim. A vítima está segura.
Jin levantou a mão.
— Diga que eu estou vencendo.
Hashi cobriu o microfone.
— Cala a boca.
— Só estou ajudando.
— Você é a razão pela qual eu preciso ligar para a polícia.
O homem avançou.
Jin desviou.
A faca cortou o ar.
Jin segurou o braço do agressor e o torceu.
A lâmina caiu.
— Acabou.
O homem tentou acertá-lo com a outra mão.
Jin bloqueou.
— Você é insistente.
Um golpe.
O homem caiu.
Jin ficou olhando para ele.
— Está vivo?
O homem gemeu.
— Ótimo.
Jin se agachou.
— Então não preciso me preocupar.
Hashi desligou o telefone.
— A polícia está vindo.
Jin levantou.
— Quanto tempo?
— Alguns minutos.
— Então temos tempo para comer alguma coisa.
Hashi ficou encarando ele.
— Nós acabamos de comer.
— Eu gastei muita energia.
— Você deu seis socos.
— Seis socos muito intensos.
Hashi levou a mão ao rosto.
— Eu não acredito em você.
A garota, ainda tremendo, aproximou-se dos dois.
— Obrigada...
Hashi imediatamente mudou de expressão.
— Você está machucada?
Ela balançou a cabeça.
— Não... acho que não.
— Tem certeza?
— Sim.
Hashi observou seus braços e rosto, certificando-se de que não havia ferimentos aparentes.
— Certo.
Jin cruzou os braços.
— Viu? Salvamos o dia.
Hashi olhou para ele.
— Eu resgatei a garota.
— Eu bati nos caras.
— Porque você é incapaz de resolver qualquer coisa sem bater em alguém.
— Funcionou.
— Esse é o problema.
Ao longe, sirenes começaram a ecoar.
Jin olhou para Hashi.
— Acho que estão vindo.
— Finalmente.
Os três homens permaneciam no chão, incapazes de continuar a luta.
A jovem respirou fundo.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então Jin apontou para os criminosos.
— Ei, Hashi.
— O quê?
— Você acha que eles vão contar que apanharam para mim?
Hashi ajeitou os óculos.
— Provavelmente vão inventar alguma história.
— Tipo?
Hashi pensou.
— "Fomos derrotados por um demônio."
Jin abriu um sorriso.
— Gostei.
— Não era um elogio.
As sirenes se aproximaram.
Luzes vermelhas e azuis começaram a refletir nas paredes do beco.
Hashi olhou para o céu.
Por algum motivo...
aquela sensação estranha havia voltado.
O mesmo desconforto que sentira antes.
Só que agora era mais forte.
Ele franziu a testa.
As luzes da cidade pareceram piscar.
Uma vez.
Duas.
Jin percebeu.
— Hashi?
— Hm?
— Você também viu isso?
Hashi ficou em silêncio.
— Vi.
As sirenes continuaram se aproximando.
A jovem olhou para o céu.
Os três criminosos permaneceram imóveis.
E, por uma fração de segundo...
Tóquio pareceu completamente silenciosa.
Nenhum carro.
Nenhuma voz.
Nenhum som.
Nada.
Hashi olhou ao redor.
— Isso...
Jin franziu a testa.
— O quê?
Hashi não respondeu.
Porque naquele instante...
uma luz branca surgiu no céu.
E não parecia ser uma estrela.

Capítulo 2 — Me Mande de Volta
Nada.
Não havia chão.
Não havia céu.
Não havia frio.
Não havia calor.
Não havia sequer a sensação de estar caindo.
Hashi Kazekaya abriu os olhos.
A primeira coisa que percebeu foi o silêncio.
A segunda foi que estava flutuando.
— ...
Ele olhou para baixo.
Nada.
Olhou para cima.
Nada.
Ao redor dele, apenas uma imensidão branca.
— Isso...
Hashi ajeitou os óculos por reflexo.
— ...não faz sentido.
— HAHAHAHA!
Uma gargalhada ecoou naquele vazio.
Hashi virou a cabeça.
— Jin?
— EU ESTOU VIVO!
Jin Takamura surgiu alguns metros ao lado, também flutuando.
Ele girou o próprio corpo no ar.
— Cara! Isso é incrível!
— Você está vendo isso?
— Estou!
— E não está assustado?
Jin abriu os braços.
— Eu deveria?
— Estamos flutuando em um espaço completamente branco sem qualquer explicação.
Jin pensou.
— Quando você coloca desse jeito...
Ele ficou sério por dois segundos.
— ...continua sendo incrível.
Hashi fechou os olhos.
— Eu realmente fui parar aqui com você.
— Parece que sim.
Jin começou a tentar nadar no ar.
— Olha isso!
— Pare.
— Eu consigo nadar!
— Você está flutuando.
— Detalhes.
Hashi ignorou.
Começou a observar o ambiente.
Não havia paredes.
Nenhuma fonte visível de luz.
Nenhuma sombra.
Nenhuma direção.
Mesmo assim, havia iluminação.
A luz parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo.
Hashi estendeu a mão.
Nada.
Nenhuma superfície.
Nenhum vento.
Nenhuma resistência.
— Interessante...
Jin parou.
— O que foi?
— Não sei.
— Então por que está falando "interessante"?
Hashi continuou analisando o vazio.
— Porque estou tentando entender.
— Você consegue entender?
— Ainda não.
— Então estamos ferrados?
— Provavelmente.
— Ah.
Jin colocou as mãos atrás da cabeça.
— Eu estava começando a gostar.
Hashi olhou para ele.
— Você é inacreditável.
Antes que Jin pudesse responder...
uma voz ecoou.
— Chega.
Os dois ficaram imóveis.
A voz era feminina.
Serena.
Mas havia algo nela que fazia o espaço inteiro parecer obedecer.
Jin olhou ao redor.
— Quem falou?
Hashi não respondeu.
Ele já havia percebido.
À frente deles...
a luz começou a se concentrar.
Primeiro como uma pequena esfera.
Depois como uma silhueta.
Uma figura feminina surgiu diante dos dois.
Não havia rosto.
Não havia cabelos visíveis.
Seu corpo era completamente envolto por uma luz branca tão intensa que era impossível distinguir detalhes de sua aparência.
Longas vestes pareciam surgir da própria luz.
Ela não precisava de asas.
Não precisava de uma coroa.
Sua simples presença transmitia algo que os dois nunca haviam sentido.
Poder.
Antiguidade.
Autoridade.
Jin arregalou os olhos.
— Uau...
Hashi estreitou os olhos.
A mulher os observava.
Ou pelo menos era o que parecia.
— Hashi Kazekaya.
Ele ficou imóvel.
A entidade então voltou sua atenção para o outro.
— Jin Takamura.
Jin apontou para si mesmo.
— Você sabe nossos nomes?
— Sei.
— Então você é Deus?
Silêncio.
A figura respondeu:
— Eu sou uma deusa.
Os olhos de Jin brilharam.
— Sério?!
Hashi levou a mão à testa.
— Não começa.
— Mas é uma deusa!
— Eu percebi.
Jin se aproximou da entidade.
— Então você realmente existe?
— Sim.
— Tem poderes?
— Sim.
— Pode fazer milagres?
— Sim.
— Pode trazer comida?
A deusa ficou em silêncio.
Hashi fechou os olhos.
— Eu pedi para ele não começar.
Jin apontou para Hashi.
— Ele também tem perguntas.
— Eu tenho muitas.
Hashi encarou a deusa.
Sua expressão havia mudado.
A curiosidade permanecia, mas agora estava acompanhada de desconfiança.
— Onde estamos?
— Fora dos mundos.
— "Fora dos mundos" não é uma localização.
— É a única definição que pode compreender.
Hashi respirou fundo.
— Então vou reformular.
Ele apontou ao redor.
— O que aconteceu conosco?
A deusa respondeu sem hesitar.
— Vocês morreram.
Silêncio.
Jin piscou.
— Ah.
Hashi ficou imóvel.
— Morremos?
— Sim.
Jin olhou para as próprias mãos.
Depois para Hashi.
— Mas eu não sinto nada.
— A morte não precisa ser sentida.
— Isso é meio decepcionante.
Hashi virou-se para ele.
— Você está reclamando da própria morte?
— Eu esperava algo mais dramático.
— Você é impossível.
Hashi voltou-se para a deusa.
— Como morremos?
— Seus corpos foram destruídos quando o espaço entre os mundos foi aberto.
Hashi franziu a testa.
— Espaço entre os mundos?
— Sim.
— Então aquela luz...
— Era uma passagem.
Hashi começou a conectar os acontecimentos.
A sensação estranha.
A luz.
As mudanças no céu.
O silêncio.
Tudo.
— Você nos trouxe para cá?
— Sim.
Hashi encarou a deusa.
— Por quê?
A entidade ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou:
— Porque preciso de vocês.
Jin abriu um sorriso.
— Eu sabia!
Hashi olhou para ele.
— Sabia o quê?
— Que eu era especial.
— Você provavelmente estava dormindo quando tudo aconteceu não estava?
— Pessoas especiais também dormem.
A deusa continuou:
— Preciso que vocês cumpram dois pedidos.
Hashi cruzou os braços.
— Não.
A deusa ficou em silêncio.
Jin olhou para Hashi.
— Você nem ouviu os pedidos.
— Não importa.
— Como assim?
Hashi encarou a entidade.
— Ela nos trouxe contra nossa vontade.
— Tecnicamente, estamos mortos.
— Isso não melhora a situação.
Hashi continuou:
— Eu não sei quem você é, não sei onde estamos, não sei como chegamos aqui e não sei o que pretende fazer conosco.
Sua voz ficou mais firme.
— Portanto, antes de qualquer pedido, quero respostas.
A deusa permaneceu imóvel.
Jin ergueu a mão.
— Eu também tenho uma pergunta.
Hashi olhou para ele.
— Qual?
— Tem hambúrguer aqui?
Hashi fechou os olhos.
— Eu desisto.
A deusa respondeu:
— Não.
Jin abaixou a mão.
— Esse mundo é cruel.
A deusa então voltou-se para Hashi.
— Vocês não possuem obrigação de aceitar meus pedidos.
Hashi arqueou uma sobrancelha.
— Não?
— Não.
— Então podemos voltar?
A deusa ficou em silêncio.
Hashi percebeu a resposta antes mesmo que ela fosse dada.
— Entendi.
Sua expressão endureceu.
— Então nos mande de volta.
— Não posso.
— Não pode ou não quer?
— Não posso.
— Qual é a diferença?
— Seus corpos já não existem.
Hashi ficou em silêncio.
A deusa continuou:
— O mundo ao qual pertenciam não pode recebê-los novamente.
Jin perdeu o sorriso.
— Então...
Ele olhou para a própria mão.
— Não tem volta?
A deusa não respondeu imediatamente.
— Não da maneira que vocês desejam.
Hashi desviou o olhar.
Por alguns segundos, não disse nada.
Então respirou fundo.
— Então qual é o primeiro pedido?
A deusa levantou uma das mãos.
A luz ao redor dela mudou.
Imagens começaram a surgir no vazio.
Um mundo.
Gigantesco.
Continentes.
Oceanos.
Montanhas.
Florestas.
Cidades.
Reinos.
Mas havia algo errado.
Grandes regiões estavam cobertas por uma espécie de escuridão.
— Este é Elyndor.
Jin olhou maravilhado.
— Caramba...
Hashi observou cuidadosamente.
— Um planeta?
— Não.
A imagem se expandiu.
— Um mundo.
A deusa falou:
— Elyndor é o Mundo Primordial.
Hashi franziu a testa.
— Primordial?
— O primeiro mundo.
A imagem mudou.
Ao redor de Elyndor começaram a surgir inúmeros outros mundos.
Milhares.
Talvez milhões.
Alguns pequenos.
Outros gigantescos.
Alguns pareciam semelhantes à Terra.
Outros eram completamente diferentes.
— Todos esses mundos existem por causa de Elyndor.
Hashi ficou sério.
— Como?
— Elyndor é o coração da criação.
A imagem mostrou uma espécie de energia saindo do mundo primordial e alcançando os demais.
— Os mundos não existem isoladamente.
— Elyndor sustenta sua existência.
Jin coçou a cabeça.
— Então...
Ele apontou para os outros mundos.
— Se Elyndor morrer...
Hashi respondeu antes da deusa.
— Os outros também morrem.
A deusa assentiu.
— Exatamente.
O silêncio voltou.
Hashi analisava as imagens.
— E qual é o problema?
A luz ao redor da deusa escureceu levemente.
— Elyndor está morrendo.
Jin perdeu o sorriso.
— O quê?
— Existe um ser.
A imagem mudou.
Uma figura completamente desconhecida apareceu
Apenas uma silhueta envolta em uma energia negra.
Ao redor dela...
inúmeros indivíduos.
— Ele possui seguidores.
— Apóstolos — acrescentou a deusa.
A imagem mostrou cidades destruídas.
Exércitos sendo massacrados.
Florestas consumidas.
Torres ruindo.
Criaturas deformadas caminhando entre ruínas.
— Eles estão destruindo Elyndor.
Hashi estreitou os olhos.
— Por quê?
— Não sabemos.
— Não sabem?
— Seu verdadeiro objetivo permanece desconhecido.
Hashi ficou pensativo.
— E você não consegue detê-lo?
A deusa permaneceu em silêncio.
Então respondeu:
— Não sozinha.
A imagem mudou novamente.
Três figuras gigantescas apareceram.
Uma envolta em luz.
Outra cercada por uma energia dourada.
A terceira coberta por sombras profundas.
— No início, existiam três Deuses Primordiais.
Jin olhou para as figuras.
— Você é uma delas?
— Sim.
Hashi ficou atento.
— E os outros dois?
A luz ao redor da deusa diminuiu.
— Estão mortos.
Jin perdeu completamente o sorriso.
— Mortos?
— Eles lutaram para proteger Elyndor.
A imagem mostrou duas das figuras enfrentando algo colossal.
— Foram derrotados.
A deusa fechou a mão.
— Em seus últimos momentos...
Duas luzes apareceram.
Uma avermelhada
Outra em. Tons negros e roxo
— Eles enviaram suas últimas bênçãos.
Hashi sentiu algo dentro do peito.
Jin também.
As duas luzes começaram a se aproximar.
— Uma bênção para cada um de vocês.
Jin apontou para si mesmo.
— Espera.
— Sim.
— Então eu recebi uma bênção de um deus?
— Sim.
Jin abriu um sorriso enorme.
— EU SABIA!
Hashi virou-se para ele.
— Você não sabia de absolutamente nada.
— Mas agora sei!
— Isso não é a mesma coisa.
A deusa continuou:
— As bênçãos foram enviadas antes da morte deles.
— Por quê nós? — perguntou Hashi.
A entidade ficou em silêncio.
— Porque eles escolheram vocês.
Hashi estreitou os olhos.
— Isso não responde à minha pergunta.
— Talvez um dia compreenda.
Hashi não gostou da resposta.
— E o segundo pedido?
A atmosfera mudou.
A luz branca ficou mais fria.
A deusa parecia ainda mais imponente.
— Libertem minha filha do Abismo.
Jin franziu a testa.
— Sua filha?
Hashi ficou completamente sério.
— Quem é ela?
A deusa não respondeu imediatamente.
Quando finalmente falou, sua voz carregava algo diferente.
Não era apenas autoridade.
Era dor.
— Minha filha está presa no Abismo.
Hashi perguntou:
— O que é o Abismo?
A deusa olhou para o vazio.
— Um lugar onde até os deuses temem entrar.
Jin engoliu em seco.
— Então por que ela está lá?
— Porque alguém a colocou lá.
Hashi estreitou os olhos.
— Quem?
— Ainda não sabemos.
A resposta deixou Hashi inquieto.
— Então você quer que dois humanos que acabaram de morrer enfrentem uma entidade capaz de matar Deuses Primordiais?
— Sim.
Hashi ficou olhando para ela.
— Não.
Jin virou-se para ele.
— Hashi...
— Não.
Hashi encarou a deusa.
— Não vou aceitar.
— Hashi!
— Não sabemos nada sobre Elyndor. Não sabemos quem é esse inimigo. Não sabemos o que são esses apóstolos. Não sabemos o que é o Abismo. E agora você quer que nós arrisquemos nossas vidas por um mundo que nem conhecemos.
Ele apontou para a entidade.
— E ainda por cima libertemos sua filha de um lugar onde até deuses têm medo de entrar?
Silêncio.
— Não.
Hashi cruzou os braços.
— Eu quero voltar para casa.
Jin olhou para ele.
Dessa vez, não fez piada.
A deusa permaneceu imóvel.
Então disse:
— Vocês não podem voltar.
Hashi apertou os punhos.
— Então não peça nada de mim.
Jin olhou para a deusa.
Depois para Hashi.
Por alguns segundos, permaneceu em silêncio.
Então abriu um pequeno sorriso.
— Bom...
Hashi olhou para ele.
— O quê?
Jin deu de ombros.
— Se não podemos voltar...
Ele olhou para o mundo que flutuava diante deles.
— Acho que podemos pelo menos conhecer esse lugar.
Hashi ficou encarando-o.
— Você está aceitando?
— Não exatamente.
Jin sorriu.
— Mas você viu aquele mundo?
— Vi.
— Tem monstros?
— Provavelmente.
— Magia?
— Certamente.
— Espadas?
— Sim.
— Então...
Jin fechou os punhos.
Seu sorriso cresceu.
— Quero ver o quão forte posso ficar.
Hashi suspirou.
— Você realmente não tem jeito.
Jin olhou para ele.
— E você vai comigo.
— Quem disse?
— Eu.
— Não.
— Sim.
— Não.
— Sim.
— Jin...
— Hashi.
Os dois ficaram se encarando.
A deusa observou em silêncio.
Então...
pela primeira vez...
pareceu surgir um pequeno sorriso na luz que escondia seu rosto.
— Talvez os dois Deuses Primordiais tenham escolhido corretamente.
Hashi olhou para ela.
— Não intérprete isso como um sim.
A deusa respondeu:
— Não preciso.
As duas luzes começaram a se aproximar dos jovens.
Hashi sentiu uma energia atravessar seu corpo.
Jin arregalou os olhos.
— O que está acontecendo?
— A bênção está despertando.
A luz vermelha entrou no corpo de Jin.
A outra luz envolveu Hashi.
Por um instante...
os dois ouviram vozes.
Vozes antigas.
Distantes.
Como se viessem de além da própria existência.
E então...
tudo ficou escuro.
A última coisa que Hashi ouviu antes de perder a consciência foi a voz da deusa:
— Sobrevivam.
E, em seguida:
— Protejam Elyndor.
Uma pausa.
— E libertem minha filha do Abismo.
A escuridão os envolveu.
E, pela primeira vez desde que chegaram àquele lugar...
Hashi percebeu uma coisa.
Talvez não houvesse mais caminho de volta.
Talvez aquela fosse sua nova realidade.
E talvez...
o maior erro de sua vida tivesse sido acreditar que compreender o mundo seria suficiente para sobreviver a ele.

Capítulo 3 — Elyndor
O primeiro sentimento foi o vento.
Depois veio o cheiro.
Terra úmida.
Folhas.
Musgo.
Flores.
E algo que Hashi não conseguia identificar.
Ele abriu os olhos lentamente.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel.
A luz atravessava as folhas acima dele, criando manchas douradas sobre seu rosto.
Hashi piscou.
Uma folha caiu sobre seus óculos.
Ele a retirou.
Olhou para os lados.
Silêncio.
— ...
Sentou-se.
— Onde...
Sua voz morreu.
Porque, diante dele, existia uma floresta que simplesmente não deveria existir.
Árvores gigantescas se erguiam em todas as direções. Seus troncos eram tão largos que algumas pareciam maiores que casas. As copas formavam um gigantesco teto verde, mas pequenos espaços permitiam que os raios de sol atravessassem as folhas, criando longos feixes dourados.
Raízes enormes saíam do solo e desapareciam novamente na terra.
Pedras cobertas de musgo espalhavam-se pela floresta.
Flores de cores que Hashi jamais havia visto cresciam próximas às árvores.
Algumas tinham pétalas azuladas que brilhavam levemente.
Outras eram vermelhas como sangue.
Pequenas partículas luminosas flutuavam no ar.
Hashi ficou em silêncio.
Não havia prédios.
Não havia estradas.
Não havia fios elétricos.
Nenhum carro.
Nenhum som de cidade.
Apenas a floresta.
E então...
— HASHI!
Hashi virou rapidamente.
Jin estava alguns metros atrás, caído de costas sobre a vegetação.
— Você está vivo!
— Infelizmente.
Jin levantou os braços.
— EU ESTOU VIVO!
— Eu já entendi.
Jin levantou-se rapidamente.
Olhou ao redor.
Sua expressão mudou.
— ...
Pela primeira vez desde que se conheceram, Jin ficou completamente calado.
Ele olhou para as árvores.
Para as flores.
Para os pequenos insetos luminosos.
Para o céu quase escondido pelas copas.
— Caramba...
Hashi ajeitou os óculos.
— É.
Jin caminhou lentamente.
— Isso é...
Ele tocou o tronco de uma árvore.
— Real?
Hashi se aproximou.
Passou a mão pela casca.
— Parece que sim.
— Então estamos realmente em outro mundo.
— Ao que tudo indica.
Jin abriu um sorriso.
— HASHI!
— O quê?
— A gente conseguiu!
— O que conseguimos?
— Um mundo novo!
Jin abriu os braços.
— Olha isso!
Hashi olhou novamente para a floresta.
Por mais que não quisesse admitir...
era magnífica.
— É impressionante.
Jin olhou para ele.
— Você acabou de admitir que alguma coisa é impressionante?
— Não se acostume.
Jin começou a rir.
— Então esse é Elyndor.
Hashi ficou sério.
A lembrança da deusa voltou imediatamente.
O Mundo Primordial.
O coração de todos os mundos.
Um mundo ameaçado.
Um ser desconhecido.
Apóstolos.
O Abismo.
E a filha da deusa.
— Elyndor...
Hashi murmurou.
Jin colocou as mãos atrás da cabeça.
— Parece que a gente realmente não está mais no Japão.
— Não.
Hashi olhou para o céu.
— E isso significa que precisamos descobrir exatamente onde estamos.
— E comida.
Hashi fechou os olhos.
— Claro.
— Estou falando sério.
— Eu também.
— Estou com fome.
— Você acabou de morrer.
— E?
— Como consegue pensar em comida?
Jin colocou a mão sobre o estômago.
— Meu corpo está me lembrando das minhas prioridades.
Hashi suspirou.
— Vamos procurar água primeiro.
— Depois comida?
— Sim.
— Ótimo.
Jin começou a andar.
Hashi olhou para ele.
— Você nem sabe para onde está indo.
Jin parou.
Olhou para a esquerda.
Depois para a direita.
— Para lá.
Apontou.
Hashi ficou alguns segundos olhando.
— Por quê?
— Instinto.
— Seu instinto acabou de nos mandar para uma parede.
Jin olhou para o enorme tronco diante deles.
— É uma árvore.
— Eu sei.
— Então ainda estou certo.
— Como?
— Estamos em uma floresta. Logo, árvores são uma boa direção.
Hashi levou a mão ao rosto.
— Eu já estou cansado.

Eles caminharam.
Primeiro por uma pequena trilha natural.
Depois por uma região onde as árvores ficavam ainda mais densas.
A floresta parecia não ter fim.
A cada passo, uma nova coisa aparecia.
Pequenos animais corriam entre os arbustos.
Alguns pareciam coelhos.
Outros tinham pequenas escamas nas costas.
Em determinado momento, uma criatura parecida com um pássaro passou voando acima deles.
Suas penas tinham um brilho azul.
Jin apontou.
— Viu aquilo?
— Vi.
— Era um pássaro?
— Provavelmente.
— "Provavelmente"?
Hashi observou o animal desaparecer entre as árvores.
— Tinha quatro asas.
Jin ficou em silêncio.
— Ah.
Continuaram andando.
Depois de mais algum tempo, encontraram um riacho.
A água era cristalina.
Hashi se ajoelhou.
Observou o fluxo.
— Parece limpa.
Jin já estava bebendo.
— Jin!
Ele levantou o rosto.
— O quê?
— Você não sabe se é segura!
— Está boa.
— Isso não é um método científico.
Jin bebeu novamente.
— Então faz o método científico depois.
Hashi suspirou.
Aproximou-se e analisou a água da maneira que conseguia.
Não possuía equipamentos.
Não possuía reagentes.
Não possuía microscópio.
Apenas seu conhecimento.
— Não vejo nada estranho.
— Viu?
— Ainda assim, não significa que seja segura.
— Então vou continuar bebendo.
— Você é um animal.
— Obrigado.
Hashi bebeu um pouco.
A água era fria.
E estranhamente doce.
— Hm.
Jin sorriu.
— Viu?
— Não diga nada.
— Eu sabia.

Algumas horas se passaram.
A fome começou a dominar Jin.
— Hashi.
— O quê?
— Estou morrendo.
— Você já morreu uma vez.
— Estou morrendo novamente.
— Dramático.
— Preciso de comida.
— Estamos procurando.
Jin olhou ao redor.
— Ali!
Ele correu até uma árvore.
Havia frutos pendurados nos galhos.
Eram grandes, redondos e de uma cor roxa intensa.
Jin arrancou um.
Hashi arregalou os olhos.
— Espere!
Jin já havia mordido.
Silêncio.
Hashi observou.
— E então?
Jin mastigou.
— ...
— Jin?
— É bom.
Hashi respirou aliviado.
— Você tem sorte.
Jin arrancou outro.
— Quer?
— Não.
— Mais para mim.
Ele comeu novamente.
— É doce.
— Talvez sejam venenosos.
Jin parou.
— Você precisava dizer isso?
— Sim.
Jin ficou olhando para o fruto.
— Eu já comi três.
Hashi cruzou os braços.
— Então vamos descobrir.
— Descobrir o quê?
— Se você morre.
Jin ficou sério.
— Você é um péssimo amigo.
— Estou brincando.
— Não pareceu.
Jin comeu outro.
— Se eu morrer, pelo menos morro alimentado.
Hashi não respondeu.
Continuaram andando.
Jin comeu frutas de cores diferentes durante o caminho.
Algumas eram azuis.
Outras amarelas.
Uma delas tinha pequenas marcas que pareciam olhos.
Hashi proibiu Jin de tocar nela.
— Essa você não come.
— Por quê?
— Porque ela está olhando para você.
Jin olhou para o fruto.
O fruto pareceu se mexer.
Jin deu dois passos para trás.
— ...
— Exatamente.
— Vamos embora.
— Finalmente uma decisão inteligente.

A passagem do tempo era difícil de perceber naquele lugar.
O sol atravessava as copas lentamente.
As sombras mudavam de posição.
A floresta parecia diferente quando o dia começou a morrer.
O verde ganhou tons dourados.
Depois laranjas.
O céu ficou avermelhado.
Jin caminhava mais devagar.
— Quanto tempo já passou?
Hashi olhou para o céu.
— Quase um dia.
— Um dia?
— Mais ou menos.
Jin parou.
— Então estamos andando há quase um dia?
— Sim.
— E não encontramos ninguém?
— Não.
Jin olhou ao redor.
— Isso é ruim.
Hashi assentiu.
— Muito.
O silêncio entre os dois durou alguns segundos.
Então Jin apontou para frente.
— Espera.
Hashi olhou.
Entre as árvores, havia luz.
Não era a luz do sol.
Eram pequenas luzes amarelas.
— Aquilo...
Hashi estreitou os olhos.
— Parece uma vila.
Jin abriu um sorriso.
— COMIDA!
— Primeiro abrigo.
— Depois comida.
— Primeiro informações.
— Depois comida.
— Jin.
— Comida.
Hashi suspirou.
— Vamos.

A pequena vila estava localizada em uma clareira.
Era cercada por uma cerca de madeira simples.
Havia casas pequenas feitas de madeira e pedra.
Algumas tinham telhados cobertos por palha.
Havia uma pequena praça no centro.
Uma fonte.
Uma plantação.
E uma construção maior que as demais.
Quando Hashi e Jin se aproximaram, alguns aldeões imediatamente perceberam sua presença.
Pessoas começaram a sair das casas.
Alguns carregavam ferramentas.
Outros seguravam lanças improvisadas.
Jin levantou as mãos.
— Calma!
Hashi colocou a mão em seu ombro.
— Deixe comigo.
Jin piscou.
Hashi deu um passo à frente.
— Não queremos problemas.
Um homem mais velho aproximou-se.
Tinha cabelos grisalhos e uma expressão desconfiada.
— Quem são vocês?
Hashi respirou fundo.
Era a primeira conversa real que teria naquele mundo.
— Meu nome é Hashi Kazekaya.
Apontou para Jin.
— Este é Jin Takamura.
O homem observou as roupas dos dois.
— Não são daqui.
Hashi respondeu:
— Não.
— De onde vieram?
Hashi hesitou.
Não podia simplesmente dizer que eram japoneses.
Seria inútil.
— De terras muito distantes.
O homem estreitou os olhos.
— Quão distantes?
— Distantes o suficiente para não sabermos como voltar.
Jin acrescentou:
— Muito distantes.
Hashi olhou para ele.
— Obrigado pela contribuição.
— Disponha.
Alguns aldeões começaram a cochichar.
O homem mais velho permaneceu olhando para Hashi.
— O que aconteceu?
Hashi decidiu não mentir completamente.
— Nos perdemos.
— Na floresta?
— Sim.
— Há quanto tempo?
— Não sabemos exatamente.
O homem observou os dois novamente.
Depois olhou para o céu escurecendo.
— Vocês não podem continuar na floresta durante a noite.
Hashi percebeu a oportunidade.
— Podemos passar a noite aqui?
O homem ficou em silêncio.
Alguns aldeões pareciam desconfiados.
Então ele assentiu.
— Sou o chefe desta vila. Podem ficar.
Hashi inclinou a cabeça.
— Obrigado.
Jin abriu um sorriso.
— E tem comida?
Hashi fechou os olhos.
O chefe olhou para Jin.
Depois para Hashi.
— Seu amigo é sempre assim?
Hashi respondeu imediatamente:
— Infelizmente.

A vila ofereceu comida.
Para Jin, aquilo foi praticamente uma experiência religiosa.
Ele devorou o prato diante dele.
— Isso está incrível!
A filha do chefe, uma jovem adulta chamada Mira, observava Jin com diversão.
— Você realmente estava com fome.
Jin apontou para o prato.
— Eu estava há quase um dia sem comer direito.
— E essas frutas?
— Elas eram pequenas.
Mira riu.
— Você comeu seis.
— Pequenas.
Hashi conversava com o chefe da vila.
O homem se chamava Eldran.
Era um homem experiente, de fala calma.
— Se realmente vieram de terras distantes, precisam tomar cuidado — explicou Eldran.
Hashi estava atento.
— Por quê?
— A floresta não é segura.
— Existem monstros?
Eldran assentiu.
— Alguns.
— Quão perigosos?
— Depende da região.
Hashi começou a fazer perguntas.
Sobre cidades.
Reinos.
Moedas.
Magia.
Raças.
Estradas.
Criaturas.
Eldran respondeu o que sabia.
Hashi percebeu rapidamente que o mundo era muito maior do que imaginava.
Havia reis.
Impérios.
Guildas.
Cavaleiros.
Magos.
Igrejas.
E criaturas que ele sequer conseguiria explicar cientificamente.
— Então magia realmente existe?
Eldran o encarou.
— Claro.
Hashi ficou pensativo.
— E qualquer pessoa pode usar?
— Não.
— Por quê?
— Alguns nascem com mais afinidade que outros.
Hashi olhou para as próprias mãos.
A lembrança da bênção voltou.
Talvez eu tenha recebido alguma coisa.
Mas ainda não sabia como descobrir.
Jin, por outro lado, parecia estar se divertindo.
Mira havia se sentado próxima a ele.
— Então você realmente não sabe usar magia?
— Nada.
— E luta?
Jin sorriu.
— Isso eu sei.
— Muito?
— Bastante.
— Você parece convencido.
— Eu sou convencido.
Mira riu.
— Pelo menos é honesto.
Hashi observou os dois de longe.
Algo dentro dele dizia que aquilo não terminaria bem.

A noite avançou.
A vila ficou silenciosa.
Hashi recebeu um pequeno quarto para dormir.
Jin deveria ter ficado no outro.
Deveria.
Mas, durante a noite, enquanto Hashi estava tentando organizar mentalmente tudo o que havia descoberto sobre Elyndor, ouviu passos no corredor.
Depois ouviu Jin rindo.
Hashi fechou os olhos.
— Não...
Silêncio.
— Não faça isso, Jin.
Mais risadas.
Hashi abriu a porta.
— Jin?
Nada.
Ele olhou para o corredor.
— Jin?
A voz veio de outro cômodo.
— Estou ocupado!
Hashi ficou imóvel.
— Ocupado com o quê?
— Conversando.
Hashi respirou fundo.
— Com quem?
— Mira.
Hashi ficou olhando para a porta fechada.
— Claro.
Voltou para o quarto.
— Isso vai dar problema.
E deu.
Horas depois, quando a noite já estava chegando ao fim, Jin acabou dormindo no quarto de Mira.
Nada precisava ser explicado além disso.
Jin havia encontrado uma bela mulher, tinha passado a noite conversando e flertando com ela e, como sempre, havia levado as coisas longe demais.

Na manhã seguinte...
O sol mal havia surgido.
Eldran caminhava pela vila quando parou diante de uma porta.
Abriu.
Parou.
Seu rosto ficou completamente vermelho.
— MIRA!
O grito acordou metade da vila.
Jin abriu os olhos.
— Hm...
Mira acordou assustada.
— Pai?!
Eldran apontou para Jin.
— VOCÊ!
Jin piscou.
— Bom dia?
— FORA!
— O quê?
— FORA DA MINHA VILA!
Jin levantou rapidamente.
— Calma!
Hashi apareceu alguns segundos depois.
Ainda sonolento.
— O que aconteceu?
Eldran apontou para Jin.
— SEU AMIGO!
Hashi olhou para Jin.
Depois para Mira.
Depois para Eldran.
Ficou em silêncio.
Por fim...
— Jin.
— Sim?
— O que você fez?
— Nada demais.
Hashi levou a mão ao rosto.
— Eu sabia.
Eldran apontou para a estrada.
— Vocês dois estão expulsos!
Hashi arregalou os olhos.
— O quê?!
— Vocês têm até o nascer completo do sol para sair!
— Mas eu não fiz nada!
— Seu amigo fez!
Hashi virou lentamente para Jin.
— Você não consegue passar nem uma noite sem arrumar problemas?
Jin vestiu a camisa.
— Eu fiz amizade.
— Você dormiu com a filha do chefe!
— Isso também é uma forma de amizade.
— NÃO!
Mira, escondida atrás do pai, tentou conter o riso.
Hashi apontou para Jin.
— Você destruiu nossa única chance de conseguir informações e abrigo!
— Ainda conseguimos comida.
Hashi ficou em silêncio.
— ...
Jin sorriu.
— Viu?
— Isso não ajuda.
Eldran gritou:
— FORA!
Hashi respirou fundo.
Pegou seus poucos pertences.
Olhou para a vila.
— Desculpe por isso.
Eldran respondeu:
— Você parece ser o responsável.
Hashi apontou para Jin.
— Eu tentei.
Jin colocou as mãos atrás da cabeça.
— Foi uma boa noite.
— Cala a boca.
Os dois começaram a caminhar para fora da vila.
Jin olhou para trás.
— Até mais, Mira!
— Jin! — gritou Hashi.
— O quê?
— Continue andando.
— Estou andando.
— Mais rápido.
— Está com raiva?
Hashi olhou para ele.
— Jin...
— Sim?
— Estamos em outro mundo.
— Eu sei.
— Não sabemos onde estamos.
— Eu sei.
— Não temos dinheiro.
— Ainda.
— Não temos abrigo.
— Por enquanto.
— Não sabemos se existem monstros por perto.
— Provavelmente existem.
Hashi parou.
Respirou fundo.
— E você conseguiu ser expulso da primeira vila que encontramos em menos de vinte e quatro horas.
Jin ficou pensando.
— É um recorde?
Hashi ficou alguns segundos em silêncio.
Então continuou andando.
— Eu odeio você.
Jin abriu um sorriso.
— Você diz isso muito.
— Porque você me dá muitos motivos.
Os dois desapareceram pela estrada.
Atrás deles, a pequena vila voltava lentamente à rotina.
À frente...
uma floresta gigantesca esperava.

Capítulo 4 — Quem é Você?
O sol já começava a desaparecer atrás das árvores quando Hashi e Jin deixaram a estrada próxima à vila.
Durante algum tempo, nenhum dos dois falou.
A floresta novamente os cercava por todos os lados.
O som dos pássaros havia diminuído, e as sombras das árvores se alongavam sobre o caminho.
Jin caminhava com as mãos atrás da cabeça.
Hashi, por outro lado, parecia completamente perdido em pensamentos.
Até que Jin quebrou o silêncio.
— Então...
Hashi continuou andando.
— Hm?
— Sobre aquela deusa.
Hashi olhou de lado.
— O que tem ela?
— Ela pediu duas coisas.
— Sim.
— Salvar esse mundo...
— Elyndor.
— Isso.
Jin chutou uma pequena pedra.
— E libertar a filha dela do tal Abismo.
Hashi ficou sério.
— Sim.
— Você acredita nela?
— Não completamente.
— Mas ela parecia estar falando sério.
— Isso não significa que esteja dizendo toda a verdade.
Jin pensou por alguns segundos.
— Você acha que ela está mentindo?
— Não.
Hashi ajustou os óculos.
— Acho que ela está escondendo alguma coisa.
Jin sorriu.
— Sabia.
— Você nem tinha pensado nisso.
— Mas concordei.
— Isso não significa nada.
Jin continuou caminhando.
— E aquele cara que está destruindo Elyndor?
— Também não sabemos quem é.
— E os apóstolos?
— Não sabemos.
— E a filha dela?
— Não sabemos.
— E os outros deuses?
— Mortos.
Jin ficou quieto.
— Então sabemos quase nada.
Hashi suspirou.
— Exatamente.
Ele olhou para o céu.
— E isso é o que mais me incomoda.
— Por quê?
— Porque estamos em um mundo completamente desconhecido, sem dinheiro, sem abrigo, sem comida...
Jin colocou a mão sobre o estômago.
— Principalmente sem comida.
— ...e aparentemente somos importantes para algo que envolve a sobrevivência de milhões de mundos.
Jin abriu um sorriso.
— Quando você fala assim, parece importante.
— Não é hora de brincar.
— Eu sei.
Jin ficou alguns segundos em silêncio.
Então acrescentou:
— Mas eu ainda estou com fome.
Hashi fechou os olhos.
— Eu sabia.
O sol desapareceu completamente.
A floresta ficou escura.
Hashi olhou ao redor.
— Precisamos encontrar abrigo.
— E comida.
— Abrigo.
— Comida.
— Abrigo.
— Comida.
— Jin.
— Hashi.
— Se aparecer um monstro agora, eu vou usar você como isca.
Jin sorriu.
— Pelo menos você pensou em uma estratégia.
— Não era brincadeira.
— Isso é preocupante.

O primeiro poder
Depois de alguns minutos procurando, encontraram uma pequena clareira protegida por grandes raízes.
Não era exatamente um abrigo.
Mas poderia servir.
Jin largou a mochila improvisada que carregava.
— Aqui.
Hashi olhou ao redor.
— Não é perfeito.
— Não precisamos de perfeito.
Jin se sentou.
— Precisamos de comida.
Hashi ignorou.
Começou a procurar madeira seca.
— Precisamos de uma fogueira.
— Finalmente algo em que concordamos.
Os dois juntaram alguns galhos.
Hashi colocou a madeira no centro da clareira.
Depois ficou olhando para ela.
— Certo.
— O quê?
— Precisamos de fogo.
Jin olhou para os gravetos.
— Você sabe fazer?
Hashi ficou em silêncio.
— Não.
— Ótimo.
— Mas...
Hashi olhou para as próprias mãos.
— Talvez eu consiga.
Jin inclinou a cabeça.
— Como?
Hashi não respondeu imediatamente.
A lembrança da deusa voltou.
Uma bênção para cada um de vocês.
Ele olhou para as mãos.
— Magia.
Jin abriu um sorriso.
— Ah.
— O quê?
— Você é mago.
— A deusa disse que recebemos uma bênção.
— Então faz magia.
Hashi encarou-o.
— Não é assim que funciona.
— Você sabe disso?
— Não.
— Então tenta.
Hashi respirou fundo.
Estendeu a mão em direção à madeira.
— Certo.
Fechou os olhos.
Tentou imaginar fogo.
Nada.
— ...
Abriu os olhos.
Tentou novamente.
Nada.
— Talvez eu precise de uma palavra.
Jin imediatamente respondeu:
— Fogo!
Nada aconteceu.
— Não funcionou.
— Porque eu falei.
Hashi suspirou.
— Eu estava tentando descobrir sozinho.
— Você pensa demais.
— E você pensa de menos.
Hashi tentou novamente.
Concentrou-se.
Tentou imaginar energia.
Calor.
Uma chama.
Nada.
Cinco minutos.
Dez.
Nada.
Jin estava sentado, observando.
— Você sabe que pode admitir que não consegue.
Hashi olhou para ele.
— Eu não aceito não conseguir.
— Isso explica muita coisa.
Hashi voltou a fechar os olhos.
O que é magia?
Ele começou a pensar.
Energia.
Mana.
A deusa falou sobre bênção.
Se existe uma energia dentro de mim... como eu a uso?
Tentou senti-la.
Nada.
Tentou concentrar a respiração.
Nada.
Tentou mover a energia para os braços.
Nada.
Até que desistiu temporariamente.
— Não consigo.
Jin apontou para a própria mão.
— Talvez seja mais fácil assim.
Hashi olhou.
Jin havia colocado dois dedos sobre um pequeno galho.
— O que você está fazendo?
— Não sei.
Uma pequena faísca apareceu.
Hashi arregalou os olhos.
— Espere.
Jin também olhou.
— Hã?
Uma pequena chama surgiu na ponta de seus dedos.
Era minúscula.
Instável.
Mas era fogo.
Jin arregalou os olhos.
— ...
Hashi se aproximou imediatamente.
— Não se mexa.
— Eu não estou me mexendo.
— Você produziu fogo.
— Eu produzi fogo!
Jin começou a rir.
— HAHAHAHA!
Hashi segurou o pulso dele.
— Concentre-se!
— Estou tentando!
A pequena chama aumentou.
Jin aproximou os dedos dos galhos.
A chama tocou a madeira.
Primeiro uma pequena fumaça.
Depois uma faísca.
Então...
fogo.
A madeira começou a queimar.
Jin abriu um sorriso enorme.
— EU TENHO MAGIA!
Hashi ficou completamente imóvel.
Seus olhos estavam fixos na chama.
— Não...
— O quê?
— Não é apenas magia.
— Como assim?
Hashi se ajoelhou diante da fogueira.
Observava o fogo como se fosse uma descoberta científica.
— Eu tentei diversas vezes.
— E?
— Nada aconteceu.
— E comigo aconteceu.
Hashi olhou para Jin.
— Você não tentou.
Jin piscou.
— E daí?
— Você simplesmente fez.
Jin olhou para os dedos.
A chama desapareceu.
— Então...
— Sua bênção despertou primeiro.
Jin sorriu.
— Isso significa que sou especial?
— Não.
— Você estragou o momento.
Hashi continuou pensando.
Por que ele conseguiu?
O que ativou o poder?
Intenção? Instinto? Emoção?
Sua mente começou a trabalhar.
E continuou.
E continuou.
Até Jin perceber que Hashi havia parado de responder.
— Hashi?
Nada.
— Hashi?
Nada.
— HASHI!
Hashi piscou.
— O quê?
— Você ficou olhando para o fogo durante cinco minutos.
— Estou pensando.
— Sobre?
— Como fazer isso.
Jin apontou para a fogueira.
— É só pensar em fogo.
— Você fez isso sem pensar.
— Então pensa sem pensar.
Hashi olhou para ele.
— Isso não faz sentido.
— Para mim funcionou.
Hashi ficou em silêncio.
— Talvez esse seja o problema.
A noite passou.
Os dois dividiram as poucas frutas que ainda tinham.
Jin reclamou da falta de carne.
Hashi reclamou das reclamações de Jin.
No fim, ambos dormiram próximos à fogueira.
Pela primeira vez desde que chegaram a Elyndor, tiveram algumas horas de tranquilidade.
Mas Hashi dormiu pensando em uma única coisa.
Mana.
Bênção.
Magia.
O que exatamente existe dentro de mim?
O amanhecer chegou.
Os dois deixaram a clareira assim que o sol apareceu.
A prioridade era encontrar pessoas.
Uma cidade.
Uma estrada.
Qualquer sinal de civilização.
— Se encontrarmos outra vila... Jin falou enquanto caminhava.
— Não faça nada. Hashi completou.
— Por quê?
— Porque você provavelmente vai destruir nossa chance de ficar lá.
— Eu só fiz uma amizade.
— Você dormiu com a filha do chefe.
— Uma amizade muito próxima.
— Jin.
— Está bem.
Hashi continuou andando.
— Precisamos encontrar pessoas e conseguir informações.
— E comida.
— Sim.
— E talvez uma espada
Hashi olhou para as duas lâminas que Jin carregava desde a vila presas à cintura.
— Você já tem duas.
— Quero uma terceira.
— Por quê?
— Porque duas é pouco.
— Essa é sua lógica?
— É.
Hashi suspirou.
Então parou.
— Espera.
Jin também parou.
— O quê?
Hashi olhou para a floresta.
— Você ouviu?
Jin ficou sério.
— Sim.
Um pequeno ruído.
Folhas se mexendo.
Galhos quebrando.
Jin lentamente colocou a mão sobre uma das espadas.
— Tem alguém ali.
Hashi recuou um passo.
— Um animal?
— Não.
O instinto de Jin estava gritando.
— Alguma coisa está nos observando.
Um vulto surgiu entre as árvores.
Pequeno.
Pele esverdeada.
Olhos grandes.
Dentes afiados.
Carregava uma lâmina rudimentar.
Hashi arregalou os olhos.
— Goblin...
A criatura rosnou.
E atacou.
— HASHI!
Jin avançou.
A lâmina do goblin veio em direção ao pescoço de Hashi.
Jin entrou na frente.
CLANG!
A espada de Jin bloqueou o golpe.
Mas o goblin era mais rápido do que parecia.
A criatura girou.
Sua segunda lâmina cortou o lado do abdômen de Jin.
— Ghh!
Sangue.
Jin recuou.
— Jin!
O goblin avançou novamente.
Jin conseguiu bloquear.
— HASHI!
— Estou vendo!
— Então faz alguma coisa!
— Estou tentando pensar!
— PENSA MAIS RÁPIDO!
O goblin atacou.
Jin desviou.
Tentou contra-atacar.
Acertou a criatura.
O goblin caiu alguns metros.
Mas levantou novamente.
— Isso não é normal.
Hashi observou.
O goblin era pequeno.
Mas extremamente agressivo.
Seus movimentos eram rápidos.
Imprevisíveis.
Hashi começou a analisar.
Ele não é mais forte que Jin.
Mas é mais rápido.
E está tentando atacar sempre o mesmo lado.
O goblin avançou.
Jin bloqueou.
Hashi percebeu.
Ele não está lutando para matar.
Está tentando separar nós dois.
— Jin! À esquerda!
Jin desviou.
A lâmina passou perto de seu rosto.
— Entendi!
— Não ataque diretamente!
— Por quê?
— Ele está esperando isso!
Jin sorriu.
— Finalmente posso dizer isso.
— O quê?
— Confio em você!
Jin avançou.
O goblin esperou.
Exatamente como Hashi havia previsto.
— Agora!
Jin fingiu atacar pela direita.
O goblin desviou.
Jin girou.
Acertou um chute.
A criatura caiu.
Hashi correu até ela.
O goblin levantou a cabeça.
Seus olhos encontraram os de Hashi.
Ele avançou.
Hashi congelou.
Merda.
Não havia tempo.
Instintivamente, levantou a mão.
Algo explodiu dentro dele.
Uma energia invisível atingiu o goblin.
BOOM!
A criatura foi lançada vários metros para trás.
Bateu contra uma árvore.
Caiu no chão.
Silêncio.
Hashi olhou para a própria mão.
— ...
Jin ficou olhando.
— Hashi?
— Eu...
Hashi respirava rapidamente.
— Eu fiz isso?
A energia ainda parecia vibrar em seus dedos.
— Eu não sei como.
Jin abriu um sorriso.
— Então você também tem magia.
Hashi encarou o goblin.
— Não é exatamente magia.
— É o quê?
— Não sei.
O goblin começou a se mexer.
Jin perdeu o sorriso.
— Acho que ele ainda está vivo.
Hashi olhou.
— Então vamos embora.
Um som surgiu atrás deles.
Depois outro.
Depois outro.
Jin lentamente virou a cabeça.
Seus olhos se arregalaram.
— Hashi...
— O que foi?
— Temos um problema.
Entre as árvores...
mais goblins surgiram.
Um.
Dois.
Três.
Cinco.
Dez.
Hashi ficou imóvel.
— ...
Jin segurou a espada.
— Dez contra dois.
Hashi olhou para ele.
— Você está ferido.
— Eu sei.
— E ainda quer lutar?
Jin sorriu.
— Você conhece a resposta.
— Eu odeio essa resposta.
Os goblins cercaram os dois.
Jin ficou de costas para Hashi.
— Fica atrás de mim.
— Não.
— Hashi.
— Você está sangrando.
— E você acabou de descobrir que consegue lançar pessoas longe.
Hashi olhou para as próprias mãos.
— Não sei repetir aquilo.
— Então descubra rápido.
O primeiro goblin atacou.
Jin bloqueou.
Outro veio pela lateral.
Jin desviou.
Um terceiro acertou sua perna.
— Ghh!
Jin caiu sobre um joelho.
Hashi estendeu a mão.
— Sai de perto dele!
Uma descarga de energia atingiu dois goblins.
Eles recuaram.
Mas Hashi cambaleou.
— Merda...
Isso consome energia.
Jin percebeu.
— Não use demais!
— Eu sei!
— Você está ficando pálido!
— EU SEI!
Os goblins avançaram novamente.
Jin atacou.
Uma espada.
Depois outra.
Ele derrubou um.
Depois dois.
Mas eram muitos.
Uma lâmina cortou seu ombro.
Outra atingiu sua perna.
Sangue começou a escorrer.
— JIN!
— Estou bem!
— Você não está!
— Estou quase bem!
Um goblin acertou Jin pelas costas.
Ele caiu.
Hashi tentou usar novamente aquela energia.
Nada.
— Vamos...
Estendeu a mão.
Nada.
— Vamos!
Outra tentativa.
Nada.
O goblin avançou.
Hashi se colocou na frente de Jin.
— Não...
Ele respirava pesadamente.
— Não vou deixar...
Um goblin levantou a lâmina.
Hashi fechou os olhos.
Então...
TCHAK!
Uma flecha atravessou a cabeça da criatura.
O corpo caiu.
Hashi abriu os olhos.
Jin também.
Outra flecha surgiu.
TCHAK!
Outro goblin caiu.
Depois outra.
TCHAK!
Mais um.
Os goblins começaram a olhar ao redor.
— De onde estão vindo?
Hashi perguntou.
Jin sorriu.
— Não sei.
Outra flecha.
Outro goblin caiu.
Uma após outra.
Os dez goblins começaram a desaparecer.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
O restante tentou fugir.
As flechas os alcançaram.
Silêncio.
A floresta ficou novamente quieta.
Então...
passos.
Uma figura surgiu entre as árvores.
Era uma mulher.
Ou...
algo muito próximo disso.
Possuía cabelos longos e traços humanos.
Mas havia orelhas de raposa sobre a cabeça.
Uma cauda grande e peluda se movia lentamente atrás dela.
Seus olhos eram afiados.
Vestia uma armadura leve, adequada para movimentação rápida.
Em uma das mãos carregava um arco.
Ela olhou para os cadáveres.
Depois para Jin.
Depois para Hashi.
Seu olhar finalmente parou nos dois humanos.
Desprezo.
Frieza.
Nenhuma palavra.
Hashi tentou se levantar.
— Você...
A mulher não respondeu.
Hashi respirou fundo.
— Obrigado pela ajuda.
Nada.
Ela continuou olhando.
— Você consegue nos entender?
Silêncio.
Hashi franziu a testa.
— Certo...
Ele olhou para Jin.
— Talvez ela não fale nossa língua.
Jin estava caído no chão.
Mesmo ferido, começou a rir.
— Hahahaha...
Hashi olhou para ele.
— O que foi?
— Você...
Jin tentou controlar a dor.
— Você está tentando conversar com uma mulher-raposa como se estivesse fazendo uma entrevista.
— É uma situação inesperada.
— Eu gostei.
Hashi voltou a olhar para a mulher.
— Quem é você?
Nenhuma resposta.
Hashi deu um passo.
— Nós não queremos problemas.
Ainda nada.
— Só precisamos encontrar uma cidade.
Nada.
Hashi começou a ficar irritado.
— Você poderia pelo menos responder?
A mulher continuou imóvel.
Hashi deu mais um passo.
— Eu estou falando com você.
Uma lâmina surgiu em seu pescoço.
Hashi congelou.
Ele lentamente virou os olhos para o lado.
Um homem estava atrás dele.
Ou...
algo semelhante a um homem.
Corpo humanoide.
Pelagem escura.
Rosto lupino.
Olhos dourados.
Uma espada encostava diretamente no pescoço de Hashi.
Hashi ficou imóvel.
— ...
Jin olhou para a cena.
E começou a rir ainda mais.
— Hahahahahaha!
O homem-lobo olhou para ele.
— O que há de engraçado?
Jin respirou fundo, sentindo a dor.
— Nada...
Ele sorriu.
— Só estou pensando que a gente chegou nesse mundo há poucos dias e já estamos sendo cercados por uma mulher-raposa e um cara-lobo.
Mais figuras começaram a surgir entre as árvores.
Uma.
Duas.
Cinco.
Dez.
Diferentes formas.
Orelhas de animais.
Caudas.
Presas.
Garras.
Armaduras.
Arcos.
Espadas.
Machados.
Uma verdadeira pequena tropa de semi-humanos.
Hashi percebeu.
Estamos cercados.
O homem-lobo aproximou a lâmina ainda mais.
— Vocês vêm conosco.
Hashi engoliu em seco.
— E se recusarmos?
O homem-lobo estreitou os olhos.
— Não é um pedido.
Jin continuava sorrindo.
— Hashi...
— O quê?
— Acho que encontramos pessoas.
Hashi olhou ao redor.
— Tecnicamente...
Ele suspirou.
— ...sim.
Jin fechou os olhos.
— Ótimo.
O homem-lobo franziu a testa.
— O que é "ótimo"?
Jin abriu um sorriso.
— Significa que finalmente podemos fazer algumas perguntas.
Hashi olhou para ele.
— Você está esquecendo que Estou com uma espada no pescoço.
— Detalhes.
A mulher-raposa finalmente desviou o olhar de Jin e encarou Hashi.
Pela primeira vez...
seus olhos demonstraram algo além de desprezo.
Desconfiança.
E talvez...
curiosidade.
Mas ela continuou em silêncio.
O homem-lobo guardou a espada.
— Levem os dois.
Hashi olhou para Jin.
Jin olhou para Hashi.
E então...
os dois começaram a ser conduzidos para dentro da floresta.
Sem saber quem eram aquelas criaturas.
Sem saber para onde estavam indo.

Capítulo 5 — Vamos Começar
A primeira coisa que Hashi percebeu foi que estava sendo observado.
Não era apenas uma pessoa.
Eram dezenas.
Olhos de diferentes cores o acompanhavam de todos os lados.
Havia orelhas pontudas, focinhos, presas, chifres, caudas e pelagens de diferentes tonalidades.
A vila dos semi-humanos era maior do que imaginavam...
As casas de madeira e pedra se espalhavam entre enormes árvores, conectadas por pequenas ruas de terra. Havia crianças correndo, guerreiros carregando armas e moradores trabalhando normalmente.
Mas, quando Hashi e Jin entraram...
o movimento simplesmente parou.
Um silêncio desconfortável tomou conta da vila.
Jin, ainda ferido, caminhava apoiado em um dos próprios braços.
— Eles estão olhando muito.
Hashi respondeu sem mover os lábios:
— Porque estamos cercados por dezenas de criaturas que provavelmente nunca viram humanos antes.
— Ah.
Jin olhou para uma criança com orelhas de gato.
A criança se escondeu atrás da mãe.
— Ela parece gostar de mim.
— Ela está com medo de você.
— É praticamente a mesma coisa.
— Não é.
À frente deles caminhava a mulher-raposa.
Shiori.
Ela não havia dito uma única palavra desde que os encontraram.
Ao lado dela estava uma mulher-lobo.
Zayra.
Diferente de Shiori, Zayra não escondia sua hostilidade.
Seus olhos estavam constantemente sobre os dois.
Principalmente sobre Jin.
Finalmente chegaram à praça central.
Um homem muito velho aguardava sentado em uma grande cadeira de madeira.
Seu corpo possuía características semelhantes às de um macaco.
Pelagem grisalha cobria parte de seu rosto e braços, seus cabelos eram longos e brancos, e seus olhos, apesar da idade, eram extremamente atentos.
Ele carregava um cajado antigo.
Quando Shiori se aproximou, inclinou levemente a cabeça.
— Guren.
O ancião levantou os olhos.
— Então são eles.
Hashi estreitou os olhos.
— "Eles"?
Guren olhou diretamente para ele.
Por alguns segundos, não disse nada.
Então sorriu.
— Finalmente.
Hashi franziu a testa.
— Finalmente?
Shiori deu um passo à frente.
— Ancião, eles são humanos.
Guren assentiu.
— Eu sei.
— Então sabe o que isso significa.
A voz dela carregava desprezo.
Guren suspirou.
— Shiori.
— Humanos não são bem-vindos aqui.
Jin levantou a mão.
— Tecnicamente, nós não pedimos para vir.
Shiori olhou para ele.
Jin sorriu.
— Só estou esclarecendo.
Zayra colocou a mão sobre a espada.
— Cale-se.
Jin apontou para ela.
— Essa fala foi pra mim?
— Sim.
— Gostei dela.
Hashi segurou Jin pelo ombro.
— Pare de provocar as pessoas que estão segurando armas.
— Eu só estou sendo simpático.
— Você não sabe o significado dessa palavra.
Guren soltou uma risada baixa.
— Vocês são exatamente como me disseram.
Hashi imediatamente ficou sério.
— Quem disse?
O ancião não respondeu.
Shiori insistiu:
— Guren.
— Já chega.
A voz do velho mudou.
Ainda era calma.
Mas tinha autoridade.
Todos os guerreiros próximos ficaram imóveis.
— Eles ficarão.
Shiori arregalou os olhos.
— Ancião!
— Eu disse que ficarão.
— Mas são humanos!
— E estão sob minha proteção.
Shiori apertou os dentes.
— Não concordo.
— Não pedi sua concordância.
O silêncio voltou.
Guren olhou para Hashi.
— Vocês estão feridos, cansados e famintos.
Jin levantou a mão.
— Principalmente faminto.
Hashi suspirou.
— Ele está certo nessa parte.
Guren sorriu.
— Então primeiro vocês vão comer.
Jin abriu um sorriso.
— Eu gostei desse homem.
Hashi murmurou:
— Claro que gostou.
Os dois foram levados para uma das casas maiores da vila.
Pouco tempo depois, uma mesa estava completamente coberta de comida.
Carne assada.
Pães.
Frutas.
Sopas.
Legumes.
E algo que parecia uma espécie de ensopado extremamente aromático.
Jin olhou para a mesa.
Seus olhos brilharam.
— Isso tudo é nosso?
Uma mulher serviu mais comida.
— Sim.
Jin sentou-se.
— Eu amo esse lugar.
Hashi começou a rir.
— Você não aprende.
Jin já estava comendo.
— Não preciso aprender.
Guren observava os dois do outro lado da mesa.
Hashi percebeu.
— O senhor sabe quem somos.
Guren assentiu.
— Sei o suficiente.
— Então sabe de onde viemos?
— Sim.
Hashi parou de comer.
— Como?
Guren tomou um gole de chá.
— Os espíritos ancestrais me avisaram.
Jin parou de mastigar.
— Espíritos?
— Os espíritos que habitam esta terra há muito mais tempo que qualquer reino.
Hashi ficou atento.
— Eles disseram que nós viríamos?
— Sim.
— E disseram por quê?
Guren olhou para ele.
— Porque vocês possuem uma missão.
Hashi ficou em silêncio.
Jin voltou a comer.
— Eles disseram que eu sou importante?
— Sim.
Jin abriu um sorriso.
— Sabia.
Hashi olhou para ele.
— Você ouviu metade da conversa.
— A metade importante.
Guren riu.
— Não mudaram nada do que me foi descrito.
Hashi estreitou os olhos.
— O que exatamente disseram sobre nós?
Guren apenas respondeu:
— Que eu deveria guiá-los no início de sua jornada.
Hashi ficou completamente sério.
— Então a deusa não estava mentindo.
Guren ergueu uma sobrancelha.
— Deusa?
Hashi percebeu o erro.
— ...
Guren sorriu.
— Interessante.

Depois da refeição, Jin foi levado para receber tratamento.
Uma jovem semi-humana entrou no quarto.
Tinha longas orelhas de coelho, cabelos claros e uma expressão extremamente gentil.
Ela carregava uma bolsa cheia de ervas e pequenos frascos.
— Sou uma sacerdotisa.
Jin olhou para ela.
— Uma sacerdotisa coelha?
Ela sorriu.
— Sim.
— Posso ser atendido por você todos os dias?
Ela ficou sem graça.
— Eu...
Jin sorriu.
— Porque acho que meu ferimento está piorando.
— Seu ferimento não está piorando.
— Tem certeza?
— Sim.
— Então talvez seja meu coração.
A sacerdotisa ficou vermelha.
Hashi, parado perto da porta, fechou os olhos.
— Eu sabia.
A mulher começou a aplicar magia sobre os ferimentos.
Uma luz suave envolveu o corpo de Jin.
Os cortes começaram a fechar.
Jin arregalou os olhos.
— Isso é incrível.
— Magia de cura.
— Você pode curar qualquer coisa?
— Nem tudo.
— E coração partido?
— O quê?
— Nada.
Hashi saiu do quarto.
— Eu não vou assistir isso.
Alguns minutos depois, a porta abriu.
Zayra estava do lado de fora.
— Terminou?
A sacerdotisa assentiu.
Jin saiu sorrindo.
— Ela é muito gentil.
Zayra olhou para ele.
— Você estava dando em cima dela.
— Eu estava agradecendo.
— Você chamou ela de linda.
— Agradecimento avançado.
Zayra fechou a mão.
— Eu vou te dar um motivo para agradecer.
Jin deu um passo para trás.
— Calma...
PÁ!
Um tapa acertou o rosto dele.
Jin caiu sentado.
Hashi, que voltava pelo corredor, parou.
Olhou para Jin.
Depois para Zayra.
— O que aconteceu?
Jin colocou a mão no rosto.
— Fui atacado.
Zayra respondeu:
— Foi uma advertência.
Hashi assentiu.
— Merecida.
— Traidor!
Na manhã seguinte, Guren levou os dois para uma área aberta da vila.
Hashi estava atento.
Jin estava sentado no chão.
— Então...
Guren ergueu o cajado.
— Antes de qualquer coisa, precisam compreender a essência da magia.
Hashi imediatamente ficou interessado.
— Finalmente.
Guren apontou para ele.
— Todo ser vivo possui uma força dentro de si.
— Mana?
Guren sorriu.
— Exatamente.
Hashi ficou atento.
— Então mana é uma energia interna?
— Sim.
— E ela pode ser manipulada?
— Sim.
— Como?
Guren começou a explicar.
— A mana circula pelo corpo como o sangue. Entretanto, diferente do sangue, ela também pode deixar o corpo e assumir diferentes formas.
Hashi olhou para as próprias mãos.
— Então magia é a manipulação consciente da mana.
— Muito bem.
— E afinidade?
— Cada indivíduo possui uma facilidade natural para determinadas formas de manifestação.
Guren criou uma pequena esfera de luz.
— Fogo.
A esfera mudou.
— Água.
Depois vento.
Depois terra.
Hashi observava tudo.
— Então existem diferentes elementos.
— Sim.
— E existem pessoas capazes de utilizar vários?
— Algumas.
Hashi começou a fazer perguntas atrás de perguntas.
Guren parecia cada vez mais satisfeito.
Jin, entretanto...
estava quase dormindo.
— Isso é muito chato.
Hashi virou-se.
— Você está reclamando de magia?
— Estou reclamando da aula.
Guren riu.
— Talvez ele aprenda melhor de outra maneira.
Jin levantou.
Foi então que percebeu algo.
Do outro lado, Shiori praticava com o arco.
A cada disparo...
TCHAK!
A flecha atingia exatamente o centro do alvo.
Zayra treinava com uma espada.
Um golpe.
Outro.
Outro.
Seu corpo se movia com precisão assustadora.
Jin sorriu.
— Isso sim é treinamento.
Hashi já sabia o que viria.
— Não.
Jin olhou para ele.
— O quê?
— Nem pense.
Jin caminhou na direção das duas.
— Ei!
Shiori ignorou.
Zayra parou.
— O que quer?
Jin apontou para o arco.
— Quero lutar.
Shiori finalmente olhou para ele.
— Comigo?
— Com vocês duas.
Silêncio.
Hashi levou a mão ao rosto.
— Eu tentei impedir.
Zayra sorriu.
Não era um sorriso amigável.
— Certo.
Ela colocou a espada de lado.
— Escolha uma arma.
Jin desembainhou sua espada.
— Essa.
Shiori pegou o arco.
— Então vamos.
O combate começou.
Jin avançou.
Zayra desapareceu de seu campo de visão.
— O quê?
TUM!
Um golpe acertou suas costas.
Jin caiu de joelhos.
— Ai!
Zayra já estava atrás dele.
— Lento.
Jin virou.
Ela atacou novamente.
Jin bloqueou.
O impacto o fez recuar vários metros.
— Forte...
Shiori puxou a corda.
TCHAK!
A flecha passou pelo rosto de Jin.
Ele desviou por pouco.
— Ei!
Outra flecha.
Jin se abaixou.
Outra.
Outra.
— Vocês estão tentando me matar?!
Shiori respondeu:
— Você pediu para lutar.
Jin avançou contra ela.
Quando estava próximo...
Shiori simplesmente desviou.
Jin passou direto.
Zayra apareceu novamente.
PÁ!
Um golpe.
Jin caiu no chão.
Silêncio.
Hashi observava.
— Impressionante.
Guren sorriu.
— Eles são guerreiros experientes.
Jin levantou.
— De novo!
Zayra arqueou a sobrancelha.
— Tem certeza?
— Tenho.
Cinco minutos depois...
Jin estava novamente no chão.
Dessa vez, completamente derrotado.
Shiori guardou o arco.
— Você é forte.
Jin sorriu.
— Obrigado.
— Mas é desajeitado.
O sorriso desapareceu.
— ...
Zayra acrescentou:
— E previsível.
— ...
— E impulsivo.
Jin fechou os olhos.
— Vocês não precisam continuar.
Hashi começou a rir.
— Finalmente alguém falou.
Jin olhou para ele.
— Você está gostando disso?
— Muito.
Os dias começaram a passar.
E, pela primeira vez desde que chegaram a Elyndor, os dois começaram verdadeiramente a entender aquele mundo.
Hashi passava horas com Guren.
Aprendeu a sentir a mana.
Primeiro como uma sensação quase imperceptível.
Depois como um fluxo.
Descobriu que sua mana era extraordinariamente abundante.
E que sua bênção havia alterado algo dentro dele.
— Você possui uma reserva incomum — explicou Guren.
Hashi ficou pensativo.
— Quanto?
Guren sorriu.
— Muito acima do normal.
Hashi sorriu discretamente.
— Então posso aumentar ainda mais.
Guren ficou surpreso.
— Você pretende aumentar sua mana?
— Sim.
— Por quê?
Hashi olhou para a própria mão.
— Porque não pretendo depender de ninguém para sobreviver.
Enquanto isso...
Jin treinava.
De manhã, com Zayra.
Espada.
Movimentação.
Defesa.
Ataques.
À tarde, com Shiori.
Arco.
Precisão.
Respiração.
Percepção.
No começo, errava quase tudo.
Mas não desistia.
Cada derrota parecia deixá-lo mais determinado.
Certo dia, depois de perder novamente para Zayra, Jin levantou do chão.
— Mais uma.
Zayra cruzou os braços.
— Você já perdeu sete vezes.
— Então a oitava é minha.
Shiori observou de longe.
Pela primeira vez...
um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
Talvez...
aqueles humanos não fossem tão frágeis quanto pareciam.
E enquanto Hashi aprendia a controlar a magia...
Jin começava a transformar seu corpo em uma arma.
Sem que nenhum dos dois percebesse...
as bênçãos dos antigos Deuses Primordiais começavam lentamente a despertar.

Capítulo 6 — Vamos em Busca do Abismo
Três meses.
Era difícil acreditar que apenas três meses haviam se passado desde que Hashi e Jin chegaram a Elyndor.
Naquela manhã, a vila dos semi-humanos estava mais silenciosa do que de costume.
O sol surgia entre as enormes árvores, iluminando as casas de madeira e as ruas de terra.
No centro da vila, dois jovens estavam diante do ancião Guren.
Mas já não eram exatamente os mesmos jovens que haviam chegado ali.
Jin estava mais forte.
Muito mais forte.
Seu corpo havia ganhado definição, seus movimentos eram mais rápidos e sua postura havia mudado completamente.
As duas espadas permaneciam presas à cintura.
O arco ficava apoiado sobre suas costas.
Ele ainda tinha o mesmo sorriso idiota.
Ainda fazia piadas nas horas erradas.
Ainda reclamava de fome.
Mas agora havia algo diferente em seus olhos.
Experiência.
Ao lado dele, Hashi parecia mais tranquilo.
Sua postura estava mais confiante.
Ele havia aprendido a sentir a mana dentro do próprio corpo, manipulá-la e, principalmente, economizar energia.
Ainda estava longe de dominar completamente seus poderes.
Mas já não era o jovem completamente perdido que havia chegado naquele mundo.
Guren observava os dois em silêncio.
— Três meses...
Ele sorriu.
— Parece que foi ontem que vocês chegaram.
Jin abriu os braços.
— Para mim pareceu três anos.
Zayra, que estava encostada em uma árvore próxima, respondeu:
— Porque você reclamou todos os dias.
— Eu não reclamei todos os dias.
— Reclamou.
— Quase todos.
— Todos.
Jin apontou para ela.
— Você também reclamou.
Zayra cruzou os braços.
— De você.
— Exatamente.
— Então eu tinha motivos.
— Isso é perseguição.
Hashi suspirou.
— Vocês dois conseguem discutir até sobre quem discute mais.
Shiori permanecia alguns metros afastada.
Como sempre, silenciosa.
Seu olhar passava pelos dois humanos com certa desconfiança.
Ela ainda não confiava neles.
Na verdade, talvez nunca confiasse completamente.
Mas havia aprendido algo durante aqueles três meses.
Jin era impulsivo.
Barulhento.
Idiota.
E extremamente irritante.
Mas não era covarde.
Hashi era diferente.
Pensava demais.
Observava tudo.
Fazia perguntas que ninguém mais faria.
E, às vezes, seu olhar parecia carregar algo que Shiori não conseguia compreender.
Como se aquele humano estivesse constantemente tentando descobrir os segredos daquele mundo.
Shiori não gostava disso.
Segredos eram perigosos.
Principalmente em Elyndor.
Guren finalmente se levantou.
Apoiou as duas mãos sobre o cajado.
— O treinamento de vocês terminou.
Jin abriu um sorriso.
— Finalmente.
Zayra imediatamente respondeu:
— Você vai sentir falta.
— De você? Nunca.
— Ótimo.
— Vou sentir falta da comida.
Zayra fechou os olhos.
— Idiota.
Guren riu.
— Vocês podem continuar discutindo depois.
Jin e Zayra se calaram.
O ancião caminhou lentamente até uma mesa.
Sobre ela havia um mapa.
Um mapa enorme.
Hashi imediatamente se aproximou.
Seus olhos percorreram as regiões desenhadas.
Montanhas.
Florestas.
Rios.
Cidades.
Reinos.
E regiões completamente desconhecidas.
Guren colocou o dedo sobre uma área marcada em preto.
— Vocês precisam ir para cá.
Hashi observou.
— O Abismo.
Guren assentiu.
Jin franziu a testa.
— O que exatamente é o Abismo?
Guren demorou alguns segundos para responder.
— Não sabemos.
Jin piscou.
— Como assim?
— Ninguém sabe exatamente o que existe lá.
Hashi se aproximou ainda mais do mapa.
— Então por que devemos ir?
Guren olhou para ele.
— Porque foi o pedido da deusa.
Silêncio.
— E porque...
Guren apontou para a região.
— Algo está acontecendo lá.
Hashi ficou sério.
— O quê?
— Desaparecimentos.
— Pessoas?
— Pessoas.
— Animais?
— Também.
— Exércitos?
Guren balançou a cabeça.
— Alguns nunca retornaram.
Jin coçou a cabeça.
— Então basicamente estamos indo para um lugar que ninguém conhece porque alguma coisa está fazendo pessoas desaparecerem.
Hashi olhou para ele.
— Resumindo.
Jin sorriu.
— Parece divertido.
— Você tem problemas.
Guren continuou:
— Existem histórias.
— Que tipo de histórias? — perguntou Hashi.
— Algumas dizem que o Abismo é uma região.
— E outras?
— Dizem que é uma criatura.
Hashi ficou imóvel.
— Uma criatura?
— Outros acreditam que seja um lugar entre mundos.
Jin franziu a testa.
— Isso parece confuso.
— Porque é.
Guren passou a mão pelo mapa.
— Existem relatos de pessoas entrando em determinadas regiões e desaparecendo. Há relatos de vozes. Sombras. Criaturas que não deveriam existir.
Hashi ficou pensativo.
— E ninguém investigou?
— Muitos tentaram.
— E?
Guren olhou para ele.
— Alguns voltaram.
— E os outros?
— Nunca mais foram vistos.
Jin colocou as mãos na cintura.
— Então temos uma missão simples.
Hashi olhou para ele.
— Qual?
— Ir até o lugar mais perigoso do continente e descobrir o que está acontecendo.
— Você fala isso como se fosse simples.
— É só caminhar.
Zayra olhou para ele.
— Você realmente é burro.
— Obrigado.
Guren voltou sua atenção para Hashi.
— Não precisam ir diretamente ao Abismo.
Hashi ergueu uma sobrancelha.
— Então qual é o objetivo?
O ancião tirou um pequeno pedaço de papel.
Nele havia apenas um nome.
Raiden.
Guren entregou o papel a Hashi.
— Encontrem esse homem.
Hashi leu.
— Raiden.
— Ele saberá o caminho.
— Ele vive onde?
Guren apontou para outra região do mapa.
— Em algum lugar além das Montanhas Cinzentas.
Jin olhou para o mapa.
— Isso fica longe?
Guren sorriu.
— Muito.
Jin suspirou.
— Claro.
Hashi guardou o papel.
— Quem é Raiden?
— Um humano.
Shiori imediatamente ficou séria.
— Um humano?
Guren assentiu.
— Sim.
Hashi percebeu o tom dela.
— Você conhece?
— Não.
— Mas não gosta.
— Não confio em humanos.
Jin colocou a mão no peito.
— Isso me machuca.
Zayra respondeu:
— Você não conta.
— Como assim?
— Você é um idiota.
— Isso não explica nada.
Guren continuou:
— Raiden é diferente.
Hashi ficou atento.
— Diferente como?
O ancião permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— Apenas encontrem-no.
— E ele nos levará ao Abismo?
— Ele saberá o caminho.
Hashi guardou o papel.
Guren então acrescentou:
— Mas tomem cuidado.
A voz do ancião ficou mais séria.
— Nem sempre aquilo que os olhos enxergam é a verdade do mundo.
Hashi franziu a testa.
— O que isso significa?
Guren apenas respondeu:
— Quando descobrir, entenderá.
Naquele mesmo dia, os dois começaram a preparar suas coisas.
Hashi colocou alguns livros, pergaminhos e objetos necessários dentro de uma mochila.
Jin colocou armas.
Comida.
Mais comida.
E ainda mais comida.
Hashi observou.
— Você está levando comida para quantos dias?
— Dez.
— Estamos levando suprimentos para três semanas.
— Exatamente.
— Então por que você precisa de comida para dez dias?
Jin ficou sério.
— Porque eu como por três pessoas.
Hashi suspirou.
— Isso é verdade.
Jin sorriu.
— Viu?
Quando os dois finalmente chegaram ao portão da vila, perceberam que não estavam sozinhos.
Zayra estava ali.
Armada.
E pronta.
Jin piscou.
— O que você está fazendo aqui?
— Indo com vocês.
— Não.
— Sim.
— Não.
— Sim.
— Não.
Zayra colocou a mão na espada.
— Quer discutir isso?
Jin ficou em silêncio.
— Não.
Hashi olhou para Guren.
— O senhor permitiu?
— Fui eu quem ordenou.
Hashi ficou surpreso.
— Ela vai conosco?
— Sim.
Jin apontou para Zayra.
— Mas por quê?
Zayra respondeu antes de Guren.
— Porque você é idiota demais para sobreviver sozinho.
— Eu sobrevivi até agora.
— Por sorte.
— Tenho talento.
— Tem sorte.
— Talento.
— Sorte.
— Talento.
Hashi interrompeu:
— Vocês podem continuar isso durante a viagem.
Jin sorriu.
— Ela vai mesmo?
Zayra bufou.
— Infelizmente.
Então uma voz veio atrás deles.
— E eu também.
Hashi virou.
Shiori estava ali.
Arco nas costas.
Equipamento preparado.
Jin arregalou os olhos.
— Até você?
Shiori assentiu.
— Ordem do ancião.
Jin abriu um sorriso.
— Então estamos viajando juntos.
— Não se acostume.
— Tarde demais.
Shiori simplesmente passou por ele.
— Se você morrer, não carregarei seu corpo.
Jin olhou para Zayra.
— Ela se preocupa comigo.
— Não.
— Se preocupa sim.
— Não.
— Você também.
Zayra olhou para ele.
— Quer que eu prove o contrário?
Jin imediatamente começou a andar.
— Não.
Hashi segurou o riso.
Os quatro passaram pelo portão.
Por um momento...
nenhum deles falou.
A vila ficou para trás.
Guren permaneceu diante do portão.
Observando-os partir.
Hashi parou por um instante.
Olhou para trás.
— Guren.
O ancião levantou os olhos.
— Obrigado.
Guren sorriu.
— Não me agradeça ainda.
Hashi franziu a testa.
— Por quê?
O velho olhou para o horizonte.
— Porque a jornada de vocês realmente começa agora.
Hashi não respondeu.
Virou-se.
Começou a caminhar.
Jin estava alguns metros à frente, discutindo com Zayra.
— Eu ainda acho que consigo vencer você.
— Não consegue.
— Um dia.
— Talvez em outra vida.
— Você acredita em reencarnação?
— Cala a boca.
Shiori seguia alguns passos atrás.
Silenciosa.
Hashi caminhava na frente.
Quatro pessoas.
Quatro caminhos completamente diferentes.
Um humano que buscava respostas.
Outro que buscava combates e comida.
Uma guerreira que dizia estar ali apenas para impedir um idiota de morrer.
E uma arqueira que desconfiava profundamente dos humanos.
O destino, entretanto, havia colocado os quatro no mesmo caminho.
E o caminho levava para um lugar que ninguém compreendia.
O Abismo.
Muito distante dali...
em uma região onde nenhuma luz natural alcançava o chão...
uma sombra abriu os olhos.
E uma voz sussurrou:
— Eles começaram a caminhar.
Outra voz respondeu:
— Então finalmente chegou a hora.
Um sorriso surgiu na escuridão.
— Deixe-os vir.
— E se encontrarem a verdade?
A criatura ficou em silêncio.
Então respondeu:
— Eles não estão preparados para enxergá-la.

Capítulo 7 — A Estrada Entre Ruínas
Dois dias haviam se passado desde que Hashi, Jin, Shiori e Zayra deixaram a vila dos semi-humanos.
A viagem havia sido tranquila.
Até demais.
Durante os dois primeiros dias, seguiram por trilhas estreitas, atravessando florestas, pequenos rios e regiões montanhosas.
Jin reclamou da comida.
Zayra reclamou de Jin.
Jin reclamou de Zayra.
Hashi reclamou dos dois.
Shiori permaneceu praticamente em silêncio.
Na manhã do terceiro dia, porém, finalmente encontraram aquilo que procuravam.
Uma estrada.
Era antiga, mas ainda claramente utilizada.
O caminho de terra atravessava a floresta em uma linha quase perfeita, desaparecendo entre as árvores.
Jin colocou as mãos na cintura.
— Finalmente uma estrada.
Hashi observou o caminho.
— Isso significa que estamos próximos de alguma civilização.
Shiori não respondeu.
Ela permaneceu parada.
Seu olhar estava fixo na estrada.
Jin percebeu.
— O que foi?
Shiori lentamente levou a mão até o arco.
— Precisamos atravessar rapidamente.
Hashi franziu a testa.
— Por quê?
— Essa estrada não é segura.
Jin olhou para os lados.
— Parece normal.
— Esse é o problema.
Hashi se aproximou.
— O que você sabe?
Shiori respondeu sem tirar os olhos da floresta:
— Há regiões desta estrada onde os animais desaparecem.
— Monstros?
— Talvez.
— Bandidos?
— Talvez.
— Fantasmas?
Shiori finalmente olhou para ele.
— Você consegue ficar calado por cinco minutos?
Jin sorriu.
— Consigo.
Dois segundos depois:
— Mas por quê?
Zayra deu um tapa na cabeça dele.
— Você não consegue mesmo.
— Ai!
Hashi soltou um suspiro.
— Shiori, se sabe de alguma coisa, precisamos saber também.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— Não sei exatamente o que existe aqui.
— Isso não é tranquilizador.
— Não deveria ser.
Shiori colocou uma flecha no arco.
— Apenas façam o que eu disser.
Jin apontou para ela.
— Então você é a líder?
— Por enquanto.
— Gostei.
Zayra cruzou os braços.
— Você só gostou porque não será você.
— Exatamente.
Hashi ajeitou os óculos.
— Vamos seguir.
Shiori assumiu a frente.
Zayra ficou logo atrás dela.
Hashi e Jin vinham por último.
A caminhada começou.
A floresta parecia diferente naquela região.
As árvores eram mais antigas.
Os troncos, mais largos.
A vegetação havia tomado parte da estrada.
Raízes atravessavam o caminho.
Alguns esqueletos de animais estavam espalhados entre os arbustos.
Hashi percebeu.
— Aquilo...
Jin olhou.
— Ossos.
— Sim.
— De quê?
Hashi se aproximou.
Observou o tamanho.
— Não sei.
Shiori respondeu:
— Não parem.
Hashi olhou para ela.
— Você sabe o que matou isso?
— Não.
— Então por que está tão preocupada?
Shiori demorou a responder.
— Porque conheço essa estrada.
O tom dela mudou.
— E sei que não devemos permanecer aqui.
Continuaram.
O silêncio ficou mais pesado.
Até que a floresta começou a se abrir.
A estrada se tornou mais larga.
Muito mais larga.
E então os quatro pararam.
Dos dois lados da estrada havia ruínas.
Restos de prédios.
Torres quebradas.
Muros destruídos.
Pedras cobertas por musgo.
Estátuas partidas.
Partes de antigas casas espalhadas pelo chão.
Hashi olhou ao redor.
— Isso...
Caminhou alguns passos.
— Aqui existia uma cidade?
Shiori parou.
Suas mãos se fecharam lentamente.
— Sim.
Hashi percebeu a mudança em sua expressão.
— Você conhece este lugar.
Shiori ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
— Conheço.
Sua voz estava baixa.
— Aqui existia uma cidade humana.
Jin olhou ao redor.
— O que aconteceu?
Shiori apertou os punhos.
— Ela pertencia ao Império de Lucian Dravus III.
Hashi franziu a testa.
— Um império?
— Um dos maiores
Ela olhou para as ruínas.
— E Lucian Dravus III...
Sua expressão endureceu.
— É um maldito imperador.
Jin perdeu o sorriso.
— Por que maldito?
Shiori ficou imóvel.
Por alguns segundos, parecia lutar contra alguma coisa dentro dela.
Então respondeu:
— Porque ele exterminou nossas vilas.
Jin franziu a testa.
— Nossas?
— Dos semi-humanos.
Shiori olhou para as ruínas.
— Homens foram mortos.
— Mulheres...
Sua voz falhou por um instante.
— Foram estupradas.
O silêncio foi absoluto.
Até o vento parecia ter parado.
Shiori continuou:
— Crianças foram arrancadas de suas famílias.
Jin apertou os punhos.
— Para quê?
— Escravidão.
A palavra caiu como uma pedra.
— Algumas foram vendidas.
— Outras foram levadas para o império.
— Muitas nunca mais foram vistas.
Hashi observava Shiori.
Sua expressão permanecia séria.
— Quando aconteceu?
— Muitos anos atrás.
— Quantos?
Shiori respirou profundamente.
— Eu era criança.
Jin olhou para ela.
— Você sobreviveu?
— Sim.
— Como?
Shiori respondeu imediatamente:
— Não importa.
Jin percebeu que havia tocado em uma ferida profunda.
Não insistiu.
Hashi, entretanto, continuou:
— E essa cidade?
Shiori olhou para as ruínas.
— Era um dos lugares usados pelo exército imperial.
— Você destruiu?
Shiori não respondeu.
Hashi insistiu:
— Foi você?
Ela finalmente olhou para ele.
— Sim.
Jin arregalou os olhos.
Shiori continuou:
— Eu voltei anos depois.
— Sozinha?
— Sim.
— E destruiu tudo?
— O que consegui.
Hashi observou os prédios destruídos.
— Então foi você?
— Eu destruí parte dela.
Ela apertou os punhos.
— Mas isso não mudou nada.
— Por quê?
— Porque meus irmãos ainda estão vivos e presos por ai.
Hashi ficou sério.
— Irmãos?
Shiori assentiu.
— As crianças levadas naquele período.
Sua voz ficou mais baixa.
— Para mim, são meus irmãos.
Ela olhou para as ruínas.
— Os Foxari foram praticamente exterminados.
Hashi nunca havia ouvido aquele nome.
— Foxari?
— Meu povo.
Shiori respirou fundo.
— Éramos muitos.
— Hoje...
Ela olhou para a própria mão.
— Restaram poucos.
Jin fechou os punhos.
Shiori continuou:
— As crianças foram levadas.
— Elas ainda estão vivas?
— Algumas.
— Você sabe onde estão?
— Sei.
Hashi ficou surpreso.
— Então por que ainda não as libertou?
Shiori ficou em silêncio.
— Porque não consegui.
Aquela resposta pareceu pesar sobre ela.
— Ainda não.
Jin deu um passo à frente.
— E você pretende voltar?
Shiori olhou para ele.
— Sim.
— Sozinha?
— Se for necessário.
Jin não respondeu.
Zayra finalmente falou.
— Não foi apenas o povo Foxari.
Todos olharam para ela.
— A nossa vila...
Zayra apontou para trás.
— Aquela onde vocês ficaram.
— Ela foi construída justamente para isso.
Hashi franziu a testa.
— Para quê?
— Refúgio.
Zayra olhou para as ruínas.
— Quando o império começou a atacar os semi-humanos, muitas vilas foram destruídas.
— Algumas famílias fugiram.
— Outras foram perseguidas.
— A nossa vila recebeu os sobreviventes.
Hashi ficou pensativo.
— Quantas raças?
— Muitas.
— Então os semi-humanos...
— Não são uma raça.
Zayra respondeu.
— São muitas.
Ela apontou para si mesma.
— Lobos.
Depois para Shiori.
— Foxari.
— Muitas outras.
Jin permaneceu calado.
Zayra continuou:
— Lucian não via diferença.
— Para ele, éramos todos animais.
Jin apertou os dentes.
— Animais?
— Sim.
— E ninguém fez nada?
Zayra soltou uma risada amarga.
— Quem faria?
Ela olhou para ele.
— Quando um império possui milhares de soldados, cavaleiros, magos e armas...
— O que uma vila pode fazer?
Jin não respondeu.
Zayra continuou:
— Nós fugimos.
— Sobrevivemos.
— Perdemos familiares.
— Perdemos amigos.
— Perdemos nossas terras.
Ela fechou os olhos.
— E alguns ainda estão presos.
Jin ficou imóvel.
Hashi também.
Shiori olhou para as ruínas.
— A história dos humanos e dos semi-humanos não é simples.
Hashi perguntou:
— Você odeia todos os humanos por causa disso?
Shiori ficou em silêncio.
— Sim.
— Todos?
— A maioria.
Hashi olhou para ela.
— Nós não fizemos isso.
— Eu sei.
— Então por que nos trata como inimigos?
Shiori apertou os olhos.
— Porque não sei se vocês serão diferentes.
Hashi não respondeu.
Era difícil discutir com aquilo.
Zayra olhou para Jin.
— E você?
Jin levantou os olhos.
— O quê?
— O que acha?
Jin permaneceu em silêncio.
Por alguns segundos, ninguém ouviu nada além do vento.
Então ele caminhou até uma das ruínas.
Passou a mão sobre uma pedra destruída.
— Eu não gosto disso.
Hashi olhou para ele.
Jin continuou:
— Não gosto de pessoas fortes usando força contra quem não pode se defender.
Shiori observou.
Jin apertou a mão.
— Não importa se são humanos.
— Semi-humanos.
— Crianças.
— Idosos.
— Quem quer que seja.
Ele respirou fundo.
Então olhou para Hashi.
— Posso fazer uma coisa?
Hashi franziu a testa.
— Que coisa?
Jin ficou sério.
— Eu quero acabar com esse cara.
Silêncio.
Hashi arregalou os olhos.
— Você é louco.
— Talvez.
Zayra cruzou os braços.
— Você é um idiota.
— Provavelmente.
Shiori respondeu:
— Você não precisa se meter nos assuntos do meu povo.
Jin olhou para ela.
— Eu sei.
— Então não faça isso.
— Não.
Shiori franziu a testa.
— O quê?
— Não vou fingir que não ouvi.
Zayra deu um passo à frente.
— Você não é forte o suficiente.
Jin olhou para ela.
— Eu sei.
— Então pare de agir como se pudesse resolver tudo.
— Eu sei.
Hashi finalmente falou.
— Jin.
Ele olhou para o amigo.
— Temos uma missão.
— Eu sei.
— Precisamos encontrar Raiden.
— Eu sei.
— Precisamos chegar ao Abismo.
— Eu sei.
— Não podemos simplesmente sair procurando um imperador porque você ficou irritado.
Jin permaneceu de cabeça baixa.
Por alguns segundos...
parecia que iria concordar.
Então levantou os olhos.
Havia algo diferente neles.
Nenhum sorriso.
Nenhuma piada.
Nenhuma provocação.
— Foda-se.
Hashi ficou imóvel.
Jin apertou os punhos.
— Eu posso ser louco.
Uma pequena energia começou a surgir ao redor de seu corpo.
Muito fraca.
Quase imperceptível.
Como brasas começando a despertar.
— Posso ser burro.
O ar ao redor dele pareceu esquentar.
— Posso não saber nada sobre esse mundo.
As pequenas partículas avermelhadas começaram a surgir próximas aos seus braços.
Zayra arregalou levemente os olhos.
Shiori ficou atenta.
Jin deu um passo à frente.
— Mas jamais vou perdoar alguém que usa a própria força para machucar quem não consegue se defender.
A energia aumentou.
Não era uma chama.
Ainda não.
Era apenas um brilho vermelho.
Como carvão queimando sob as cinzas.
Hashi observou atentamente.
— Jin...
Ele não respondeu.
Continuou olhando para as ruínas.
— Se esse homem ainda estiver vivo...
O vermelho ao redor de seu corpo pulsou.
— Eu vou encontrá-lo.
Shiori ficou completamente imóvel.
Pela primeira vez desde que haviam se encontrado...
ela não olhava para Jin com desprezo.
Olhou com surpresa.
Zayra também percebeu.
— Essa energia...
Hashi estreitou os olhos.
Aquela sensação era familiar.
Era a mesma energia que havia surgido quando Jin produziu fogo pela primeira vez.
Mas agora...
estava diferente.
Mais intensa.
Mais pesada.
Mais agressiva.
Hashi murmurou:
— A bênção...
Jin fechou a mão.
As pequenas partículas vermelhas desapareceram.
O silêncio voltou.
Ninguém fez piada.
Ninguém discutiu.
O silêncio permaneceu.
As ruínas continuavam espalhadas pelos dois lados da estrada, como cicatrizes de uma guerra esquecida pelo tempo.
Jin ainda estava parado diante das pedras destruídas.
Aquela pequena aura avermelhada havia desaparecido, mas a expressão em seu rosto permanecia séria.
Hashi observava o amigo em silêncio.
Zayra mantinha os braços cruzados.
Shiori olhava para a estrada.
Então...
ela percebeu.
Seu ouvido se moveu.
Seu olhar mudou.
— Esperem.
Os três olharam para ela.
Shiori lentamente retirou o arco das costas.
— Não façam barulho.
Jin colocou a mão sobre uma das espadas.
— O que foi?
Shiori não respondeu.
Ela puxou uma flecha.
Tlec.
A corda foi esticada.
Seu corpo assumiu uma postura de combate.
— Estamos cercados.
Hashi olhou ao redor.
— Por quem?
Uma pedra caiu.
Clac.
Depois outra.
Toc.
Zayra desembainhou a espada.
— Ali.
Entre duas construções destruídas, o chão começou a se mover.
A terra tremeu.
Pedras começaram a deslizar.
Jin deu um passo para trás.
— Isso não parece bom.
Hashi observou atentamente.
— Não.
A terra começou a subir.
Areia, barro e pedras se juntaram.
Um braço surgiu.
Depois outro.
Um corpo gigantesco se ergueu lentamente das ruínas.
A criatura não possuía rosto.
Apenas duas cavidades escuras onde deveriam estar os olhos.
Seu corpo parecia ter sido formado de diferentes materiais:
pedras antigas,
barro endurecido,
areia,
fragmentos de construções destruídas.
Então outra surgiu.
E outra.
E mais uma.
Quatro criaturas se ergueram diante deles.
Shiori respirou fundo.
— Elementares da Morte.
Jin olhou para ela.
— Nome assustador.
— E eles são.
Hashi analisou as criaturas.
— O que são?
Shiori manteve o arco apontado.
— São seres que nasceram daqui.
— Da cidade?
— Do ódio.
Hashi ficou sério.
Shiori continuou:
— O sangue, o medo e o ódio que foram derramados nessas terras permaneceram durante anos.
— Com o tempo, a energia se fundiu ao próprio terreno.
Ela apontou para as criaturas.
— E nasceram eles.
Uma das criaturas soltou um rugido grave.
As ruínas vibraram.
Jin sorriu.
— Então são espíritos?
— Não exatamente.
— Dá para matar?
— Sim.
— Ótimo.
Shiori respondeu rapidamente:
— O corpo deles se regenera enquanto estiver em contato com o solo.
Hashi imediatamente entendeu.
— Então precisamos separá-los da terra.
— Exatamente.
— E depois?
— O núcleo.
Shiori apontou para o peito de uma das criaturas.
— Existe uma pedra negra dentro do corpo.
— Destrua o núcleo e eles morrem.
Jin girou uma das espadas.
— Então temos um plano.
Zayra se posicionou ao lado dele.
— Não se empolgue.
— Eu nunca me empolgo.
Zayra olhou para ele.
— Você está sorrindo.
— É meu rosto.
Hashi suspirou.
— Vamos acabar logo com isso.
A primeira criatura avançou.
BOOM!
Seu punho atingiu o chão.
Uma onda de pedras se espalhou.
— Agora!
Shiori disparou.
TCHAK!
A flecha atingiu o ombro da criatura.
Não causou quase nenhum dano.
Mas Shiori já esperava.
— Jin!
— Já estou indo!
Jin disparou.
Duas espadas em mãos.
Seu corpo avançou como uma flecha.
A criatura tentou acertá-lo.
Jin passou por baixo do braço.
SLASH!
Uma lâmina cortou a perna da criatura.
Outra atingiu o joelho.
O corpo de pedra perdeu o equilíbrio.
— Zayra!
— Eu vi!
Zayra saltou.
Sua espada atingiu o peito da criatura.
CRAAACK!
A camada externa de pedra se abriu.
Por baixo havia uma pequena pedra negra.
— O núcleo!
Hashi ergueu a mão.
— Afastem-se!
Jin puxou Zayra pelo braço.
Shiori recuou.
Hashi concentrou sua mana.
Uma energia roxa começou a surgir em torno de seus dedos.
Pequenas faíscas percorreram seu braço.
— Presa Elétrica...
A eletricidade se acumulou.
— Ruptura.
BOOOOM!
Um raio roxo atingiu diretamente o núcleo.
A criatura explodiu em areia e pedras.
Jin arregalou os olhos.
— Isso foi incrível!
Hashi olhou para a própria mão.
— A magia está ficando mais fácil.
— Então faz mais!
— Não me dê ordens.
A segunda criatura avançou.
Shiori disparou três flechas consecutivas.
TCHAK! TCHAK! TCHAK!
As flechas atingiram os braços da criatura.
Ela tentou arrancá-las.
— Jin!
— Estou indo!
Jin correu.
Dessa vez, não atacou diretamente.
Esperou.
A criatura levantou o braço.
Jin desviou.
Girou o corpo.
SLASH!
Cortou a lateral do corpo.
A criatura tentou agarrá-lo.
Jin se abaixou.
SLASH!
Outra espada abriu uma rachadura.
Zayra apareceu pela lateral.
— Abaixe-se!
Jin se jogou no chão.
Zayra passou por cima dele.
Sua espada atingiu o peito da criatura.
O núcleo apareceu.
Hashi já estava preparado.
— Cólera do Relâmpago !
Uma descarga roxa atravessou o ar.
BOOM!
O núcleo explodiu.
A criatura caiu.
Jin levantou.
— Dois!
Zayra olhou para ele.
— Não comemore.
— Por quê?
Ela apontou.
As duas criaturas restantes estavam vindo.
Jin ficou sério.
— Ah.
Uma delas bateu as duas mãos no chão.
BOOOOM!
Uma onda de terra atravessou a estrada.
Hashi foi lançado para trás.
— HASHI!
Jin correu.
Conseguiu segurá-lo antes que batesse contra uma pedra.
— Você está bem?
Hashi ajeitou os óculos.
— Estou.
Olhou para a criatura.
— Mas agora fiquei irritado.
Jin sorriu.
— Essa é a melhor versão de você.
Hashi ergueu a mão.
A mana começou a circular.
Raios roxos surgiram ao redor de seu corpo.
— Zayra.
— O quê?
— Faça aquela coisa de antes.
Zayra entendeu.
Correu.
A criatura avançou.
Zayra passou por baixo do ataque.
Sua espada atingiu o peito.
Uma rachadura.
Shiori disparou.
A flecha entrou diretamente na rachadura.
— Agora!
Hashi lançou a magia.
KRAAAK!
Um raio roxo atravessou a flecha.
A energia percorreu o interior da criatura.
O núcleo brilhou.
BOOM!
Ela caiu.
Restava apenas uma.
A última criatura era maior que as outras.
Muito maior.
Jin olhou para ela.
— Essa é minha.
Zayra virou para ele.
— Não.
— Por quê?
— Porque você vai fazer alguma idiotice.
— Eu tenho um plano.
— Qual?
Jin sorriu.
— Bater nela.
Zayra ficou em silêncio.
— Esse não é um plano.
— É o meu.
Jin avançou.
A criatura ergueu os dois braços.
Jin desviou de um golpe.
Depois outro.
Depois outro.
Sua velocidade havia aumentado muito nos últimos meses.
Ele cortava pequenas partes do corpo da criatura, mas não conseguia atingir o núcleo.
— Cadê essa porcaria?!
A criatura acertou Jin.
BOOM!
Ele voou alguns metros.
— JIN!
Ele rolou pelo chão.
Levantou.
— Estou bem!
Shiori puxou o arco.
— O núcleo está no pescoço!
Jin olhou.
Uma pequena rachadura mostrava a pedra negra.
— Entendi.
Ele guardou uma das espadas.
Pegou o arco.
Disparou.
TCHAK!
A flecha atingiu a rachadura.
Mas não destruiu o núcleo.
— Droga!
A criatura avançou.
Jin largou o arco.
Puxou as duas espadas.
Correu diretamente para ela.
Shiori arregalou os olhos.
— Jin!
Ele saltou.
Pisou no ombro da criatura.
Subiu pelo corpo.
E cravou as duas espadas no pescoço.
CRAAACK!
A criatura rugiu.
Jin puxou as lâminas.
O núcleo caiu parcialmente para fora.
— HASHI!
Hashi entendeu.
Concentrou a mana.
A eletricidade roxa surgiu em seus dedos.
O raio atravessou o ar.
Atingiu o núcleo.
BOOOOOOM!
A explosão espalhou areia e pedras pela estrada.
Jin foi lançado para trás.
Zayra o segurou antes que caísse.
— Idiota!
Jin riu.
— Funcionou.
Hashi respirou fundo.
As quatro criaturas haviam desaparecido.
Restavam apenas pedras espalhadas pelo chão.
Shiori baixou o arco.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então Jin colocou as mãos na cintura.
— Viram?
Zayra cruzou os braços.
— O quê?
Jin apontou para si mesmo.
— Eu fui incrível.
Zayra fechou os olhos.
— Você quase morreu três vezes.
— Mas não morri.
— Isso não significa que foi bom.
Jin abriu um sorriso.
— Admitam.
Ele olhou para as três.
— Eu sou forte.
PÁ!
Zayra acertou um soco no topo da cabeça dele.
— Ai!
— Você é um idiota.
— Isso doeu!
— Era para doer.
Hashi começou a rir.
Shiori desviou o olhar.
Mas um pequeno sorriso quase apareceu em seu rosto.
Jin apontou para Zayra.
— Violência gratuita!
— Não foi gratuita.
— Então quanto custa?
Zayra levantou o punho novamente.
Jin imediatamente recuou.
— Retiro o que disse.
Hashi ajustou os óculos.
— Vamos continuar antes que ele consiga arrumar outro problema.
Os quatro retomaram a estrada.
As ruínas ficaram para trás.
Mas, enquanto caminhavam, Hashi olhou uma última vez para os restos das criaturas.
Aquelas criaturas haviam nascido do ódio deixado naquela terra.
Ele não conseguia deixar de pensar nisso.
Talvez Elyndor fosse exatamente assim.
Um mundo onde as ações do passado não desapareciam.

Capítulo 8 — O Sorriso e a Flor
Os dias seguintes foram tranquilos.
Quase tranquilos demais.
A estrada se estendia diante dos quatro viajantes, atravessando florestas, campos e pequenas regiões habitadas.
Depois dos acontecimentos nas ruínas, Jin parecia ter ficado ainda mais inquieto.
Ele treinava sempre que tinha oportunidade.
Às vezes com Zayra.
Às vezes sozinho.
Shiori continuava observando tudo em silêncio.
E Hashi...
Hashi estudava.
Sempre que paravam, ele aproveitava para testar sua mana, registrar o que havia aprendido com Guren e tentar compreender melhor a estranha bênção que carregava.
Mas, apesar de todas as diferenças entre eles, uma coisa havia mudado.
Os quatro começavam a funcionar como um grupo.
Mesmo que ninguém admitisse.
A noite havia caído sobre a floresta.
Uma fogueira iluminava os quatro.
Jin estava sentado próximo às chamas, segurando um pedaço de carne assada.
— Isso é vida.
Zayra olhou para ele.
— Você fala isso toda vez que come.
— Porque toda vez que eu como é um momento especial.
Hashi estava sentado do outro lado da fogueira, lendo um dos livros que havia levado da vila.
Shiori afiava uma flecha.
Zayra observava as chamas.
Por alguns minutos, ninguém falou.
Até Jin quebrar o silêncio.
— Hashi.
— Hm?
— Você acha que o Raiden é forte?
Hashi fechou o livro.
— Não sei.
— Guren disse que ele sabe o caminho até o Abismo.
— Sim.
— Então provavelmente é alguém importante.
Shiori respondeu:
— Raiden é conhecido em várias regiões.
Jin olhou para ela.
— Você conhece ele?
— Apenas histórias.
— Que histórias?
Shiori continuou afiando a flecha.
— Algumas dizem que ele é um mercenário.
— Outras dizem que é um assassino.
— Outras dizem que é um nobre.
Jin arregalou os olhos.
— Então ninguém sabe quem ele é?
— Exatamente.
Hashi ficou pensativo.
— Interessante.
Jin apontou para ele.
— Não começa.
— O quê?
— Quando você fala "interessante", normalmente significa que vai ficar pensando até esquecer de comer.
Hashi olhou para o próprio prato.
— ...
Jin sorriu.
— Viu?
Zayra soltou uma pequena risada.
Hashi olhou para ela.
— Você está rindo?
— Não.
— Está sim.
— Não estou.
— Está.
Shiori olhou para os três.
Por um instante, o canto de seus lábios se levantou.
Foi tão rápido que ninguém percebeu.
Alguns dias depois, chegaram a uma pequena vila humana.
Era simples.
Casas de madeira.
Uma pequena praça.
Comerciantes.
Animais.
Agricultores.
Nada muito diferente das pequenas vilas que já haviam visto.
A presença de Shiori e Zayra chamou atenção.
Alguns moradores olharam desconfiados.
Outros simplesmente desviaram o olhar.
Hashi percebeu.
— Humanos e semi-humanos realmente não possuem uma relação muito boa.
Shiori respondeu:
— Depende do lugar.
Jin entrou em uma pequena loja.
— Temos dinheiro?
Hashi retirou algumas moedas.
— Temos.
Jin sorriu.
— Então temos comida.
Zayra suspirou.
— Essa é a primeira coisa que ele pensa.
— E está errado?
— Não.
Jin voltou com várias sacolas.
Hashi arregalou os olhos.
— Quanto você gastou?
— Quase tudo.
— JIN!
— Precisávamos de comida!
— Para três dias!
— E se tivermos fome no quarto?
Hashi ficou em silêncio.
— Você é impossível.
Mais alguns dias se passaram.
A paisagem mudou completamente.
A floresta ficou para trás.
Campos começaram a aparecer.
Depois estradas movimentadas.
Carroças.
Comerciantes.
Mercadores.
Guardas.
E, finalmente...
uma enorme cidade surgiu no horizonte.
Vifdigar.
A cidade do comércio.
Era muito maior do que qualquer vila que haviam encontrado.
Mercadores de diversas raças atravessavam seus portões.
Havia humanos, anões, semi-humanos e viajantes de lugares que Hashi jamais havia visto.
Bancas vendiam armas.
Poções.
Cristais.
Roupas.
Comida.
Itens mágicos.
Pedras preciosas.
A cidade parecia nunca dormir.
Jin ficou maravilhado.
— Finalmente!
Hashi olhou para ele.
— O quê?
— Civilização.
— Você está feliz por causa das lojas.
— Também.
Shiori observava os arredores.
— Fiquem atentos.
— Vifdigar é uma cidade comercial, mas isso não significa que seja segura.
Zayra colocou a mão sobre a espada.
— Principalmente para estrangeiros.
Jin abriu um sorriso.
— Nós somos estrangeiros.
Hashi respondeu:
— Exatamente.

Encontraram uma pousada relativamente tranquila.
Pegaram dois quartos.
Hashi e Jin ficaram em um.
Shiori e Zayra no outro.
Comeram uma refeição decente.
Depois dormiram.
Pela primeira vez em vários dias, puderam descansar em uma cama de verdade.
Na manhã seguinte...
Shiori colocou um mapa enorme sobre a mesa.
Hashi se aproximou.
Jin ainda estava comendo.
Zayra tomou um gole de chá.
Shiori apontou para uma região.
— Devemos seguir para o norte.
— Depois atravessar a região de Kharan.
— Então seguir até as Montanhas Cinzentas.
Hashi acompanhava cada ponto.
— E depois?
— Depois encontraremos Raiden.
Jin mastigou.
— Parece fácil.
— Não será.
Atrás deles...
um homem estava sentado sozinho.
Usava roupas negras elegantes.
Uma capa.
Um chapéu escuro.
E uma rosa azul presa ao chapéu.
Ele segurava uma xícara de chá.
Parecia completamente desinteressado.
Mas seus olhos estavam atentos.
Ouvia cada palavra.
Quando Shiori terminou de explicar a rota...
o homem sorriu.
Um pequeno sorriso.
Quase imperceptível.
— Raiden?...
Ele murmurou.
Então tomou outro gole de chá.
Os quatro deixaram Vifdigar algumas horas depois.
A estrada estava tranquila.
O sol brilhava.
O vento soprava suavemente.
Jin caminhava na frente.
— Gostei daquela cidade.
Zayra respondeu:
— Você gostou porque tinha comida.
— E mulheres.
— Claro.
Hashi caminhava atrás deles.
— Precisamos acelerar.
Shiori parou.
Os outros três também.
— O que foi? — perguntou Hashi.
Shiori olhou para trás.
— Estamos sendo seguidos.
Jin virou imediatamente.
— Onde?
Nada.
A estrada estava vazia.
Árvores.
Campos.
Nenhuma pessoa.
Jin franziu a testa.
— Não estou vendo ninguém.
Shiori manteve a mão sobre o arco.
— Eu sinto.
Jin virou novamente.
— Então deve ser...
Ele parou.
Seus olhos se arregalaram.
Um homem estava diante dele.
Apenas alguns centímetros de distância.
O mesmo chapéu.
A mesma rosa azul.
O mesmo sorriso.
— Olá.
Jin nem teve tempo de responder.
O homem levou dois dedos até a aba do chapéu.
E sorriu.
No instante seguinte...
BOOM!
Jin foi lançado para trás.
Seu corpo atravessou o ar como uma bala.
CRAAASH!
Ele bateu violentamente contra uma árvore.
Hashi arregalou os olhos.
— JIN!
No caminho percorrido pelo corpo...
pétalas de rosas azuis começaram a cair lentamente.
Uma.
Duas.
Dezenas.
Flutuando no ar.
Hashi ficou completamente imóvel.
— Que...
Sua mente tentou compreender.
Velocidade?
Magia?
Força física?
Não fazia sentido.
Ele ergueu a mão.
A mana começou a se acumular.
Ele precisava atacar.
— Cólera do Relâmpago!
Ele lançou a magia.
Um raio roxo atravessou o espaço.
Mas...
atingiu apenas o vazio.
O homem havia desaparecido.
Hashi arregalou os olhos.
— Onde ele...
Zayra correu.
Jin estava caído perto da árvore.
— Jin!
Zayra chegou até ele.
— Você está vivo?
Jin levantou lentamente a cabeça.
— Acho que sim.
— Seu idiota!
— Ele bateu forte.
— Eu percebi!
Jin tentou se levantar.
Então...
Zayra parou.
Uma pétala azul caiu sobre seu ombro.
Depois outra.
E outra.
Dezenas começaram a surgir ao redor dela.
— O quê...
Uma força invisível a atingiu.
BOOM!
Zayra caiu.
— ZAYRA!
Shiori puxou o arco.
Olhou desesperadamente ao redor.
Hashi ficou imóvel.
— Não...
Pétalas continuavam caindo.
Uma sombra surgiu atrás dos dois.
Uma voz tranquila ecoou:
— Bom...
Hashi virou lentamente.
O homem estava atrás deles.
Sorrindo.
— Os dois esquentadinhos estão tirando um sono.
Ele ajeitou o chapéu.
— Agora podemos conversar.
Shiori imediatamente se virou e disparou.
TCHAK!
A flecha atravessou o espaço.
O homem não estava mais ali.
Shiori ergueu os olhos.
Ele estava sentado sobre um galho de uma árvore próxima.
Como se estivesse ali desde sempre.
Sorrindo.
— Você...
Ele retirou uma rosa azul do próprio chapéu.
Jogou-a.
A flor caiu exatamente entre os pés de Shiori.
Ela não se moveu.
O homem falou:
— Relaxem.
Seu sorriso aumentou.
— Não vou matar vocês.
Uma pausa.
— Não agora, pelo menos.
Hashi estreitou os olhos.
O homem inclinou a cabeça.
— Digam-me...
Ele tocou novamente na aba do chapéu.
— O que querem comigo?
Hashi ficou imóvel.
Seus olhos se arregalaram.
Aquele homem.
A rosa azul.
O sorriso.
A velocidade absurda.
Tudo se encaixou.
— Você é...
Hashi nem conseguiu terminar.
O homem já estava diante dele.
Tão rápido que Hashi sequer percebeu quando saiu do galho.
Ele retirou o chapéu.
Fez uma elegante reverência.
E sorriu.
— Meu nome é Drax Raiden.
Ele recolocou o chapéu.
— Mas, por estas terras...
Uma pétala azul caiu lentamente entre os dois.
— ...me chamam de Raiden das Flores da Morte.
Hashi permaneceu em silêncio.
Shiori apertou o arco.
Jin, ainda caído, abriu um sorriso mesmo sentindo dor.
— Finalmente...
Ele riu baixo.
— Encontramos o cara.
Raiden olhou para ele.
— E você...
Seu sorriso se ampliou.
— Parece ser o mais divertido dos quatro.
O vento atravessava a estrada.
Algumas pétalas azuis ainda estavam espalhadas pelo chão, contrastando com a terra seca.
Jin permanecia encostado na árvore, recuperando o fôlego.
Zayra estava sentada alguns metros adiante, irritada demais para admitir que ainda sentia dores.
Shiori mantinha o arco em mãos.
Hashi, porém, não tirava os olhos de Raiden.
O homem permanecia tranquilo.
— Então... — Hashi começou.
Raiden inclinou a cabeça.
— Sim?
— Nós estávamos procurando você.
— Eu imaginei.
— Como?
Raiden sorriu.
— Vocês estavam falando meu nome em uma pousada cheia de pessoas.
Hashi ficou em silêncio.
— Justo.
Shiori deu um passo à frente.
— Precisamos de sua ajuda.
O sorriso de Raiden diminuiu.
— Ah.
Ele colocou as mãos nos bolsos.
— Então é isso.
— Isso o quê? — perguntou Hashi.
— Vocês não estavam simplesmente procurando por mim.
Raiden olhou para os quatro.
— Querem saber sobre o Abismo, não é?
O silêncio caiu sobre a estrada.
Hashi não respondeu imediatamente.
Shiori apertou o arco.
— Como sabe?
Raiden soltou uma pequena risada.
— Porque ninguém procura por mim por motivos agradáveis.
Jin, ainda encostado na árvore, levantou uma mão.
— Eu procuraria.
Raiden olhou para ele.
— Por quê?
— Para aprender aquele golpe.
Raiden sorriu.
— Você quer aprender como ser arremessado contra uma árvore?
— Não.
Jin apontou para ele.
— Quero aprender como fazer alguém voar.
— Entendi.
Hashi interrompeu:
— Sim.
Raiden voltou a olhar para ele.
— Estamos procurando o Abismo.
— Sinto muito.
A resposta foi imediata.
Hashi franziu a testa.
— O quê?
Raiden deu de ombros.
— Não posso ajudar.
Shiori estreitou os olhos.
— Você nem perguntou por quê estamos procurando.
— Não preciso.
Hashi deu um passo à frente.
— Guren disse que você saberia o caminho.
Raiden ficou em silêncio.
— Guren?
— O ancião da vila dos semi-humanos.
— Ah...
Raiden olhou para o céu.
— Então foi ele quem mandou vocês.
— Sim.
— Isso explica muita coisa.
Shiori perguntou:
— Você conhece Guren?
— Conheço.
— Então sabe que não viemos aqui por diversão.
— Eu sei.
— Então nos ajude.
Raiden olhou diretamente para ela.
— Não.
Shiori apertou o arco.
— Por quê?
— Porque o Abismo não é um lugar para onde pessoas sensatas deveriam ir.
Jin ergueu a mão novamente.
— Nós não somos muito sensatos.
Hashi olhou para ele.
— Não fale por mim.
— Você veio comigo.
— Isso foi circunstancial.
— Você me conhece há anos.
— Infelizmente.
Raiden riu.
Mas logo ficou sério novamente.
— Vocês não entendem.
Hashi cruzou os braços.
— Então explique.
— Não.
— Por quê?
— Porque certas coisas são melhores quando permanecem desconhecidas.
Hashi estreitou os olhos.
— Isso é uma resposta extremamente conveniente.
— Talvez.
— Você está escondendo alguma coisa.
Raiden sorriu.
— Todo mundo esconde alguma coisa.
— Inclusive você.
— Principalmente eu.
Shiori deu um passo à frente.
— Você está brincando conosco.
— Não.
— Está.
— Não.
— Então olhe nos meus olhos e diga que não sabe nada sobre o Abismo.
Raiden ficou imóvel.
Shiori sustentou o olhar.
Por alguns segundos...
ninguém falou.
Então Raiden respondeu:
— Eu não sei onde fica o Abismo.
Shiori continuou olhando.
— Mentiroso.
O sorriso de Raiden desapareceu.
— Cuidado.
A voz dele havia mudado.
Shiori não recuou.
— Você sabe alguma coisa.
— Sei muitas coisas.
— Então diga.
— Não.
Hashi percebeu a tensão aumentando.
— Shiori.
Ela não respondeu.
— Se ele realmente souber algo...
— Ele está escondendo.
— Eu sei.
Raiden olhou para Hashi.
— Você é mais inteligente do que parece.
— E você é mais irritante do que parece.
Raiden sorriu novamente.
— Gostei de você.
— Não pedi sua aprovação.
Jin soltou uma risada.
— Eles estão se dando bem.
Zayra, ainda sentada no chão, respondeu:
— Cala a boca.
Jin olhou para ela.
— Você está bem?
— Não.
— Quer ajuda?
— Não.
— Tem certeza?
— Sim.
— Então vou ficar aqui.
— Ótimo.
Raiden observava os quatro.
Então começou a rir.
Primeiro baixo.
Depois mais alto.
Até que sua risada ecoou pela estrada.
— Hahahahahaha!
Hashi franziu a testa.
— O que foi?
Raiden colocou uma mão sobre o rosto.
— Vocês...
Ele respirou fundo.
— Vocês realmente acreditaram que eu estava falando sério?
Shiori ficou imóvel.
— O quê?
Raiden riu novamente.
— Era uma brincadeira.
Hashi ficou alguns segundos encarando-o.
— Você é um desgraçado.
— Já me chamaram de coisas piores.
— Então você pode nos ajudar?
Raiden parou de rir.
— Não.
Hashi ficou em silêncio.
— ...
— Eu não sei onde fica o Abismo.
Shiori estreitou os olhos.
— Então por que fez tudo isso?
— Porque foi divertido.
Jin começou a rir.
— Eu gostei dele.
Zayra olhou para Jin.
— Claro que gostou.
Raiden caminhou alguns passos pela estrada.
— Eu sei que vocês estão procurando o Abismo.
— Sei que Guren mandou vocês.
— E sei que vocês provavelmente acreditam que eu conheço o caminho.
Hashi perguntou:
— E não conhece?
Raiden balançou a cabeça.
— Não.
— Então o que você sabe?
Raiden ficou em silêncio.
Seu sorriso desapareceu.
— Eu sei onde ficam as Terras do Testamento.
Hashi ficou atento.
— Terras do Testamento?
Raiden assentiu.
— Um lugar antigo.
— Muito antigo.
Shiori perguntou:
— O que existe lá?
Raiden olhou para ela.
— Registros.
— Registros de quê?
— Do Abismo.
O grupo ficou em silêncio.
Hashi se aproximou.
— Então existem documentos?
— Não exatamente.
— O que existe?
Raiden respirou fundo.
— Há séculos, seres que vieram antes dos reinos atuais escreveram sobre o Abismo.
— Eles o escreveram o quê?
— Inferno.
Jin finalmente ficou sério.
— Inferno?
Raiden assentiu.
— Eles acreditavam que existia um portal.
Hashi perguntou:
— Um portal para o Abismo?
— Um portal para o inferno.
— E onde fica?
Raiden apontou para o horizonte.
— Nas Terras do Testamento.
Shiori perguntou:
— E você já esteve lá?
Raiden ficou em silêncio.
— Sim.
Hashi imediatamente percebeu.
— E encontrou o portal?
Raiden soltou uma risada curta.
Sem humor.
— Não.
— Então o que encontrou?
Raiden olhou para o céu.
— Nada.
Hashi franziu a testa.
— Nada?
— Areia.
— Apenas areia.
O sorriso de Raiden desapareceu completamente.
— Um lugar morto.
— Sem árvores.
— Sem água.
— Sem cidades.
— Sem ruínas.
— Apenas areia e um ar seco que parece rasgar seus pulmões.
Shiori perguntou:
— E o portal?
Raiden olhou diretamente para ela.
— Não existe.
Hashi permaneceu em silêncio.
Raiden continuou:
— Pelo menos não onde os registros dizem que deveria existir.
Jin se aproximou.
— Então por que aquilo se chama Terras do Testamento?
Raiden olhou para ele.
— Essa...
Ele colocou novamente os dedos sobre a aba do chapéu.
— ...é uma pergunta que talvez vocês descubram quando chegarem lá.
Hashi percebeu algo.
— Você está dizendo para irmos.
Raiden sorriu.
— Estou dizendo que, se realmente querem encontrar o Abismo...
Ele virou as costas.
— Comecem por lá.
Shiori perguntou:
— E você?
Raiden continuou caminhando.
— Eu?
— Você vem conosco?
Ele olhou por cima do ombro.
Um sorriso voltou ao seu rosto.
— Agora não... Talvez outro dia.
E continuou andando.
Hashi observou Raiden desaparecer lentamente pela estrada.
Jin olhou para o amigo.
— Então...
— Sim?
— Quando vamos para o deserto?
Hashi ajustou os óculos.
— Assim que recuperarmos você e Zayra.
Zayra levantou imediatamente.
— Eu estou bem.
Jin apontou para ela.
— Ela acabou de cair no chão.
— E levantei.
— Isso não significa que está bem.
Zayra levantou o punho.
— Quer testar?
Jin recuou.
— Não.
Hashi soltou um suspiro.
Olhou para o horizonte.
As Terras do Testamento.
O Abismo.
A filha da deusa.
E agora um homem chamado Raiden das Flores da Morte.
Quanto mais respostas encontravam...
mais perguntas surgiam.
Hashi sorriu discretamente.
— Finalmente está ficando interessante.
Jin colocou a mão sobre o estômago.
— Espero que tenha comida nesse deserto.
Hashi olhou para ele.
— É um deserto.
— Então não?
— Provavelmente não.
Jin ficou sério.
— Isso pode ser o maior perigo dessa viagem.
Zayra bateu na cabeça dele.
— Idiota.
E os quatro continuaram pela estrada.

Capítulo 9 — Terras Estranhas
Depois do encontro com Raiden, os quatro deixaram Vifdigar para trás e seguiram
Norte.
Na manhã do primeiro dia, os quatro caminhavam por uma estrada cercada por campos.
Jin seguia ao lado de Zayra.
Shiori estava alguns metros à frente.
Hashi vinha atrás, lendo um pequeno livro enquanto caminhava.
Jin olhou para Zayra.
Depois para o céu.
Depois para Zayra novamente.
— Zayra.
— O quê?
— Você sabia que lobos são consideradas animais extremamente fiéis?
Ela olhou para ele.
— Sim.
— Interessante.
— Por quê?
Jin abriu um sorriso.
— Então talvez você seja uma ótima esposa.
Silêncio.
Hashi abaixou lentamente o livro.
Shiori parou de andar.
Zayra ficou imóvel.
— O que você disse?
Jin percebeu que havia cometido um erro.
— Eu disse que...
PÁ!
O punho de Zayra acertou seu rosto.
Jin caiu na estrada.
— AI!
Hashi voltou a ler.
— Impressionante.
Shiori retomou a caminhada.
Jin levantou, segurando o rosto.
— Eu só estava fazendo um elogio!
Zayra continuou andando.
— Faça outro.
— Posso?
— Não.
— Então está bem.
Dois minutos depois...
— Zayra.
— Não.
— Mas eu nem falei nada.
— Conheço você.
Jin sorriu.
— Você está começando a me entender.
Zayra fechou os olhos.
— Eu realmente odeio você.
Jin abriu um sorriso ainda maior.
— Já é um começo.
Hashi, alguns metros atrás, murmurou:
— Ele não vai sobreviver até o deserto.
No meio da tarde, o grupo entrou em uma região de mata.
Shiori levantou a mão.
Todos pararam.
— Temos companhia.
Jin colocou a mão sobre a espada.
— Quantos?
— Seis.
Hashi fechou o livro.
— Humanos?
Shiori balançou a cabeça.
— Goblins.
Jin sorriu.
— Finalmente.
Zayra olhou para ele.
— Não se empolgue.
— Eu estou apenas feliz.
— Você fica feliz quando encontra alguém para bater ?
— Isso também.
Os arbustos começaram a se mover.
Seis goblins surgiram.
Desta vez, porém, eram diferentes dos anteriores.
Usavam armaduras improvisadas.
Alguns carregavam lanças.
Um deles carregava um pequeno escudo.
Hashi observou.
— Eles estão organizados.
Shiori puxou o arco.
— Então não subestimem.
O primeiro goblin avançou.
TCHAK!
Uma flecha atravessou seu ombro.
Ele caiu.
Jin já estava correndo.
— Minha vez!
Duas espadas saíram das bainhas.
CLANG!
Ele bloqueou uma lança.
Girou.
Acertou o cabo da espada no rosto do goblin.
Depois girou novamente.
SLASH!
A criatura caiu.
Outro veio pelas costas.
Zayra apareceu.
CRASH!
Sua espada atingiu a arma do goblin e a lançou para longe.
— Preste atenção.
— Eu estava prestando.
— Não estava.
— Estava sim.
— Então por que quase foi atingido?
Jin apontou para o goblin caído.
— Porque ele é feio. Eu me distraí.
Zayra suspirou.
— Idiota.
Enquanto isso, Hashi levantou a mão.
A mana percorreu seus braços.
Faíscas roxas surgiram entre seus dedos.
— Lança do Relâmpago.
Uma lança de eletricidade roxa atravessou dois goblins ao mesmo tempo.
BOOM!
Jin olhou.
— Ainda acho seus poderes exagerados.
Hashi respondeu:
— E você ainda luta com duas espadas.
— Porque sou bonito.
— Isso não tem relação.
— Para mim tem.
O último goblin tentou fugir.
Shiori disparou.
TCHAK!
A flecha atingiu o chão bem diante dele.
A criatura congelou.
Shiori se aproximou.
— Vá embora.
O goblin saiu correndo.
Jin olhou para ela.
— Você deixou ele vivo?
— Sim.
— Por quê?
— Para contar aos outros que não devem mexer conosco.
Jin sorriu.
— Inteligente.
Hashi olhou para ela.
— Concordo.
Shiori guardou o arco.
— Vamos continuar.
Jin colocou as mãos na cintura.
— E eu nem apanhei.
Zayra olhou para ele.
— Quer?
— Não.
Naquela noite, acamparam perto de um rio.
Hashi ficou responsável pela fogueira.
Dessa vez, não precisou de ajuda.
Estalou os dedos.
Uma pequena chama roxa apareceu.
Jin arregalou os olhos.
— Você está ficando melhor.
Hashi sorriu.
— Finalmente percebeu.
— Ainda prefiro meu fogo.
— O seu é comum.
— O meu tem personalidade.
— É fogo.
— Exatamente.
Shiori preparava a comida.
Zayra estava sentada perto da água.
Jin observou.
— Zayra.
— O quê?
— Você sabe cozinhar?
— Sei.
— Sabe fazer sobremesa?
— Sei.
— Sabe fazer comida para marido?
Zayra virou lentamente a cabeça.
— Jin.
— Sim?
— Você quer morrer?
— Não.
— Então pare.
Jin riu.
— Você fica bonita quando está irritada.
Zayra ficou vermelha por um instante.
Mas imediatamente fechou a expressão.
— Você realmente não tem medo de morrer.
PÁ!
Outro soco.
Jin caiu ao lado da fogueira.
Hashi olhou para ele.
— Você procurou isso.
Jin levantou lentamente.
— Valeu a pena.
Zayra ficou ainda mais vermelha.
Shiori percebeu.
E, pela primeira vez, soltou uma pequena risada.
Jin apontou para ela.
— Você riu!
Shiori imediatamente ficou séria.
— Não.
— Riu sim!
— Não.
— Eu ouvi!
— Então está imaginando.
Hashi sorriu.
— Ela riu.
Shiori olhou para ele.
— Você também?
— Eu apenas estou relatando um fato.
Jin abriu os braços.
— Finalmente estamos virando uma família.
Zayra jogou uma pedra nele.
— Ai!
Depois da refeição, os quatro permaneceram ao redor da fogueira.
O céu estava completamente limpo.
Milhares de estrelas brilhavam acima deles.
Hashi olhava para cima.
— O céu é diferente.
Shiori respondeu:
— Em Elyndor existem várias luas em algumas regiões.
— Sério?
— Sim.
Jin deitou no chão.
— Eu queria ver.
Zayra olhou para ele.
— Você nunca olhou para o céu?
— No Japão não era tão bonito.
Hashi ficou em silêncio.
A lembrança de casa voltou.
Tóquio.
A universidade.
Sua família.
Seu quarto.
Sua antiga vida.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Jin quebrou o silêncio.
— Você sente falta?
Hashi olhou para ele.
— Às vezes.
Jin assentiu.
— Eu também.
Foi uma das poucas vezes em que nenhum dos dois fez piada.
Shiori observou os dois.
Talvez finalmente começasse a compreender por que aqueles humanos haviam mudado tanto desde que chegaram.
Eles haviam perdido tudo.
E mesmo assim...
continuavam caminhando.
Dois dias depois, a paisagem começou a mudar.
As árvores desapareceram.
Os campos deram lugar a terrenos secos.
O vento ficou quente.
O chão começou a ganhar uma coloração avermelhada.
Jin olhou para frente.
— É ali?
Shiori assentiu.
— O Deserto de Arken.
Hashi olhou para o horizonte.
Areia.
Muita areia.
— Quanto tempo atravessando?
— Dois dias, talvez três.
Jin ficou imóvel.
— Três dias?
— Se mantivermos um bom ritmo.
Jin colocou a mão sobre o estômago.
— Temos comida?
Hashi respondeu:
— Temos.
— Água?
— Sim.
— Bastante?
— O suficiente.
Jin sorriu.
— Então vamos.
Zayra olhou para ele.
— Você está estranhamente motivado.
— Estou tentando não morrer de fome.
Shiori ajustou o equipamento.
— Depois do deserto começam as Terras do Testamento.
Hashi ficou sério.
— Então estamos perto.
Shiori assentiu.
— Muito.
O grupo começou a caminhar.
O calor aumentou.
O horizonte parecia distorcer.
Depois de algumas horas...
Jin estava completamente coberto de areia.
— Eu odeio esse lugar.
Zayra riu.
— Você não estava animado?
— Estava.
— Então?
— Mudei de opinião.
Hashi continuava caminhando.
— Faz apenas quatro horas.
— Quatro horas demais.
Shiori olhou para trás.
— Pare de reclamar.
— Estou sofrendo.
— Todos estamos.
Jin apontou para Hashi.
— Ele nem está suando.
Hashi respondeu:
— Porque estou controlando minha mana.
Jin ficou indignado.
— Você pode fazer isso?!
— Posso.
— E não me ensinou?
— Você nunca perguntou.
— Eu pergunto agora.
— Não.
— Por quê?
— Porque você vai desperdiçar mana reclamando.
Zayra começou a rir.
— Hahahaha!
Jin olhou para ela.
— Você está gostando disso?
— Muito.
Jin cruzou os braços.
— Maldita.
Quando o sol começou a desaparecer, o vento mudou.
Shiori parou.
— Esperem.
Hashi olhou para ela.
— O quê?
Ela olhou para o horizonte.
Uma nuvem de areia se aproximava.
— Tempestade.
Jin arregalou os olhos.
— De areia?
Zayra respondeu:
— Não, de gelo e neve não esta vendo?
— E o que fazemos?
Shiori apontou para uma formação rochosa.
— Abrigo.
Os quatro correram.
A tempestade atingiu a região poucos minutos depois.
A areia começou a bater contra as pedras.
O vento gritava.
Jin se protegeu atrás de Zayra.
— Isso está doendo!
— Pare de reclamar.
— A areia está entrando na minha boca!
— Então feche.
— Ótima ideia.
Jin fechou a boca.
Alguns segundos depois:
— Ainda está entrando!
Zayra começou a rir.
Hashi tentou esconder o sorriso.
Shiori também.
A tempestade durou horas.
Quando finalmente terminou...
o deserto havia mudado.
As dunas estavam diferentes.
O caminho desapareceu
Hashi olhou ao redor.
— Estamos perdidos.
Shiori ficou séria.
— Não.
Ela olhou para o céu.
Depois para uma formação rochosa distante.
— Ainda sei a direção.
Jin levantou a mão.
— Excelente.
— O quê?
— Sei la.
Na manhã seguinte, finalmente viram algo diferente.
Não era uma cidade.
Não era uma vila.
Não era uma construção.
Era uma enorme formação de pedras negras no horizonte.
Hashi observou.
— Aquilo...
Shiori assentiu.
— As Terras do Testamento.
Os quatro diminuíram o passo.
À medida que se aproximavam, o ambiente parecia mudar.
O vento ficou mais fraco.
Nenhum animal podia ser visto.
Nenhum pássaro sobrevoava o céu.
Nenhuma planta crescia.
Apenas areia.
Pedras.
E um silêncio estranho.
Jin olhou para os lados.
— Não há ninguém.
Shiori ficou séria.
— Exatamente.
Zayra colocou a mão sobre a espada.
— Esse lugar não parece natural.
Hashi concordou.
— Não.
Os quatro continuaram.
Até que chegaram ao topo de uma pequena elevação.
E então viram.
Um vasto território coberto de areia.
No centro...
uma enorme construção destruída.
Restos de pilares.
Pedras antigas.
Símbolos gravados no chão.
E, muito ao fundo...
uma gigantesca porta de pedra parcialmente enterrada.
Hashi ficou imóvel.
— Aquilo estava nos registros?
Shiori balançou a cabeça.
— Não.
Jin sorriu.
— Então talvez tenhamos encontrado alguma coisa.
Zayra olhou para ele.
— Não comemore ainda.
Jin apontou para a porta.
— Aposto que tem alguma coisa lá dentro.
Hashi observou os símbolos.
Seus olhos se estreitaram.
— Tem magia.
Shiori olhou para ele.
— Tem certeza?
— Sim.
A mana ao redor da porta era diferente.
Antiga.
Pesada.
Quase morta.
Hashi deu um passo à frente.
Então parou.
— Esperem.
Os três olharam.
— O quê?
Hashi ficou encarando a porta.
— Eu não acho que estamos sozinhos.
O vento passou entre as ruínas.
Nenhuma resposta.
Jin colocou lentamente as mãos sobre as espadas.
Zayra desembainhou uma delas.
Shiori preparou o arco.
E os quatro ficaram em silêncio.
Diante deles estava o lugar que Raiden havia mencionado.
As Terras do Testamento.
O lugar onde antigos seres haviam escrito sobre o Abismo.
O lugar onde, segundo as lendas...
existia um portal para o inferno.

Capítulo 10 — O Testamento
As Terras do Testamento eram silenciosas.
Silenciosas demais.
Nenhum pássaro.
Nenhum inseto.
Nenhum animal.
Apenas o vento passando lentamente pelas dunas e levantando pequenas quantidades de areia.
À frente dos quatro viajantes estava a enorme porta de pedra.
Ela estava parcialmente enterrada.
Duas colunas antigas sustentavam sua estrutura, ambas cobertas por inscrições que Hashi não conseguia compreender.
Shiori manteve o arco preparado.
Zayra segurava a espada.
Jin observava a porta com uma expressão desconfiada.
Hashi se aproximou lentamente.
— Não toquem em nada.
Jin olhou para ele.
— Você acabou de dizer isso porque sabia que eu ia tocar?
— Sim.
— Você está me conhecendo bem.
— Infelizmente.
Hashi passou a mão sobre uma das inscrições.
A pedra era extremamente antiga.
Mas não parecia desgastada pelo tempo.
Era como se tivesse sido preservada.
— Isso não deveria estar assim.
Shiori aproximou-se.
— O que foi?
— Essa pedra.
Hashi bateu levemente com os dedos.
— Está intacta.
— E daí?
— Estamos no meio de um deserto.
Ele apontou para o chão.
— O vento deveria ter desgastado essas inscrições há séculos.
Shiori olhou atentamente.
— Então existe magia.
— Muita.
Jin se aproximou.
— E isso significa que podemos abrir?
Hashi olhou para a porta.
— Talvez.
Jin colocou as duas mãos sobre ela.
— Então vamos.
— Espera—
THOOM!
Jin empurrou.
Nada.
— ...
Ele tentou novamente.
— Vai!
Nada.
— Vamos!
Nada.
Zayra cruzou os braços.
— Terminou?
— Ainda não.
Jin respirou fundo.
— Um...
— Dois...
— TRÊS!
Empurrou com toda a força.
A porta permaneceu imóvel.
Jin caiu sentado.
— Essa porta é muito forte.
Hashi suspirou.
— Ou você é muito fraco.
Jin levantou imediatamente.
— Retire o que disse.
Ele apontou para Hashi.
— Você abre.
Hashi aproximou-se.
— Não é uma questão de força.
— Então abre.
— Estou tentando descobrir como.
Hashi começou a examinar as inscrições.
Havia símbolos circulares.
Linhas.
Desenhos de criaturas.
Uma figura semelhante a um humano ajoelhado diante de uma enorme abertura negra.
— Isso parece um ritual.
Shiori aproximou-se.
— Consegue ler?
— Não.
— Nem uma palavra?
— Nada.
Jin colocou o rosto próximo à pedra.
— Talvez seja uma língua antiga.
Hashi olhou para ele.
— Sim.
— Então traduz.
— Claro.
— Você sabe?
— Não.
— Então por que falou?
— Porque é óbvio.
Jin cruzou os braços.
— Você é muito irritante.
Hashi ignorou.
Começou a analisar os símbolos.
— Talvez seja necessário algum tipo de chave.
Zayra olhou ao redor.
— Não vejo nenhuma fechadura.
— Pode não ser física.
Hashi colocou a mão sobre a porta.
Fechou os olhos.
Tentou sentir a mana.
Nada.
Tentou novamente.
Uma pequena corrente de energia percorreu seus dedos.
A porta respondeu.
Por um instante...
uma luz azul apareceu.
Hashi abriu os olhos.
— Viram?
Jin aproximou-se imediatamente.
— O que fez?
— Não sei.
— Faça novamente.
Hashi tentou.
Nada.
— Droga.
Ele tentou mais uma vez.
Nada.
— Talvez seja uma combinação.
Shiori perguntou:
— Uma combinação de magia?
— Talvez.
Hashi começou a experimentar diferentes formas de mana.
Ele tentou eletricidade.
Fogo.
Pressão.
Mana pura.
Nada.
A porta permanecia imóvel.
Jin tentou novamente.
Chutou.
Socou.
Empurrou.
Até bater a cabeça contra ela.
Toc.
— Ai.
Zayra olhou para ele.
— Isso foi ridículo.
— Funcionou?
— Não.
— Então não valeu.
Shiori soltou um suspiro.
— Estamos perdendo tempo.
Hashi olhou para o céu.
As horas começaram a passar.
O sol subiu.
Depois começou a descer.
Eles tentaram de tudo.
Jin procurou mecanismos escondidos.
Zayra examinou as laterais.
Shiori procurou sinais de passagens.
Hashi analisou as inscrições dezenas de vezes.
Nada.
A porta não se movia.
Não havia nenhuma entrada alternativa.
Nenhuma chave.
Nenhum mecanismo.
Nada.
O único caminho parecia estar bloqueado por aquela enorme estrutura.
Jin sentou-se sobre uma pedra.
— Estou começando a odiar essa porta.
Hashi continuava estudando os símbolos.
— Ela não está tentando nos impedir.
Jin olhou para ele.
— Como assim?
— Se quisesse nos impedir, teria algum mecanismo defensivo.
— Então?
— Acho que não fomos feitos para abrir.
Zayra franziu a testa.
— Como sabe?
— Porque já tentamos força.
— Magia.
— Mecanismos.
— Rituais.
— Nada funcionou.
Shiori ficou em silêncio.
Hashi tocou novamente na inscrição.
— Talvez a porta não seja uma porta.
Jin levantou uma sobrancelha.
— Isso foi profundo.
— Estou falando sério.
— Então o que é?
— Não sei.
Hashi ficou olhando para os símbolos.
— Mas talvez ela esteja escondendo alguma coisa.
O sol continuou descendo.
As sombras das ruínas começaram a crescer.
Jin deitou sobre a areia.
— Eu estou com fome.
Zayra olhou para ele.
— Você sempre está com fome.
— Sim.
— Mesmo depois de comer?
— Principalmente depois.
— Inacreditável.
Shiori permaneceu próxima à porta.
— Acho que deveríamos acampar.
Hashi assentiu.
— Concordo.
Jin levantou.
— Acampar aqui?
— Sim.
— Nesse lugar morto?
Hashi olhou ao redor.
— Não temos outra opção.
Jin suspirou.
— Ótimo.
Ele pegou alguns galhos secos que havia trazido.
— Pelo menos podemos fazer uma fogueira.
Hashi olhou para ele.
— Aqui?
— O quê?
— Não temos madeira suficiente.
Jin olhou para os galhos.
Depois para o deserto.
— ...
— Exatamente.
Jin sentou novamente.
— Eu odeio esse lugar.
A noite chegou.
Uma pequena fogueira iluminava o grupo.
O céu estava completamente tomado por estrelas.
Hashi ainda estava diante da porta.
Mesmo depois de tantas horas.
Jin observava o amigo.
— Você não vai desistir?
— Não.
— Já tentamos tudo.
— Não.
— Não?
Hashi balançou a cabeça.
— Ainda não tentamos tudo.
— O que falta?
Hashi olhou para as inscrições.
— Descobrir por que ela existe.
Jin franziu a testa.
— Não seria mais fácil simplesmente abrir?
— Talvez.
— Então por que não?
Hashi sorriu levemente.
— Porque não funciona assim.
Jin ficou em silêncio.
— Você realmente gosta dessas coisas.
— Gosto de entender.
— Mesmo quando não entende?
— Principalmente quando não entendo.
Jin sorriu.
— Sabia.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Até que...
uma risada surgiu no escuro.
— Hahahaha...
Os quatro ficaram imóveis.
Jin levantou imediatamente.
Zayra puxou a espada.
Shiori pegou o arco.
Hashi ficou de pé.
Outra risada.
Mais próxima.
— Hahahahaha...
Jin olhou ao redor.
— Não gosto disso.
Hashi estreitou os olhos.
— Eu conheço essa risada.
Passos surgiram atrás deles.
Então uma voz:
— Está difícil aí, crianças?
Hashi virou.
Seus olhos se arregalaram.
Raiden estava sentado sobre uma das pedras próximas.
Completamente tranquilo.
Uma maçã vermelha estava em sua mão.
Ele deu uma mordida.
Croc.
Jin apontou para ele.
— VOCÊ?!
Raiden mastigou tranquilamente.
— Eu.
Shiori imediatamente puxou uma flecha.
— O que está fazendo aqui?
Raiden olhou para o arco.
— Visitando.
— Você nos seguiu?
— Talvez.
Zayra avançou um passo.
— Por quê?
Raiden deu outra mordida na maçã.
— Curiosidade.
Hashi ficou sério.
— Você sabia que viríamos para cá. e disse que não viria junto.
Raiden sorriu.
— Eu vim ver o que estavam fazendo...
— Então sabia sobre a porta.
— Claro.
Hashi apertou os punhos.
— E não nos contou.
— Vocês não perguntaram.
— Perguntamos sobre o Abismo.
— E eu disse que não sabia onde ele estava.
Hashi apontou para a porta.
— Então por que realmente está aqui?
Raiden ficou em silêncio.
A maçã parou a poucos centímetros de sua boca.
Então ele sorriu.
— Esta porta... não nos levará a lugar nenhum.
Hashi franziu a testa.
— Como assim?
Raiden deu outra mordida na maçã.
Croc.
— Ela é o Evangelho.
O sorriso em seu rosto desapareceu lentamente.
— Quer saber onde está aquilo que procura?
Raiden caminhou até a porta.
Passou os dedos sobre as inscrições antigas, limpando parte da areia que havia se acumulado sobre elas.
— Decifre.
Ele olhou para Hashi.
— Abra.
Seus olhos percorreram os símbolos.
— E então...
Raiden tocou a superfície da pedra.
— Saiba a verdade deste mundo.
Uma pausa.
— Ou, pelo menos, a verdade que os antigos acreditavam ser verdade.
Shiori estreitou os olhos.
— Você está dizendo que nem tudo que está escrito aqui é verdadeiro?
Raiden deu de ombros.
— Talvez seja.
— Talvez não seja.
Ele voltou a olhar para a porta.
— Se realmente é verdade?
Um pequeno sorriso surgiu novamente.
— Não sei.
Jin cruzou os braços.
— E o portal?
Raiden olhou para ele.
— Se realmente existe um portal para o Abismo?
Ele balançou a cabeça.
— Não sei.
Hashi permaneceu diante da porta.
Seus olhos percorriam cada símbolo.
— Então, depois de tantos anos procurando...
Ele olhou para Raiden.
— Você nunca conseguiu abrir?
Raiden sorriu.
— Eu não disse isso.
Hashi ficou imóvel.
— Você sabe abrir essa porta?
Raiden deu mais uma mordida na maçã.
— Sim.
Raiden apoiou uma das mãos no centro da enorme porta de pedra.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então ele fechou os olhos.
Sua expressão, até então descontraída, tornou-se completamente séria.
— Ael’thar en Vaeloria, sael enor thal’myr.
A voz de Raiden ecoou pelas ruínas.
— Que o véu se rompa, que o silêncio desperte.
Os símbolos espalhados pela porta começaram a emitir uma luz branca.
Raiden abriu os olhos.
— Abra-se, Portão da Verdade, e revele ao mundo a sua história.
BUM.
Um som grave de batuques surgiu de algum lugar.
Depois outro.
BUM... BUM...
O ritmo começou a aumentar.
As inscrições da porta brilhavam cada vez mais intensamente.
Hashi arregalou os olhos.
— Isso é...
— Magia? — perguntou Jin.
Hashi não respondeu.
Sua atenção estava completamente presa à porta.
A mana ao redor deles começou a se alterar.
O ar ficou pesado.
A areia começou a levantar do chão.
As pedras das antigas ruínas começaram a vibrar.
BUM!
BUM!
BUM!
Então...
a porta se abriu.
Uma luz branca explodiu do outro lado.
— CUBRAM OS OLHOS! — gritou Hashi.
Os quatro recuaram.
A intensidade era absurda.
Por alguns segundos, não conseguiam enxergar absolutamente nada.
Jin colocou o braço diante do rosto.
— CARALHO!
Zayra tentou proteger os olhos.
— O que é isso?!
Shiori manteve o arco abaixado, completamente desorientada.
— Raiden!
Mas não houve resposta.
Quando a luz começou a diminuir...
Hashi lentamente abriu os olhos.
A porta estava completamente aberta.
Do outro lado...
não havia areia.
Não havia deserto.
Havia alguma coisa.
Algo que nenhum deles conseguia compreender.
Um espaço gigantesco iluminado por uma luz branca e dourada.
Estruturas antigas surgiam ao longe.
Pilares.
Escadarias.
Estátuas.
E símbolos espalhados por todos os lugares.
Hashi ficou imóvel.
Shiori olhou para dentro.
— Devemos entrar?
Raiden deu de ombros.
— Não sei.
Zayra olhou para ele.
— Você abriu a porta e não sabe?
— Eu disse que sabia abrir.
Hashi ficou alguns segundos em silêncio.
— Isso pode ser uma armadilha.
— Pode.
— Podemos não voltar.
— Podemos.
— Pode haver monstros.
— Provavelmente.
Jin olhou para os três.
— Vocês terminaram?
Hashi virou.
— Não.
— Porque eu vou entrar.
— Jin.
— O quê?
— Você não sabe o que existe lá dentro.
Jin sorriu.
— É justamente por isso.
Zayra segurou seu braço.
— Você não vai entrar sozinho.
Jin olhou para ela.
— Então vem comigo.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Mas vai vir?
Zayra fechou os olhos.
— Idiota.
Shiori olhou para dentro da passagem.
Depois para Raiden.
— Você não vai?
Raiden sorriu.
— Eu já vi o suficiente.
Hashi franziu a testa.
— Você já esteve lá dentro?
Raiden não respondeu.
Apenas sorriu.
Hashi percebeu que não conseguiria arrancar uma resposta dele.
Então olhou novamente para a passagem.
Jin já estava entrando.
— JIN!
— O quê?
Ele olhou por cima do ombro.
— Se eu morrer, lembrem de mim!
Hashi levou a mão ao rosto.
— Eu sabia.
Zayra correu atrás dele.
— VOLTA AQUI, SEU IDIOTA!
— Hahaha!
Shiori suspirou.
— Eles realmente não têm medo da morte.
Hashi ajeitou os óculos.
— Talvez tenham.
Ele olhou para a passagem.
— Só não sabem demonstrar.
Shiori ficou alguns segundos em silêncio.
Então entrou.
Hashi permaneceu sozinho diante da porta.
Olhou para Raiden.
— Você sabia que isso aconteceria?
Raiden sorriu.
— Eu sabia que vocês chegariam até aqui.
— E depois?
— Depois...
Raiden deu uma mordida na maçã.
— Descubram vocês mesmos.
Hashi respirou fundo.
Olhou novamente para a passagem.
Depois entrou.
A luz o envolveu.
Raiden permaneceu do lado de fora.
Sozinho.
Observando a porta.
Seu sorriso desapareceu.
— Boa sorte...
A porta começou lentamente a se fechar.
— Crianças.
CLAC.
Tudo ficou silencioso novamente.
Dentro do desconhecido...
Hashi, Jin, Shiori e Zayra haviam dado o primeiro passo para descobrir a verdade sobre o Abismo.

FIM DO VOLUME 1.