
Uma Adolescente Oni
Capítulo 1 — A Arma Descartável
Capítulo 1: A Arma Descartável
O alarme já não parecia um som.
Era uma dor vibrando dentro dos ossos.
Rin Hoshizora corria pelos corredores da instalação subterrânea da K.A.O.S, desviando das portas automáticas e dos feixes de segurança que cruzavam seu caminho.
Ela não precisava olhar para trás.
Sabia que estavam vindo.
“Intruso detectado no Setor Gama. Interceptem a 42-R.”
A voz robótica ecoou pelos alto-falantes.
42-R.
Esse era o nome que a K.A.O.S havia lhe dado.
Durante anos, Rin acreditou que fazia parte daquela organização. Acreditou que estava ajudando a proteger a humanidade dos Onis.
Até dez minutos atrás.
Foi quando descobriu a verdade em um terminal criptografado.
Ela não era uma agente.
Era uma arma.
E, quando deixasse de ser útil, seria descartada.
Um disparo de energia passou raspando por sua cabeça.
Rin se abaixou e continuou correndo.
Atrás dela, agentes blindados avançavam.
“Não deixem a 42-R escapar!”
Rin apertou os dentes.
“Então é assim…”
Ela conhecia aquela instalação melhor do que qualquer um.
Cada corredor.
Cada câmera.
Cada ponto cego.
Afinal, haviam sido eles que a ensinaram a sobreviver.
Um grupo de agentes surgiu à sua frente.
Rin parou.
Seus olhos vermelhos brilharam por trás da máscara preta.
“Afastem-se.”
Por um instante, ninguém se moveu.
Foi o bastante.
Rin avançou.
O primeiro caiu com um golpe na têmpora.
O segundo tentou disparar, mas ela desviou do tiro e o atingiu no queixo.
Os outros três vieram juntos.
Rin girou entre eles, desviando dos golpes e derrubando cada um em poucos segundos.
Quando o último caiu, o corredor ficou em silêncio.
Ela respirou fundo.
Não havia tempo para pensar.
Rin chegou ao elevador de carga, arrancou o painel de controle e abriu a passagem vertical que levava ao exterior.
Subiu.
Quando finalmente abriu a escotilha, a chuva fria atingiu seu rosto.
Por alguns segundos, Rin ficou parada.
Então levantou os olhos.
Centenas de criaturas estavam esperando por ela.
Mais de trezentos Onis cercavam a instalação.
Alguns eram enormes.
Outros pareciam serpentes.
Alguns tinham formas quase humanas.
Todos estavam famintos.
Rin desceu até o pátio.
Os Onis avançaram.
Ela fechou os punhos.
Aquela era a parte de si mesma que mais odiava.
A parte Oni.
Mas, naquele momento, precisava dela.
O primeiro monstro atacou.
Rin desviou por pouco e usou a força da própria criatura para lançá-la contra o chão.
O impacto rachou o concreto.
Dois outros vieram logo depois.
Rin atravessou o ataque deles como uma sombra.
Um golpe.
Outro.
Mais um.
Os monstros caíam ao seu redor.
Ela não lutava como um Oni.
Lutava como alguém que havia sido treinada durante anos para matar exatamente aquilo.
Mas, enquanto continuava avançando, sentiu algo dentro de si despertar.
Seu coração acelerou.
Seu sangue ferveu.
A violência começou a parecer prazerosa.
Rin odiava aquela sensação.
“Não…”
Ela respirou fundo.
“Eu não sou como vocês.”
Canalizou o instinto e saltou para o telhado de um prédio próximo.
Por alguns segundos, conseguiu respirar.
Então percebeu alguém parado à sua frente.
Morph.
O homem vestia um quimono preto e vermelho. Sua longa katana repousava sobre o ombro.
Ele não havia se movido durante todo o massacre.
Apenas observava.
“Sempre gostei de como você dança, Rin.”
Ela ficou em silêncio.
Morph sorriu de leve.
“Mas está perdendo tempo. O Chefe Fry não quer matar você.”
Ele fez uma pausa.
“Ainda.”
Rin estreitou os olhos.
“Ele quer você de volta ao canil.”
A palavra fez seu sangue ferver.
“Canil?”
Morph não respondeu.
Rin levou a mão ao próprio braço, sentindo a dor dos ferimentos.
“Foi isso que ele decidiu?”
Sua voz tremeu.
“Depois de tudo?”
Morph permaneceu indiferente.
“Você é uma arma, Rin. E armas não fazem escolhas.”
Ela levantou os olhos.
“Eu já sei o que sou.”
Um passo à frente.
“Sou um peão que cansou de jogar.”
Morph colocou a mão sobre a katana.
“Então mostre o que aprendeu.”
Rin assumiu sua posição de combate.
Seu corpo ficou baixo.
Os punhos se fecharam.
A chuva escorria por seu cabelo e pelo rosto.
Seus olhos vermelhos brilhavam na escuridão.
Não eram mais os olhos de uma arma.
Eram os olhos de alguém que havia decidido escolher o próprio destino.
“O jogo acabou.”
Morph sacou a katana.
E, naquela noite, a caçada finalmente começou.
FIM DO CAPÍTULO 1
